O fim do virtual: uma próxima natureza

Publicado em: 25/08/2011

Categoria: cultura digital, Reportagem

Os limites entre o natural e o artificial estão cada vez mais tênues

Self-illuminating Flowers Of Pandora_shi (1)

As Self-Iluminating Flowers of Pandora (Flores Auto-luminescentes de Pandora) são um projeto de arteciência de Jin Shian. As nanoflores são o resultado da ampliação em 20mil vezes de uma molécula de óxido de zinco capturada em microscópio

Giselle Beiguelman

Os limites entre natureza e cultura nunca foram precisos e não são estanques. A conceituação do que pertence a um campo ou a outro é um tema recorrente desde a Grécia Antiga. A filosofia contemporânea contesta a visão dualista dessa relação. Propõe uma reflexão sintonizada com a emergência de dispositivos que não cabem mais em definições puras do que é humano e o que não é.

Expoente dessa corrente de pensamento é o filósofo e antropólogo francês Bruno Latour. Ele reflete sobre o caráter híbrido da nossa contemporaneidade, mediada pela experiência de objetos e situações que são uma mistura de elementos da natureza e da cultura. Como numa ligação telefônica, explica Latour, em que se aliam nossos desejos, nossa fala, cabos, aparelhos etc. Não se fala aqui de uma pós-natureza, mas de uma próxima natureza.

Até mesmo porque vivemos hoje em meio a uma constelação de produtos, como tomates transgênicos e gatos hipoalergênicos, que são autenticamente artificiais, diz o designer holandês Koert van Mensvoort, editor do blog Next Nature. Nesse mundo, configura-se todo um novo imaginário, em que as noções de gênero, reinos – vegetal, animal e mineral –, idade e nacionalidade se diluem,abrindo-se em direção a outros modos de ser e de existir.

Trata-se de uma experiência emergente da subjetividade e da sensibilidade contemporâneas. Nela, vestem-se papéis e constroem-se identidades momentâneas, subvertendo os limites entre o tubo de ensaio e o Photoshop. Isso tem aparecido de forma marcante na produção artística, como fica evidente na série I Want To Put You On, Tell me How to Put You On (Eu Quero Vestir Você, Diga-me como Vestir Você), do artista americano Sean Fader, e na série Andros Hertz, da brasileira Helga Stein.

Fader dedica-se a um exercício rigoroso de manipulação de imagens, criando seres sexualmente ambivalentes. Stein brinca com identidades que ela cria e disponibiliza em redes sociais como o Flickr. Com métodos e filiações a tradições artísticas distintas, ambos problematizam a manifestação de uma terceira via, além das dicotomias entre a natureza e a cultura.

Mas como isso afetará nossas relações afetivas e sociais,quando a ciência genética conseguir sistematizar uma técnica segura de clonagem humana ou de hibridação de códigos genéticos de animais e vegetais? Questões que atravessam a obra de Eduardo Kac, brasileiro radicado nos EUA.Projetos como GFP Bunny (Coelhinha Proteína Verde Fluorescente), de 2002, e Natural History of the Enigma, Edúnia (História Natural do Enigma, Edúnia), de 2008, são bons exemplos de suas preocupações teóricas e poéticas.

No primeiro caso, uma coelhinha albina teve seu embrião modificado em laboratório, com a introdução de uma proteína artificial. Quando o animal é exposto a uma determinada temperatura e iluminação, seu organismo reage e assume a coloração verde. Com isso, Kac não objetivava produzir uma série de animais fluorescentes, mas fazer-nos atentar para novas alteridades e prestar atenção nas afetividades que o emergente mundo da próxima natureza nos traz. No segundo, desenvolveu um plantimal (um híbrido de planta e animal), introduzindo um de seus genes na estrutura molecular de uma petúnia.

A porção animal da Edúnia é visível nas veias vermelhas das suas pétalas. O gene do artista que foi sequenciado para esta obra é associado ao reconhecimento de organismos exteriores ao corpo. Ao introduzi-lo em um organismo vegetal, faz com que o elemento biológico responsável pela rejeição ou defesa bioquímica converta-se num enigmático dispositivo de interrogação sobre a contiguidade das espécies e a multiplicidade da vida, os limites cada vez mais difusos entre natureza e cultura, material e digital, real e virtual.

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