O devaneio é uma viagem no riomar da imaginação

O poeta e ensaísta João de Jesus Paes Loureiro fala sobre a revelação do imaginário amazônico

Paula Alzugaray

Publicado em: Vol. 10, N 50, Abril/ Maio/ Junho 2021

Categoria: A Revista, Destaque, Entrevista

Paes Loureiro fotografado por Luiz Braga

João de Jesus Paes Loureiro foi criado ouvindo que a sua Abaetetuba natal, cidade ribeirinha do Baixo Tocantins, convivia com uma Boiúna, a grande cobra lendária, submersa em suas águas. Ele cresceu, tornou-se poeta, prosador, ensaísta e doutorou-se em Sociologia da Cultura na Sorbonne, em Paris, com a tese Cultura Amazônica: Uma Poética do Imaginário. É professor de Estética, Filosofia da Arte e Cultura Amazônica na Universidade Federal do Pará, publicou dezenas de livros, expôs poemas visuais na 10ª Bienal de São Paulo, além de ter sido secretário da Educação no Pará. Mas a Boiúna, o Boto, a Iara, o Tambatajá e a circunstância cabocla de “ver maravilha nas coisas” acompanharam-no durante todo o percurso.

Adepto do “devaneio poetizante” na escrita e na vida, é da realidade cultural da Amazônia que Paes Loureiro extrai os sentidos e as direções de sua poesia, seus romances e também de uma vasta obra ensaística, que trafega transversalmente pela estética, a história, a literatura e a semiótica. Afinal, “a poesia nasce geminada com o encantamento”, diz ele.

seLecT: Uma vez o senhor se referiu à sua cidade natal, Abaetetuba, como uma cidade encantada e mito de uma utopia social. Como Abaetetuba realiza essa sua vocação mítica?
Paes Loureiro: Abaetetuba é uma cidade ribeirinha, situada às margens do Baixo Tocantins. O município do qual é a sede é formado por mais de 70 ilhas. É o espaço cultural fecundo e fecundador dessa cartografia mítica enriquecedora do imaginário social. Uma produção fabulosa que tem um repertório tradicional e outro em constante processo de invenção, a partir do devaneio de pescadores e plantadores, cuja imaginação é impregnada pela relação entre a natureza magnífica e a vida. As extensões da solidão propõem um mundo a ser povoado pela imaginação criadora dessa habitação mítica. Tanto que nós, os que nascem em Abaetetuba, nos criamos a ouvir a narrativa que a cidade convive com uma Boiúna submersa, cobra grande lendária. No dia qualquer em que o rabo dessa imensa cobra for cortado, em uma de suas raras saídas pelo rio até a praia de uma ilha, a cidade será desencantada e, em seu lugar, surgirá outra com as mesmas pessoas que vivem na atual. A diferença é que será uma sociedade em que todos serão tratados de forma igual. Viverão na igualdade. Eu interpreto essa lenda como uma utopia social de feição socialista.

S: Em Cultura Amazônica, uma Poética do Imaginário, o senhor afirma que, para compreender a Amazônia, é preciso levar em conta seu imaginário social, que decorre de profunda relação com a natureza. Em que medida a sucessão de crises brasileiras, culminando com o atual governo negacionista, com endosso às queimadas e à pandemia, desequilibram esse sistema e alteram esse estado das coisas?
PL: A violentação da natureza, o desequilíbrio ecológico, a propagação de queimadas, a plantação de desertos, o cultivo de agricultura da soja e a multiplicação de rebanhos, predatórios do solo por falta de normas reguladoras e facilitação de transgressões por diminuição da vigilância, e o processo acentuado e incorporado nas ações do governo Bolsonaro para a Amazônia desequilibram um sistema de vida com imprevisíveis consequências sociais e predadoras de sua cultura, na qual o imaginário poetizante tem sua particularidade e riqueza. O imaginário não brota do nada. Brota de uma relação com a realidade concreta.

