O curador é dispensável?

da Redação

Publicado em: 12/03/2015

Categoria: Fogo Cruzado, Reportagem

A figura do curador popularizou-se no Brasil em meados dos anos 1980, na esteira da profissionalização do mercado de arte e do aumento da produção cultural. Dada a flexibilidade de seu papel, mediando as relações entre artistas, instituições e público, ganhou protagonismo e onipresença, que vieram a ser questionados nas décadas seguintes. Ainda atual, a seLecT estende o debate sobre a relevância de seus papéis

Brenner

Legenda: (foto: Cortesia Pivô)

Fernanda Brenner

Artista e diretora do Pivô

Essa pergunta tem muitas respostas e todas elas me levam a pensar em contexto. Acredito que, nas últimas décadas, o termo “curador” passou a significar uma categoria vasta que inclui pessoas com perfis distintos no meio das artes visuais: o curador-diretor de museu, o curador de coleções, o curador-crítico, o pesquisador independente, o artista-curador, e por aí vai. Esses curadores atuam em muitas áreas, que, combinadas, constituem o campo da cultura contemporânea tal como a conhecemos. Responder se o curador é dispensável me leva a pensar sobre o caminho que existe entre a ideia e o “período visível” de um projeto ou trabalho artístico. A figura do curador-profissional em sua definição mais comum não precisa existir em todas as circunstâncias, porém, o pensamento curatorial empregado nas decisões de como apresentar arte e ideias, na produção de conteúdo crítico e a interlocução no desenvolvimento de cada projeto expositivo são, sim, indispensáveis.

Pedro Paulo Rocha

Artista

A curadoria ser indispensável ou não, não faria a menor diferença, se a figura do curador não fosse no limite exatamente a mediação a ser ultrapassada pela proliferação de novas formas de arte que surgem em nossa extemporaneidade.

Artur Barrio

Artista

…o curador é uma necessidade desnecessária…

Rodrigo Andrade

Artista

Certa vez, nosso ex-supercraque Romário disse que “técnico bom é aquele que não atrapalha”. É possível dizer o mesmo dos curadores. Assim como os técnicos no futebol atual, a arte contemporânea sofre de uma sobrevalorização dos curadores (embora isso venha se adequando melhor nos últimos anos). Mas, mantendo a comparação, se curador bom é aquele que não atrapalha, curadores que ajudam são ótimos. Seja como for, essa figura não é dispensável. De modo algum. É importante que haja pessoas com espírito crítico, intelectuais que reflitam e pesquisem sobre a enorme produção de arte atual, que pensem em associações de trabalhos de diferentes artistas e na melhor maneira – em diferentes maneiras – de mostrá-los. E também acho enriquecedor que não artistas possam servir de interlocutores junto aos artistas, para pensarem seus trabalhos e servirem como propositores de projetos que abram novas perspectivas, sobretudo diante do crescimento e da internacionalização do mercado de arte, ocorrido recentemente.

Thomas Cohn

Galerista

Curadorias são indispensáveis. Os curadores? Estamos num meio no qual artistas, colecionadores, galeristas e críticos SOMOS amadores, autodidatas e autodiplomados. A Bienal continua no seu mergulho para a irrelevância total, os museus estão presos a orçamentos insignificantes e “coleções” não são renovadas. Os “mais conhecidos” das artes são o Paulo Coelho, Romero Britto e sertanejos. Os nossos curadores (bons, medíocres ou ruins) fazem parte desse meio cultural, não são seus vilões.

Elly de Vries

Gerente de marketing e curadora da Coleção Santander Brasil

O curador permanente de uma coleção tem um profundo conhecimento de um acervo específico: define a política de preservação, ampliação e eventual descarte. A partir da sua vivência com a coleção, cria múltiplas possibilidades de leitura e comunicação desse acervo, assim como de diálogo com outros acervos. No caso de exposições temporárias, ele estabelece um fio condutor para apresentar uma temática ou a trajetória de um artista e ampliar o conhecimento ou discussão sobre alguma questão, ficando a seu critério a seleção de obras e narrativas a serem construídas. Nesse sentido, entendo que a atividade de curadoria é indispensável para a dinamização da cultura e preservação da memória.

*Fogo cruzado publicado originalmente na edição #22

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