“O gótico e o ocultismo são matrizes do psicodélico”

Pesquisador do psicodelismo, Lars Bang Larsen integra a equipe da 32ª Bienal de São Paulo

Giselle Beiguelman
Larsen: "Zumbis são perfeitos para o capitalismo contemporâneo (Foto: Sofia Colucci/Fundação Bienal de São Paulo)

O dinamarquês Lars Bang Larsen é um dos convidados por Jochen Voltz, curador da 32ª Bienal de São Paulo, para integrar sua equipe. Ele é historiador da arte e reside em Copenhague. Professor da Haute École d’Art et Design em Genebra, é especialista em conceitos psicodélicos na arte neovanguardista. De passagem por São Paulo para reunir-se com toda a equipe curatorial, conversou com a seLecT sobre a potência crítica do psicodelismo e suas relações com o gótico e o ocultismo.

É notável a presença cada vez maior de temáticas, obras artísticas e produtos de entretenimento relacionados a instâncias sobre e supranaturais, como forças ocultas e zumbis. Como você vê esse fenômeno?

Eu não sou um especialista em zumbis, mas um aficionado por monstros, e o que me interessa, apesar da resistência acadêmica geral, é o psicodélico. Do meu ponto de vista, o gótico e o ocultismo são matrizes do psicodélico. Me interessa, particularmente, essa relação entre espiritualismo e artes visuais. Incluiria nesse pacote, ainda, a ficção científica, que é também outra forma de expressão mal inserida no mundo acadêmico, de certa forma subjugada, por ser considerada uma “arte menor”.

O que explicaria essa resistência?

Por um lado, o gótico, a ficção científica e a psicodelia trazem à tona o medo e o desejo. Essas questões estão no cerne do ocultismo, porém, são muito difíceis de lidar nos moldes acadêmicos racionalistas tradicionais. Por outro, hoje essas formas de expressão apelam muito para o mass mídia. Isso é bastante evidente e complicado no que diz respeito à psicodelia, que foi absorvida muito rapidamente pelo mercado e pela moda. Basta lembrar o auge do Summer of Love (São Francisco, 1967), em que um artigo publicado no The Wall Street Journal dizia: “Se você quiser vender algo rapidamente, chame de psicodélico”.

E o que atrai você, um estudioso do tema, nessa discussão?

Sua ambivalência! Esses gêneros oferecem algumas perspectivas sobre como a ética e a estética são mobilizadas pelo capitalismo. Afinal, medo e desejo são os dispositivos centrais de operação dos governos (que instrumentalizam o medo para controlar) e do mercado (que depende da mobilização e criação de desejos). A perspectiva esotérica, ou ocultista, pode ser muito interessante como contraponto crítico, de um ponto de vista político. Não por acaso vários artistas abolicionistas tinham estéticas relacionadas ao ocultismo.

Quem são os artistas representativos dessas tendências no cenário contemporâneo?

Hélio Oiticica, certamente, que formula uma versão brasileira do psicodelismo, pela elaboração do que ele chamava de suprassensorial. Ele evocava uma sensorialidade que também tem engajamento social. Para citar um nome mais recente, chamaria atenção para Tamar Guimarães, que vem fazendo uma série de documentários. Um deles, muito impressionante, sobre Chico Xavier e sua ambiguidade entre a mediunidade e sua inserção durante a ditadura militar.

Como você relaciona a euforia midiática em torno dos zumbis com o estado atual do capitalismo contemporâneo, em que temos de viver em um estado de disponibilidade permanente?

O capitalismo atual canibaliza nossa subjetividade e nossa biologia como um todo. O zumbi é um morto-vivo, ele está morto, mas tem muita mobilidade. Não estão acordados, mas estão sempre ocupados. E pessoas que dormem, humanos, são cada vez menos adequados para a manutenção dos fluxos de capital. Nesse sentido, zumbis são perfeitos para o capitalismo contemporâneo.

Quais são as suas expectativas em relação à Bienal? No que você aposta para a próxima edição?

Prefiro responder essa questão com os outros curadores. O desafio que nós, a equipe curatorial, estamos enfrentando é encontrar caminhos na história e no atual momento histórico do Brasil. Procuramos uma abordagem sensível à crise e não meramente afirmativa ou lírica. Pode-se afirmar que a incerteza governa há décadas e que o mundo está perdendo a diversidade. Quer seja como resultado das quantidades alarmantes de espécies que foram extintas ao longo das últimas décadas, quer seja a criação de culturas cada vez mais especializadas e uniformes, ou ainda pela força de nivelamento de capital. Em face dessas perturbações e rupturas, as formas clássicas de deliberação governamental e de tomadas de decisão começam a falhar. Isso é o que está dando forma às nossas discussões e começa a dirigir nossa pesquisa para a próxima Bienal de São Paulo.

Entrevista publicada originalmente em 2015

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