Éden (2017), de Luiz Braga

S: Que imaginário emerge da implantação de projetos agropecuários, hidrelétricos, de mineração e destruição da natureza?
PL: O imaginário angustiado diante da terra-sem-males, nessas-terras–do-sem-fim, é também violentado, fatalmente passando a absorver o sentimento de que há um retorno ao inferno verde antes cunhado na região. Anteriormente, havia o imaginário recriando simbolicamente o mundo idealizado a partir de uma realidade idílica. Agora, o imaginário incorpora o sentimento de perda ou morte, das vidas, do solo, dos rios, da floresta, de um mundo.

S: No livro, o senhor afirma entender por cultura amazônica aquela que tem a sua origem na cultura do caboclo, termo de origem indígena que significa“homem que vem do mato, da floresta”. O que é a “revelação cosmogônica” do caboclo diante da natureza amazônica?
PL: Podemos reconhecer a revelação cosmogônica do caboclo e do índio diante de sua natureza (não se pode esquecer que a natureza amazônica contém a categoria da sublimidade, se lembrarmos as palavras do filósofo e geógrafo Immanuel Kant, ou estudar, na categoria do sublime, o sublime da natureza). A natureza amazônica é um dos exemplos dessa dimensão do sublime, vista por Kant cientificamente, mas sentida intuitivamente pelos índios e caboclos. Tanto que a cosmogonia mítica na Amazônia alegoriza a ideia do universo, a criação do mundo, o surgimento da vida, a relação entre o mundo original no alto e sua implicação no surgimento do mundo em que vivemos. Em alguns casos, uma percepção de dois mundos semelhante ao que Platão formulou. O que mostra que, diante da vida, cada representante de uma determinada cultura busca explicar, ao seu estilo, essas permanentes inquietações sobre saber a origem, a razão de tudo. Uma obra de grande sabedoria sobre essas questões é A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Obra que registra a narrativa da vida de Davi Kopenawa, desde quando é procedida sua iniciação religiosa e seu percurso até se tornar um líder Yanomâmi.

S: Ainda a esse respeito, eu diria que, ao brilho do sol nas águas e nas folhas molhadas, se somam hoje os brilhos da noite tecnobrega e do afrofuturismo, incorporados nas estéticas de artistas que estão investigando suas raízes afro-indígenas. Como situa o imaginário afro-indígena na discussão sobre a formação da cultura amazônica?
PL: A cultura é um processo de intercorrências. Não se congela. Tem a quentura de ser produção humana. Incorpora em sua composição todas as variantes que a vida social vai tendo. Não há mudança de realidade sem a correlata mudança cultural. A cultura afro resultante da crescente presença dos negros, que levam verdadeira devoção por sua cultura de origem e por sua força, passou a contribuir para o enriquecimento da cultura originária de índios e caboclos. No caso do tecnobrega, além da lambada e da guitarrada, é contribuição das culturas oriundas do Caribe, que, por sua vez, são também afrodescendentes. O que penso é que, ainda que o imaginário urbano “internacionalizado” passe a ter maior divulgação e peso, permanece na Amazônia o caráter distintivo da dominância do poético. A poética do imaginário.

S: O senhor usa a metáfora do encontro das águas dos rios amazônicos para se referir à fusão entre realidade e “devaneio poetizante”, entre mito e poesia – que seria o modo de o ribeirinho “estranhar” sua realidade cotidiana. Como poesia e encantamento se enlaçam?
PL: A poesia nasce geminada com o encantamento. Mesmo que o conteúdo não seja lírico, a poesia no poema encanta pela sedução da palavra e dos efeitos poéticos nela comprimidos. Pode-se ler com encantamento o capítulo do inferno na Divina Comédia, de Dante, pelo encantamento que emana do uso da linguagem, das metáforas, símiles, alegorias, enfim, daquilo que constitui sua forma literária. Podemos lembrar o Morte e Vida Severina, de João Cabral. Navio Negreiro, de Castro Alves. Daí, porque, na radicalização do poema dito engajado, esse efeito poético cede, um pouco ou muito, sua dominância de forma para o conteúdo. Na verdade, todo poema é uma relação complexa entre forma e conteúdo que, mutuamente, se definem.

