O choque do nuevo

Juliana Monachesi

Publicado em: 01/12/2011

Categoria: Reportagem, visuais

Há ene motivos para explicar o crescimento do colecionismo de arte latino-americana no Brasil. O fato é que os latinos estão em alta no mundo

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Detalhe de El Libro de Oro (2010), instalação de Sebastián Gordín (foto: cortesia galeria Oscar Cruz)

A paisagem paulistana está cheia de exposições de artistas dos países hermanos. Há argentinos, colombianos, chilenos e mexicanos. Em quantidade menos expressiva, há também venezuelanos, uruguaios, cubanos e hondurenhos. Uma onda latina tomou de assalto as galerias e os museus da capital brasileira da arte. Nicholas Serota, curador da Tate Modern, afirma que, se pudesse salvar de um hipotético incêndio uma única obra da coleção do famoso museu britânico, levaria uma de Hélio Oiticica.

Adriana Varejão e Cildo Meireles batem recordes na Christie’s e na Sotheby’s, principais casas de leilões do mundo. Esses fatos e muitos outros que se sucedem podem nos levar à conclusão de que a América Latina é a bola da vez?

A constatação salta aos olhos quando se compara o elenco de artistas de galerias como Luisa Strina, Baró, Casa Triângulo e Nara Roesler, em fins dos anos 1990, com seus times atuais. Nota-se que o número de latino-americanos (excetuando-se os brasileiros) chegou a triplicar. No catálogo da feira espanhola ARCO, de 2000, a então Baró Sena tinha dois artistas estrangeiros e a hoje galeria Baró tem 12 latinos. A galeria Luisa Strina não tinha artista hermano algum em 2001 e hoje tem 13 (em um elenco de 35 artistas). Há uma década, a Casa Triângulo e a Nara Roesler trabalhavam só com nomes brasileiros, hoje contam com quatro latinos cada uma em seus times.

O que mudou nestes dez anos?

O galerista Oscar Cruz analisa a transformação do cenário pelo viés da mudança no perfil dos colecionadores: “O mercado de arte brasileiro era 100% nacionalista até o fim dos anos 1990”, observa. Vários fatores teriam contribuído para a abertura. Entre eles, “a melhora da situação econômica brasileira, a maior liquidez das obras e o fato de que as peças internacionais ficaram mais acessíveis pela desvalorização do dólar”. Ele nota ainda que “hoje existem coleções dedicadas apenas à arte internacional e colecionadores que gastam alguns milhões de dólares por ano com esse segmento”.

Para a espanhola Maria Baró, a maior facilidade de comunicação dos tempos atuais faz com que a arte, os artistas e a informação sobre ambos circulem mais. “As coleções argentinas sempre compraram arte brasileira”, sustenta. “Na feira de arte de Buenos Aires (ArteBA), os colecionadores reclamavam que a recíproca não era verdadeira.” De fato, a primeira exposição de Matias Duville que ela e Oscar Cruz fizeram na galeria Baró Cruz não vendeu nada: “Ninguém entendeu por que estávamos expondo um argentino, mas hoje vejo que o investimento de longo prazo feito pela galeria teve seu papel na divulgação dos artistas da América Latina em São Paulo”, afirma. O próprio Duville, hoje na galeria Luisa Strina, serve de prova: caiu nas graças dos colecionadores brasileiros.

O fator econômico

As feiras de arte contemporânea na América Latina, como ArteBA (Argentina), Zona Maco (México), ArtBo (Colômbia) e também Miami Basel e outras feiras no exterior voltadas para a arte latino-americana (como Pinta Londres e Pinta NY), desempenharam um papel importante nessa difusão. Mas os discursos variam no que se refere à pertinência de eventos específicos. “Se o artista é bom, eu trabalho com ele”, diz Luisa Strina. “A gente vive em um mundo global, não existem mais diferenciações entre arte brasileira, latina, internacional”, diz Strina, que afirma “evitar feiras de nichos”. Mas, apesar de sua galeria sempre ter tido perfil internacional – exibindo nomes como Jenny Holzer, Tracey Moffat e Antoni Muntadas –, a marchande confirma interesse recente pela arte latino-americana: “Essa produção teve um upgrade nos últimos anos”.

