O fim do virtual: da internet das coisas à internet das pessoas

Publicado em: 25/08/2011

Categoria: cultura digital, Reportagem

As redes sociais ao mesmo tempo que abrem possibilidades inéditas de fomento ao consumo, são também dispositivos de uso crítico e criativo das mídias já existentes.

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Giselle Beiguelman

Nada mais contundente sobre essa discussão acerca do esmaecimento dos limites entre real e virtual que a recente Primavera dos Povos Árabes. Muito se tem falado sobre se essas revoluções foram realmente feitas pelo Twitter e pelo Facebook, ou se isso tudo é apenas marketing dessas empresas e teria acontecido, de qualquer forma, por circunstâncias históricas.

Nem uma coisa nem outra. Foram revoluções híbridas.Produzidas pelas pessoas, em um contexto histórico determinado, com os recursos do Facebook e do Twitter. Sem pessoas, obviamente, não ocorreriam. Sem as redes sociais, tampouco.A desconfiança com relação à importância das chamadas redes sociais e celulares nesses levantes está diretamente relacionada ao seu potencial para funcionarem como dispositivos de controle.

Contudo, esse potencial é mais um dos elementos que os caracterizam como emblemáticos desses tempos de cultura híbrida. Ao mesmo tempo que abrem possibilidades inéditas de fomento ao consumo, são também dispositivos de uso crítico e criativo das mídias existentes. Essas tensões implicam a cadeia de variáveis que gravitam em torno das relações de poder na sociedade em rede. Elas são constitutivas, afirma o sociólogo Manuel Castells, das possibilidades de mudança cultural. Mudanças essas que são operacionalizadas por movimentos sociais, ao propor e desencadear descontinuidades com as relações de poder que estão embutidas em instituições de vários tipos.

Movimentos sociais não são, contudo, meros conjuntos de indivíduos. São grupos que atuam no espaço público. Esse espaço público hoje é constituído também pelas redes de comunicação. Ocupá-las, relativizando, como ocorreu recentemente no mundo árabe, suas funcionalidades meramente publicitárias, é hoje, por isso, questão política fundamental.  Essa ocupação indica uma guinada na experiência contemporânea.Se cerca de dez anos atrás, como diz André Lemos, um dos principais teóricos da cibercultura, discutíamos a desmaterialização da cultura, dando ênfase ao upload das práticas sociais, hoje estamos fazendo o download do ciberespaço.

Esse download se realiza na demanda por aplicativos de Realidade Aumentada, no design cada vez mais táctil e ergonômico das telas e dispositivos, na ciência e na filosofia que avançam dinamitando as compartimentações entre natural e artificial, nos novos horizontes artísticos e políticos que se impõem para além das velhas dicotomias entre real e virtual. Bem-vindo ao mundo da Internet das Pessoas. Bem-vindo ao fim do virtual.

Leia as partes anteriores desse artigo aqui:

Introdução

Mídias tangíveis

Corpos informacionais

Uma próxima natureza

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