S: Em que medida o “devaneio”, esse elemento estruturante do imaginário amazônico, tem relação com a vida nômade das comunidades amazônicas?
PL: O devaneio é como um sonho acordado. Uma viagem no riomar da imaginação. Nasce no olho d’água individual para desaguar no oceano do imaginário social através da arte, das narrativas fabulosas, do misticismo. O devaneio acompanha a vida nômade como forma de desejo de uma vida criada pelo devaneante. Como se o devaneante desejasse criar o seu destino.

S: E como se dá hoje o encontro entre os imaginários do homem da floresta e do homem amazônico dos centros urbanos?
PL: É quando o homem da floresta sente o impacto do preconceito relativo à sua cultura. E a pressão para que substitua os produtos desse imaginário, tidos como atrasados, pelos que a cidade oferece, que representam o atual, o civilizado. Esse encontro é impactante, porque vem na convivência do cotidiano, no sistema de ensino, em programas da mídia, na vida política, no mercado de trabalho.

S: O isolamento é apontado pelo senhor como um aspecto fundamental da constituição do imaginário amazônico – tanto do ponto de vista geográfico quanto do político-administrativo. É muito interessante saber que, entre o século 17 e o início do século 19, a Amazônia não tinha vínculos de subordinação com o Brasil, sendo inteiramente autônoma, mantendo-se marginalizada em relação, inclusive, à América Latina. Em meados do século 20, essa condição muda radicalmente. Essa condição teria sido revertida pelas políticas econômicas exploratórias implantadas pelo regime militar brasileiro, condicionando a região amazônica a uma dependência crítica da União. Segundo um estudo da PUC-Rio, 25% de todos os empregos formais oferecidos na Amazônia Legal estão hoje no setor público e quase a metade da renda dos habitantes da região – 48,8% – vincula-se diretamente a pagamentos feitos pelo Estado brasileiro. Como o senhor interpreta essa condição paradoxal entre isolamento e dependência?
PL: Quando falo do isolamento como propiciador da constituição dessa relação entre homem e natureza, que prefiro homem/natureza, motivador desse imaginário amazônico, não desejo ser entendido como se fosse um fato posterior à construção da Belém-Brasília, quando passou a ser substituído pela integração. A retirada do isolamento, pela forma como a economia começou e a ditadura institucionalizou, é que foi problemática, pois foi uma invasão desse isolamento com a mentalidade de usufruir dos bens materiais que enriquecem a região. De modo que a retirada do isolamento não foi em benefício de sua gente, nem da região. Foi para usufruir dela, expropriá-la, saqueá-la. A região e sua população foram empurradas para a dependência. Não podemos deixar que se inverta o problema. Não foi o isolamento que gerou a dependência. O isolamento foi consequência da imposição dessa dependência, agravada pela política da ditadura militar para a Amazônia. A socióloga Violeta Refkalefsky Loureiro vem estudando com profundidade e revelando novos ângulos às questões amazônicas, dentre inúmeras contribuições em pesquisas, interpretações e questionamentos das formas de desenvolvimento impostas à Amazônia. Será pertinente ressaltar aqui alguns de seus conceitos formulados a partir de seus estudos: na obra Amazônia: Estado Homem Natureza, o conceito de “desenvolvimento às avessas” imposto à Amazônia, que transformou a “terra livre” anterior à ditadura militar, em que somente 2% eram tituladas como propriedade privada, no espaço de acelerada multiplicação desse porcentual, evoluindo para o atraso; outro conceito-chave que a socióloga vem desenvolvendo em artigos e conferências, e que será tema do novo livro que leva a sua proposta no próprio título, é: Amazônia – Colônia do País Brasil.