Os caminhos ditados pelas forças econômicas não se restringem ao montante que circula nas feiras. Eles passam por mudanças culturais de âmbito global. “Grande parte dos patronos dos grandes museus é de latinos”, argumenta Maria Baró. Luisa Strina não concorda que o dinheiro esteja mudando de mãos: “Ele continua lá nos EUA e na Europa, como sempre. O que se começa a notar nas feiras internacionais é uma abertura das galerias para compradores brasileiros”.

Daniel Roesler (da galeria Nara Roesler) conta que uma das coisas que mais lhe chamaram a atenção quando viveu em Nova York, no fim da década de 1990, foi que parte da cidade era bilíngue: “Os hispânicos ultrapassaram os negros como maior minoria nos EUA e são o grupo demográfico que responde por 10% do PIB norte-americano”. Uma das consequências, para Roesler, “é o aumento de latinos nos conselhos dos museus, e, como essa minoria quer se ver culturalmente representada, aumentam também as exposições de artistas da América Latina”.

Mas será que o aspecto financeiro pesa na aquisição? “A arte latina é mais acessível do que a do Hemisfério Norte”, diz Baró. “Um colecionador de Houston recentemente admitiu ser esse um dos motivos para comprar essa produção. Além disso, é mais difícil acompanhar a evolução de artistas do Hemisfério Norte.”

O empresário Eduardo Barella, que há dois anos vem acrescentando obras de latino-americanos à sua coleção, afirma que seria hipocrisia dizer que o preço não é importante. “Mas não é o fator decisivo”, frisa. “Para mim, o mais relevante é acompanhar mais de perto a trajetória do artista.” Conceitual e construtivista, a coleção de Barella organiza-se em torno de nomes consagrados, com aposta em jovens talentos que dialogam com a produção dos veteranos. “Gosto muito de Alfredo Jaar e, por ter trabalhos dele, passei a acompanhar a produção de jovens como Marcelo Cidade, que trazem discussões políticas que ecoam no conjunto do acervo”, situa.

Para o colecionador Pedro Barbosa, do mercado financeiro, a coerência da coleção é o fator mais importante. Seu foco, construído ao longo de 15 anos, são as relações entre arte e matemática: de arte cinética e construtiva até a obra do jovem Nicolas Robbio. “Coleciono latino-americanos desde o começo, porque há a tradição cinética na Venezuela, mas compro obras de jovens latinos há quatro anos. Atualmente, a Colômbia me chama muito a atenção”, conta, citando Gabriel Sierra, Mateo Lopez e Nicolás Paris.

O glamour lá e cá

Nem todo colecionador brasileiro demonstra tamanho rigor. A abertura para a arte internacional muitas vezes “acontece por deslumbramento”, nota Oscar Cruz. “O glamour em torno das feiras estrangeiras, onde circulam milionários como François Pinault ou Bill Gates, é sedutor e muitos colecionadores estão vendendo boa arte brasileira ou latina para comprar arte internacional ruim”, desabafa. “Isso é um desserviço à arte, além de desmerecer o nosso colecionador aos olhos de visitantes de fora, que não encontram nas coleções brasileiras nenhuma particularidade relevante”, diz o galerista.

Ele também defende a responsabilidade dos diferentes atores do sistema de artes de repertoriar o público. “Na galeria, a gente mostra o que tem qualidade, independentemente de nacionalidade. Mas os EUA defendem o seu território, não defendem? De que forma o mercado pode ser orientado para não continuarmos a ser colonizados em nossos gostos e olhares?”

O Roesler Hotel, que promove desde 2002 um processo de internacionalização da galeria Nara Roesler, pode ser visto como alternativa de reorientação do mercado. “Queria que a galeria se abrisse mais ao mundo, então a levei para a Zona Maco (feira Mexico Arte Contemporaneo)”, conta Daniel Roesler. Nessa ocasião, começou a trocar ideias com marchands e a conhecer artistas das galerias vizinhas. Dessa forma, nasceu o projeto de intercâmbio e a rede de parcerias com galerias estrangeiras, que define o foco do Roesler Hotel.

Martin Sastre, Dino Bruzzone, Maximo González, Jose León Cerrillo, Alberto Baraya e Jonathan Hernández foram os latinos que já integraram o projeto. “O Brasil exerce enorme fascínio nos artistas, é um polo de atração que facilita a aceitação de convites para expor”, conta. “No Roesler Hotel, houve sempre uma condição de que o artista passe um período aqui, para estabelecer contatos, fomentando novas redes.”

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