O idioma negro

A partir da crítica do conceito de raça, ensaio de Achille Mbembe advoga pela reavaliação da contribuição africana para a história da humanidade

Paula Alzugaray
Retrato de Achille Mbembe (Foto: Heike Husiage Koch)

 Na acepção de poetas africanos contemporâneos, assim como de movimentos ativistas por direitos civis nos Estados Unidos dos anos 1960, negritude é idioma, linguagem por meio da qual pessoas de origem africana se expressam ao mundo. Para Achille Mbembe, historiador e cientista político camaronês, referência acadêmica máxima em estudos do pós-colonialismo, Negro é um substantivo transformado em conceito: uma invenção, produção ou fantasia da imaginação europeia. Esse paradoxo da negritude sustenta a tensão narrativa do monumental Crítica da Razão Negra. Publicado originalmente em 2014 e lançado proximamente no Brasil pela N-1 Edições, o dilacerante ensaio de Mbembe é um tratado sobre a evolução do pensamento racial – desde o sistema escravagista do século 15 até os movimentos migratórios contemporâneos. Acima de tudo, é um manifesto pela descolonização mental em escala global.

Com um título evocativo à Kant, é com Hegel que Mbembe inicia sua demolidora crítica do racismo, do colonialismo e do discurso iluminista europeu. Assertivo, credita a Hegel (em Fenomenologia do Espírito, 1807) a associação do Negro à “figura animal”, ou à consciência “desprovida de universalidade”. Sua massa de argumentação crítica contrapõe-se com tal eficiência às estratégias de construção do conceito de raça, que leva o leitor a reconhecê-las em sua própria experiência cotidiana. Como na coleção de capas da revista Time, reunidas em um trabalho do chileno Alfredo Jaar (From Time to Time, 2006), em que a notícia sobre a África é quase sempre associada a imagens do mundo animal.

Crítica da Razão Negra afirma-se como uma obra completa. É um trabalho de revisão historiográfica definitivo ao situar o nascimento do capitalismo e da idade moderna no comércio triangular entre África, Américas e Europa em torno da economia escravagista no Atlântico. É um tratado político potente ao investigar a instrumentalização do conceito de raça a serviço da legitimação do projeto de poder do hemisfério ocidental. E uma obra filosófica necessária ao afirmar que, beneficiando-se do processo de globalização, “a lógica da raça volta a irromper na consciência contemporânea”. Reconhecendo as novas variantes do racismo e da violência colonial no antissemitismo, na bestialização de grupos considerados inferiores e na atual crise de refugiados, faz-se leitura obrigatória.

Crítica da Razão Negra
N-1 Edições, 312 págs.

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