O corpo e os novos hábitos cognitivos

Nesse tipo de mundo, o que sucede com as artes que dependem do corpo para acontecer?

Helena Katz

Publicado em: 26/10/2015

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

Meia-Noite Também É Meio-Dia (2004), de Marilá Dardot, um relógio que leva o dobro de tempo para fazer a volta (Foto: Cortesia Galeria Vermelho)

Passados todos esses anos de treino diário de várias horas usando as telas que nos cercam, nos transformamos em sujeitos que se relacionam, basicamente, de três formas: curtindo, deletando ou reenviando. Ações distintas, mas realizadas da mesma maneira: com um único toque da ponta do dedo. Vivemos no mundo me myself and I, desenhado de acordo com o que cada um decide, a partir do que deseja. Somos adultos mimados e as consequências desses novos hábitos adquiridos na vida on line escorrem para o viver off line.

Nesse tipo de mundo, o que sucede com as artes que dependem do corpo para acontecer? Nunca foi recomendável olhar para o que se produz sem levar em conta as condições para a sua produção, e agora cabe identificar o que nelas se alterou. Podemos lembrar, por exemplo, que já nos acostumamos a não mais distinguir o público do privado; que fingimos ignorar sermos sujeitos indexados em cada uma de nossas atitudes on line (rastreadas pelos instrumentos de busca que continuam sendo aperfeiçoados).

Essas são mudanças sérias, ligadas aos nossos novos hábitos cognitivos. E, quando a coisa acontece na cognição, altera o jeito de olhar o mundo. Hábitos cognitivos porque são característicos do corpo, manifestam-se no comportamento, em cada uma das atitudes que se toma. No que se relaciona ao corpo, nada escapa, nem as artes que o corpo faz. Mas, como pouco atentamos ao que já nos transformamos (adultos mimados), raramente nos damos conta de que só aceitamos uma obra quando ela nos agrada ao primeiro olhar, seja uma performance, uma dança, uma peça de teatro ou qualquer outra forma de manifestação artística. Tratamos todas como objetos de consumo, que precisam seduzir e acariciar o nosso gosto.

Juntando esse jeito consumista de lidar com a arte com a condição em que ela se produz hoje no Brasil (via as formas de financiamento à cultura vigentes desde 1986, com a implantação da primeira Lei de Incentivo à Cultura, a hoje extinta Lei Sarney), monta-se um quadro preocupante. Como o alcance dos novos hábitos cognitivos é amplo, geral e irrestrito, pois eles se referem ao que sucede com o corpo, afeta tanto quem faz quanto quem entra em contato com qualquer tipo de manifestação artística.

Nesse quadro, uma das tintas mais fortes é a da condição de os fazeres artísticos terem passado a ser condicionados pela periodicidade dos editais. O financiamento à cultura se dá, na sua quase totalidade, pela privatização do dinheiro público. A distribuição desse dinheiro se faz por editais. Os artistas se adequaram a essa situação e a encaram como se não existisse outra possibilidade para a sua sobrevivência. Apertados pela necessidade de produzir projetos com muito mais frequência do que desejariam, os artistas são levados a trocar o tempo da criação, que não é facilmente domesticável, pelo tempo da criatividade, hoje reduzida a um tratamento publicitário de “boas ideias”, rapidamente suplantáveis pelas próximas “boas ideias”. Pascal Gielen, professor de Sociologia da Arte na Universidade de Groningen, na Holanda, escreveu, em 2013, um livro chamado Criatividade e Outros Fundamentalismos, no qual explica que a criatividade passou a ser uma espécie de fundamentalismo, pois até as cidades precisam ser criativas, além da economia, é claro.

A ausência do tempo da criação que, geralmente, transborda o tempo do relógio, quando substituído pela velocidade da criatividade eficiente, deixa rastros nas obras que vão sendo gestadas. Para olhar para a cena povoada pela produção das artes do corpo no Brasil de hoje, há que saber identificar a forma e a espessura da moldura que as Leis de Incentivo à Cultura aqui delimitaram. Cada uma das artes tem uma especificidade, dentro da condição de produção compartilhada, que também muda. Veja que a Lei Municipal do Fomento, em SP, dilatou os seus prazos.

Como a relação corpo-ambiente é a condição da existência de ambos, as transformações não cessam, o mundo aqui descrito já sinaliza o início de outra fase. A tecnologia chega cada vez mais perto do corpo. iWatch ou Google Glass nos fazem perceber que a relação com os equipamentos que já manejamos também vai mudar. Em breve viveremos em um mundo sem telas, no qual a tecnologia será ainda mais corporificada. Vale ficar atento para o corpo e a arte que ele fará.

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