O deslocamento também é ideológico

Em tempos de pandemia, a residência Veiculo SUR apresenta modelo combinado entre experiências e deslocamentos virtuais, enquanto ainda não é possível transitar pelo mundo

Leandro Muniz

N° Edição: 48

Publicado em: 07/12/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Atividade da residência veiculo SUR 2018 em Huentelauquén, Chile (Foto: Ana Paula Mathias e Maëlys Meyer)

Devido à pandemia do coronavírus e ao isolamento social, as residências artísticas viram-se num impasse. Na seLecT #44, analisamos o que constitui, como se viabilizam e qual é o perfil de artistas que participam de uma residência. Uma premissa seria o deslocamento e, considerando que essa prática está em suspensão, para se evitar o alastramento do vírus, vale a pergunta: cabe ainda chamar de residência se a interação é puramente virtual?

Alguns projetos deslocaram a totalidade de sua programação para o mundo virtual, outros suspenderam atividades e há ainda aqueles que, mesmo em tempos de reclusão, colocaram artistas em trânsito. A despeito das boas iniciativas desses novos projetos digitais no Brasil e no mundo, alguns se caracterizam como grupos de acompanhamento e discussão, ou como projetos de ocupação das redes sociais e sites de espaços independentes e instituições, sem necessariamente propor um tempo de suspensão da produtividade para abrir um local para reflexão – o que seria próprio da ideia de residência. Valeria ainda relativizar a categoria takeover (ocupação de redes sociais), que ganhou ainda mais ressonância no meio artsy em geral e em algumas residências. Afinal, a dinâmica de troca de visibilidade por trabalho não remunerado parece um elemento falho da dinâmica desse sistema.

Outros espaços
Nesse contexto, a residência Veiculo SUR estabeleceu um modelo que combina experiência de discussões on-line e uma continuidade presencial, assim que houver condições para tal. Gerido pelos artistas Maëlys Meyer, Marcela Olate, Mario Lopes, Thaïs Ushirobira, David Muñoz, Andrea Arobba, e Ana Paula Mathias, e realizado em parceria com instituições no Brasil, Chile, Finlândia, França, Alemanha e Uruguai, o projeto existe desde 2018 e tem como objetivo a criação de deslocamentos de artistas do Sul ao Norte, de modo nômade e coletivo. Os selecionados para participar compartilham de tempo juntos em um trajeto que passa por esses países, onde cada um dos articuladores está sediado, discutindo seus interesses em busca de conexões e da criação de um espaço comum. A residência é focada em corpos e experiências dissidentes. Trata-se de uma afirmação política de que os modos de produção artística no Sul têm suas especificidades, a partir das urgências de cada lugar. Seu teor, portanto, coloca em evidência o conflito sofrido por esses corpos, intensificado pela sensação de ser imigrante. Um artista de cada um desses países é selecionado e, na etapa on-line, junto ao articulador, vai pensar uma programação a partir de seus interesses e questões locais, replicando a dinâmica de deslocamento por diferentes contextos na experiência virtual. “Nos interessa criar situações de deslocamento ideológico, não apenas geográfico”, diz Maëlys Meyer à seLecT. “Nessa etapa remota, além de adaptar o pensamento para o virtual, nos interessa construir juntos, de acordo com quem participa.” Além de repensar a importância do atual momento histórico, essa etapa on-line será um momento de troca entre residentes, organizadores e instituições.

“Quando abrimos a convocatória, veio a pandemia. Faz sentido continuar com um projeto de deslocamento em um momento em que temos de ficar em isolamento e distanciamento?”, diz Thaïs Ushirobira. “O deslocamento nunca foi equânime por questões econômicas, raciais e políticas, mas entendemos que, já que as fronteiras vão ficar mais estreitas, faz mais sentido ainda criar possibilidades para corpos fora das normas.” Completamente gerida por artistas, a Veiculo SUR busca não só criar situações institucionais, mas de um tempo em suspenso, onde se possa compartilhar dúvidas, incertezas e, principalmente, caminhar junto a partir da singularidade de cada participante. “Uma residência gerida por artistas não é só um local de visibilidade ou de legitimação. É um espaço onde o diálogo pode acontecer e nós podemos nos colocar em suspensão, nos deixar atravessar, seja no deslocamento entre Norte e Sul, seja nos encontros remotos, que na verdade já era o nosso modo de operar, desde o começo”, diz Ushirobira.

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