O futuro desapareceu, creio no amanhã

Um jogo de forças políticas tensiona as possibilidades artísticas de construir um mundo além do presente

Ulisses Carrilho

N° Edição: 29

Publicado em: 18/04/2016

Categoria: A Revista, Review

Detalhe da fotografia da série Não é um motim (2014), de Pedro Victor Brandão

A instabilidade do atual cenário político, que atinge proporções olímpicas e requer propostas emergenciais, é o contexto em que a curadora Daniela Labra organizou a exposição Depois do Futuro, na EAV Parque Lage. A mostra não acontece apenas em uma escola, mas foi concebida para ela, tendo como lastro um processo pedagógico que aposta em novos modos de viver em sociedade. Assustadoramente coerente e fundamental para o amanhã, a quarta exposição do programa Curador Visitante é resultado de uma consistente pesquisa pós-doutoral. A mostra revela uma potência da arte, aventa cenários em que a espécie humana consegue driblar massacres cotidianos.

A cadência narrada em uma das salas – vejo uma casa de máquinas – inicia-se pela sucessão das imagens pós-nucleares de Alice Miceli, sucedida pelo instrumento sonoro de Tiago Rubini. A peça ecoa um zumbido que, ao soar, revela sempre ter existido – se não em som, na indeterminação do tempo presente. Ao fundo, a escultura de Guto Nóbrega apoia-se na cinética para resguardar-se da escuridão provocada pelo corpo do visitante. Num movimento estratégico, vai ao encontro de seu direito à luz. De Franz Manata e Saulo Laudares, Bandeira é um alvo bicolor que grita em denúncia, acompanhado do sutil e potente trabalho de Runo Lagomarsino, We Support. Tamíris Spinelli transfere a responsabilidade de construir futuros aos corpos, um exemplo contundente da possibilidade poética do ativismo. Nas Cavalariças, o trabalho de Ricardo Càstro transborda um tom ritualístico numa alegoria do porvir.

A pulverização das categorias estéticas é um dado real, é notável como a indignação perante o mundo ganha na pesquisa de Labra ao apresentar-se como resistência clubber, com o vídeo Donde na Ocurre (2012) da espanhola Irene de Andrés. A obra de Cristiano Lenhardt, instalada na primeira sala do Palacete, tem o mérito de dessacralizar o ambiente institucional com uma projeção de imagens que habitam nosso mundo-jegue. A globalização não acontece de forma igual para todos. Uma problematização de poderes relacionados ao direito à terra encontra-se na potente O Artista como Bandeirante, de Maria Thereza Alves. A bandeira do colombiano Leonardo Herrero, que poderia ser desfraldada em meio à Floresta da Tijuca, lembra ao visitante as idiossincrasias de uma América Latina que sofre com tráficos que se atualizam cotidianamente.

Esperávamos o futuro, o progresso, e nada chegou – nem a revolução. Se não foi o tempo que trouxe a esperança, a desilusão não pode ser constante. Depois do Futuro planta a criação como uma possibilidade real, incisiva, de construir mundos outros em que cooperação e subsistência estejam na ordem do dia. Ao sair, o luminoso EXST nos lembra, sobretudo, de resistir.

Depois do Futuro, até 1º/5, EAV Parque Lage, Rua Jardim Botânico, 414, RJ.

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