O crítico de arte deve ter contato pessoal com o artista?

Cauê Alves, Jacopo Crivelli, Luisa Duarte, Mirtes Marins de Oliveira e Paulo Miyada respondem à pergunta feita pela #select37

Da redação
Cauê Alves (Foto: Paulo D'Alessandro)

Parece cada vez mais difícil encontrar profissionais que sejam somente críticos de arte. Atualmente, os críticos parecem exercer outras atividades em paralelo, como a de curador, professor, pesquisador, gestor cultural e até mesmo de artista. Será que ficou no passado a velha imagem do crítico de arte vivendo numa espécie de pedestal, emitindo julgamentos sem ter de lidar corpo a corpo com os personagens centrais da arte, que são os artistas? Uma boa crítica julga ou traduz? Será que para ser um bom crítico é preciso evitar o contato pessoal com artistas? Esta foi a pergunta que seLecT fez para um grupo de críticos de arte.

Cauê Alves
Crítico e curador
Ajuda muito. Para mim, é fundamental a aproximação entre crítico e artista, para a compreensão do processo de elaboração do trabalho de arte. Todas as informações que eu puder obter do artista podem ser relevantes para a atividade crítica. Não se trata de dizer que a crítica deva apenas reiterar o discurso do artista, mas que o crítico aprende ao entender o modo como esse artista elabora suas questões. Não penso a atividade crítica como um trabalho distante, pois, na verdade, não busco distanciamento algum, ao contrário, prefiro mergulhar no trabalho do artista. Em vez de escrever sobre arte, me interessa escrever com a arte.

Paulo Miyada (Foto: Patrícia Araujo)

Paulo Miyada
Curador e pesquisador
Na realidade, prefiro definir minhas atuações como de curadoria e pesquisa. Entendo que há muitos aspectos da crítica que entram em jogo nessas tarefas, mas que a curadoria se distingue por orientar-se por um duplo compromisso: com os artistas e com os públicos. Nesse sentido, existe uma cumplicidade inerente com os artistas que vai além do “contato pessoal” e se estende em interlocução, desafio mútuo e parceria. De forma simétrica, com os públicos, também se pretende que exista diálogo, troca de informações, percepções e, eventualmente, dissenso. Por isso, sempre que possível, procuro escrever informado por conversas e convívio com os artistas, ainda que esperando traduzir uma perspectiva que não seja um decalque daquela que ele já tem sobre sua obra e sobre o mundo. Isso em nada diminui o valor dos comentários feitos sem travar contato com os artistas, mas essa não é a posição de onde prefiro escrever. Por fim, as reflexões mais vivazes sobre arte que conheço me foram apresentadas por artistas.

Luisa Duarte (Foto: Vicente de Paulo)

Luisa Duarte
Crítica e curadora
Afirmar que o contato pessoal com os artistas atrapalha seria quase como afirmar que existiria uma crítica no sentido desinteressado, kantiano, e que tal proximidade colocaria em risco tal posição crítica. Mas como creio que estamos hoje muito mais próximos de uma posição de interlocutores que traduzem o gesto artístico do que de críticos que julgam esse gesto, não vejo como o contato pessoal poderia atrapalhar.

Entretanto, o “contato pessoal” de forma alguma é condição para a escrita, para a “crítica”. São muitos os casos de textos sobre obras cujo resultado é feliz e que pouco contato tive com os artistas. O contato pessoal não garante um bom texto, tampouco a falta dele sinaliza um problema.

Quando olho para minha trajetória, não consigo imaginá-la sem o convívio próximo com os artistas. Por meio das conversas constantes, das visitas aos ateliês, podemos medir o pulso da obra de forma mais íntegra. O que acontece é um aprendizado mútuo entre duas pontas que respiram um mesmo ar do tempo e, através da troca, buscam compreender, juntos, esse tempo em que vivem, tendo o trabalho de arte como uma lente fértil. 

Jacopo Crivelli (Foto: Katia Kuwabara)

Jacopo Crivelli
Crítico e curador
Eu considero fundamental discutir com o artista tanto o trabalho dele quanto qualquer outro assunto que possa surgir na conversa. Isso porque quase sempre nessa conversa acabamos falando de detalhes ou aspectos do trabalho que eu não tinha percebido. Frequentemente, o artista também acaba enxergando em sua própria obra temas ou questões que ele não estava considerando. É uma troca extremamente rica. Tudo isso, depois, acaba confluindo de alguma maneira no meu trabalho, seja um texto crítico, seja um texto de parede que acaba servindo como introdução à obra, e que tem, portanto, um papel relevante na maneira como ela é entendida pelo público.

Mirtes Marins de Oliveira (Foto: Cortesia Instituto Figueiredo Ferraz, Luiz Cervi)

Mirtes Marins de Oliveira
Crítica e pesquisadora
De meu ponto de vista, não há regra fixa na elaboração crítica. Talvez seja possível falar de abordagens preferidas nessa construção, mas mesmo assim duvido que sirvam para todos os cenários. O contato pessoal – penso que se fala de uma conversa, entrevista – não é necessariamente uma obrigatoriedade. Afinal, como tratar de obras e artistas do passado, para os quais esse contato não seria mais possível? Seriam aproximações menores ou desqualificadas? Não acredito. Pelo contrário, essa distância permite que se valorize a condição contemporânea do crítico em relação ao que foi produzido. No meu caso, costumo escrever mais sobre exposições do que sobre obras e artistas. Mesmo assim, não estabeleço como exigência a conversa com o curador, inclusive porque penso que aspectos institucionais são tão determinantes para as mostras quanto a perspectiva autoral daquele profissional, assim como os significados que as obras podem apresentar. Considero o enunciado público como o mais importante e, no confronto daqueles envolvidos em uma exposição – arquitetura, fluxos, narrativas, textos oferecidos ao visitante, educadores e os públicos, entre outros –, é que coloco o meu lugar crítico.

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