O fator luminoso

Paula Alzugaray

Publicado em: 19/10/2015

Categoria: Crítica

Esta é a ultima semana para ver a individual Quase Aqui, em que Daniel Senise realiza um “fato pictórico” no espaço do Oi Futuro Flamengo

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Legenda: “O Caminhante”, site-specific de Daniel Senise no Oi Futuro

A ausência é uma condição central da pintura de Daniel Senise. Em sua primeira individual no Oi Futuro Flamengo, no Rio, ele persegue o mesmo sentido de esvaziamento que tem norteado sua pesquisa há cerca de dez anos. Mas, aqui, a via da subtração da imagem alcança um outro sentido. Em Quase Aqui, exposição com curadoria de Alberto Saraiva e Flavia Corpas, Senise realiza, ao longo de três degraus – ou três andares do edifício – um redirecionamento de sua pesquisa artística.

A exposição ocupa integralmente o Oi Futuro até sexta feira 23 de outubro. No primeiro andar, o artista parte de uma tábula rasa. Nas paredes, apresenta uma série de trabalhos que aparentam ser telas em branco. Nas superfícies levemente riscadas, em que se entreveem rastros de escrituras e desenhos, Senise disponibiliza as bases para o caminho que será trilhado nos dois andares superiores: a incorporação no espaço da dimensão física da luz. Essas telas, ou tábulas rasas – que, afinal, são os tampos das mesas sobre as quais o artista trabalha em seu ateliê – em primeira instância falam da crise da representação pictórica. Mas é nesse esvaziamento da imagem e da representação que essa série ganha a dimensão de um “fator luminoso”, segundo o curador Alberto Saraiva.

No segundo andar, a instalação “O Caminhante” tem inspiração no momento ápice da pintura romântica, a tela “O Caminhante sobre o Mar de Névoa” de Caspar David Friedrich. Mais precisamente, refere-se à construção da luz na tela de 1817, que será reproduzida aqui, na forma de uma instalação luminosa. Imbuído do espírito romântico, o artista contemporâneo se despe de qualquer proteção e cava seu abismo, descascando todas as paredes, expondo as entranhas estruturais do espaço expositivo e dotando a luz de materialidade e protagonismo. “O Caminhante” se faz nesse gesto de despojamento de um espaço conduzido à condição de tábula rasa ou de “fato pictórico”, segundo Saraiva.

No gesto de desconstrução promovido pela instalação luminosa, Senise ecoa procedimentos desenvolvidos em sua última individual na galeria Silvia Cintra + Box 4, “La Salon”, em que decompôs e transformou em tijolos todos os volumes da Enciclopédia Britânica.

Finalmente, em instalação no terceiro andar, o artista atinge, de modo quase romântico, o cume de um processo. No campo extremo de uma sala escura, ele projeta uma imagem. Posicionados à distância, como habitualmente fazemos para visualizar a totalidade de uma videoinstalação, nos damos conta de que estamos diante de uma imagem extática, em branco e preto e fora de foco. Sendo mais imaginativos, poderíamos pensar que somos colocados na posição exata do homem de pé sobre as rochas, observando a paisagem montanhosa coberta por névoa, da pintura de Friedrich. O que vemos na superfície da tela projetada é, afinal, pura névoa.

A projeção se comporta como um “fator luminoso”, que remove o espectador da posição confortável de domínio visual sobre o mundo. Instaura a dúvida, o medo do escuro. Impele o espectador a mover-se, em busca de definição da imagem borrada. Mas, na medida em que se aproxima, a imagem se apaga e a tênue ideia do que ela poderia representar, acaba por perder-se. Com este engenhoso mecanismo, a obra de Daniel Senise nos coloca em contato com as vertigens de nossa própria memória e esquecimento.

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