S: No texto “A poesia como encantaria da linguagem”, publicado no catálogo de Pororoca – A Amazônia no MAR, o senhor relaciona as encantarias a um “Olimpo submerso nos rios da Amazônia”. É muito interessante o trecho em que afirma ser o épico a navegação em grandes barcos no oceano e o lírico o navegar dos rios em canoas pequenas. A origem dessa convergência entre a teogonia amazônica e a antiguidade clássica está no próprio fato de o maior rio e a maior floresta tropical do mundo terem ganhado o nome das guerreiras da mitologia grega?
PL: A Amazônia, como “paraíso na terra”, já estava no imaginário do mundo, pelo menos do mundo ocidental. Pode-se dizer que o imaginário foi a bússola que guiou as caravelas a chegarem até o dito Novo Mundo. Como se esse mundo estivesse começando naquele momento. Ao mesmo tempo, os navegadores desembarcaram na Amazônia trazendo em sua bagagem o imaginário grego. O frei Gaspar de Carvajal, vendo as mulheres guerreiras cavalgando portando arcos, flechas e sedução em cavalos selvagens, comparou-as às Amazonas da mitologia grega, da antiguidade clássica. Na língua nheengatu, derivada do tronco tupi, são denominadas de Icamiabas, que é como prefiro me referir a elas. Na verdade, como a mitologia greco-romana tornou-se um padrão de referência no Ocidente, não esqueçamos que os navegadores aportaram no Brasil na fase do Renascimento, quando essa mitologia se tornou forte referência. Não esqueçamos que em Os Lusíadas, Camões faz o cruzamento entre a mitologia pagã greco-romana e as entidades sagradas do catolicismo. Quanto ao lugar de mitos e deuses, o mundo é um verdadeiro arquipélago imaginal: Olimpo na Grécia. Encantarias na Amazônia. Além dos Andes, no Peru. Para dar alguns exemplos.

Curupira (2018), de Luiz Braga

S: Eu tendo a ver, tanto no mito das Amazonas quanto no do Boto, remissões a um matriarcado arquetípico, que abriria caminho para nossos feminismos contemporâneos… Pergunto: o Boto, amante insaciável das mulheres ribeirinhas, sedutor de moças donzelas e mulheres casadas, que quebra o elo da rígida estrutura moral de punição da mulher, não estaria de certa forma desafiando o patriarcado e instaurando, no coração na floresta, uma semente feminista? Ou até ecofeminista? E nas Amazonas (que, segundo o senhor coloca no texto, teriam dado origem a uma “Amazônia-Safo”) não estaria o princípio de um amor não binário, reivindicado pelos ativismos LGBTQI+s?
PL: Sou tentado a confessar uma compreensão diferente dessa instigadora questão. Não vejo esse desafio ao patriarcado e nem semente feminista ou ecofeminista. Penso que são conceitos que podem se referir às Icamiabas, com absoluta propriedade. O Boto não protege a mulher da punição familiar, da violência patriarcal e da discriminação social. Nos lugares cada vez mais isolados ou distantes das cidade maiores, quem escapa de punições é o filho do Boto, que considero um ser em que se realiza um clássico hibridismo: é filho de uma pessoa humana e de um encantado, uma divindade. No caso das Icamiabas, concordo com o princípio do amor não binário e tenho poema e ensaio teórico sobre essa questão.

S: Que lição ética os mitos indígenas e amazônicos trazem para o Brasil e o mundo contemporâneo?
PL: A lição ética que os mitos da Amazônia trazem para o mundo pode ser exemplificada através de alguns casos, pela dominância dessa dimensão: Tambatajá, a ética no amor; Icamiabas, a ética da liberdade de ser; Boto, a ética da súbita paixão de uma só vez; Curupira, a ética ecológica; Macunaíma, a ética quixotesca de querer criar o seu destino, burlando a lógica do real. E, ainda, a revelação do imaginário como forma de conhecimento do mundo e incorporação de seus valores. Inclusive o ético.

Tags: , , ,

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.