O fim do homem cordial? (1)

Marcus Bastos

Publicado em: 10/04/2014

Categoria: Especial Arte e Política, Reportagem

Entrevista com Sabrina Duran, responsável pelo projeto de jornalismo investigativo financiado coletivamente

Legenda: Vídeo de chamada para financiamento de Arquitetura da Gentrificação, projeto de jornalismo investigativo de Sabrina Duran (fonte: Catarse)

Em Raízes do Brasil, no capítulo que difundiu a famosa figura do homem cordial, Sérgio Buarque de Holanda afirma: “No Brasil, onde imperou, desde tempos remotos, o tipo primitivo da família patriarcal, o desenvolvimento da urbanização – que não resulta unicamente do crescimento das cidades, mas também do desenvolvimento dos meios de comunicação, atraindo vastas áreas rurais para a esfera de influência das cidades – ia acarretar um desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem vivos ainda hoje. Não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do público e do privado”.

O texto é de 1936 e fala de um “ainda hoje” que parece durar até 2014. Claro que os anos posteriores à ditadura militar resultaram em um processo de estabilidade econômica e início de distribuição menos desigual de renda que está mudando o País. Mas as relações pouco nítidas entre público e privado se mantêm, mesmo que modificadas. Um exemplo é a cultura do segredo em torno de doações de verbas para campanhas políticas.

No site do projeto Arquitetura da Gentrificação, é possível entender esse “mecanismo de ocultação do processo que torna as grandes empresas de construção civil e do setor imobiliário os verdadeiros atores da política e da criação da cidade” de São Paulo. Concebido por Sabrina Duran, é um exemplo de como novos formatos de financiamento, publicação e atitudes em relação às políticas públicas no Brasil permitem a difusão de informações capazes de expor o funcionamento dessas estruturas arraigadas de poder. São processos persistentes e difusos, que correspondem a um registro mais duradouro e sistemático da insatisfação generalizada, mas inconstante, que mantém o País nas ruas desde o SP17j.

O site foi financiado coletivamente por meio do Catarse. Seu desenvolvimento tornou-se possível por doações espontâneas feitas por uma rede de apoiadores que também constituem um conselho editorial que discute pautas, encaminhamentos e possibilidades de tratamento das informações colhidas. Por ser uma iniciativa independente, o projeto tem uma autonomia impossível na mídia tradicional.

Mas esse talvez não seja o principal diferencial da proposta, e sim a metodologia de cruzamentos de dados, que permite enxergar fenômenos complexos de perspectivas inéditas. Muitas vezes o tratamento estruturado de informações disponíveis para o público em formatos de difícil acesso (em razão de formatos técnicos ou fragmentação de dados em fontes não relacionadas) já é suficiente para iluminar uma série de processos.

Leia a seguir uma entrevista exclusiva para a seLecT com a autora do projeto.

Pela experiência do Arquitetura da Gentrificação (AG), você acha que é mais difícil tornar públicos dados significativos para entender processos políticos, econômicos e sociais complexos, ou os dados estão acessíveis de forma pouco amigável e o mais difícil é organizá-los e interpretá-los de forma a expor seus significados?

Pela experiência do AG, posso dizer que dentro de alguns órgãos públicos, as informações públicas ganham status de informação privada, tamanha a falta de cultura de transparência e, se é possível dizer assim, tão longo é o cultivo de uma cultura do segredo, em que os meandros da gestão pública são mantidos ocultos aos olhos da população. Com a lei de acesso à informação, alguns dados estão sendo gradualmente disponibilizados, mas justamente pela falta de cultura de transparência e democratização da informação, esses dados, muitas vezes, são disponibilizados de forma hermética e/ou sem a possibilidade de que o cidadão comum consiga trabalhar com eles (em outras planilhas, por exemplo). Há de alguma forma uma tentativa de adequação à lei de acesso à informação, mas não há uma preocupação com a democratização real da informação – daí que os dados são disponibilizados de qualquer forma. Por outro lado, percebemos que alguns órgãos (secretarias municipais, por exemplo) têm se esforçado para encontrar formas de abrir os dados. É um começo, sem dúvida, mas a democratização e transparência reais, entendidas como uma diretriz que norteia o manejo dos dados em âmbito público e que tem o respeito ao direito do cidadão como objetivo, ainda esta longe de acontecer.

Você considera o AG ativismo, arte, jornalismo, ou uma mistura disso tudo que acaba definindo formas de expressão contemporâneas que surgem com a democratização permitida pelas mídias digitais? Qual a importância destas tecnologias para garantir formas de investigação de informação mais autônomas? Você vê relação entre projetos como o AG e a manifestação social que leva a protestos de rua, manifestações contra a copa do mundo, reações politizadas contra a repressão aos rolezinhos, etc.?

Entendo como jornalismo, e um jornalismo altamente comprometido com a discussão e defesa do direito à cidade (e, conseqüentemente, com a denúncia dos agentes que cerceiam esse direito). A informação e os dados são a base de tudo o que fazemos. Sem ela não existe o jornalismo que propomos, mas suposições, e não é isso o que queremos. Sobre novas tecnologias e autonomia na investigação: acredito que a autonomia se dê, antes de tudo, a partir do posicionamento do jornalista, independentemente das tecnologias que ele tem à sua disposição. Estas tecnologias apenas reforçam seu posicionamento inicial, autônomo ou não, e o ajudam a concretizá-lo. Com isso não quero dizer que as novas tecnologias não interferem na autonomia de um jornalista que investiga um assunto. Quero dizer apenas que elas potencializam aquilo que já é pré-disposição do jornalista (para usar um termo “reducionista”, se é um jornalista comprometido com o interesse público ou com os interesses comerciais da empresa para a qual trabalha). Nesse sentido, me parece que o que define as formas de expressão contemporâneas é a clareza do posicionamento e intencionalidade de quem busca e produz essas informações; e a maneira como as trabalha, respeitando a natureza da informação e adaptando a plataforma de disseminação ao conteúdo, e não o contrário (no AG tivemos muitas experiências em que a informação colhida nos “pedia” uma plataforma específica para ser apresentada, como um infográfico, um documentário em vídeo, um programa de radio, um áudio, etc.). Projetos como o AG e outros similares, no meu entender, acabam abrindo aos cidadãos dados que são importantes para sua compreensão da cidade, da gestão da cidade, e que muitas vezes levam à comoção popular e à luta nas ruas, mas a ida para as ruas não depende apenas da informação, e sim de todo um contexto pessoal e social que coloque as pessoas nas ruas. Dessa forma, projetos como o AG “subsidiam” as lutas (mas não necessariamente as provocam).

*Entrevista que deu subsídio à Coluna Móvel O fim do homem cordial?, publicada originalmente na edição #17

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento: A Três Comércio de Publicações Ltda., empresa responsável pela comercialização das revistas da Três Editorial, informa aos seus consumidores que não realiza cobranças e que também não oferece o cancelamento do contrato de assinatura mediante o pagamento de qualquer valor, tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A empresa não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças.