O lugar da construção da imagem

Em individual no MAR, Maxwell Alexandre manipula narrativas de modo a construir seu lugar de poder

Paula Alzugaray

N° Edição: 45

Publicado em: 27/02/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Review

Obra de Maxwell Alexandre no Museu de Arte do Rio (Foto: Paula Alzugaray)

Pardo É Papel, a individual do artista Maxwell Alexandre no Museu de Arte do Rio (MAR), ocupa duas salas com dezenas de pinturas suspensas numa espécie de instalação pictórica imersiva. A precariedade dos materiais utilizados – graxa, betume e tintas sobre papel de embrulho – tem significação-chave na obra. “Para mim, isso não é só pintura”, diz Maxwell Alexandre à seLecT. “É importante que você sinta a presença do papel, que consiga ver a fragilidade, o rasgo do papel. A poética do trabalho está muito nessa relação de fragilidade do suporte.” A fragilidade está diretamente ligada ao contexto social e pessoal do artista, nascido, criado e residente na Rocinha, onde “ser artista plástico não é uma opção”. A série Pardo É Papel é um questionamento desse lugar.

Maxwell Alexandre faz pintura na primeira pessoa. “Antes, quem construía a imagem do negro? Como o negro era retratado? Num lugar de subserviência e subordinação. É preciso começar a criar a imagem do negro como o centro de sua história”, diz. Se a série Reprovados, apresentada em individual na galeria A Gentil Carioca, em 2018, tinha como tema a dizimação da população negra pela polícia nos morros cariocas, o atual trabalho infere contra o desígnio racista do uso do termo “pardo”, a fim de ofuscar a identidade negra. Aqui, Alexandre usa o papel pardo como estratégia de afirmação e empoderamento da negritude. Retrata o negro ocupando espaços de poder, autoestima, bonança, vitória, e traduz versos de rap em pintura, com o intuito de diminuir abismos entre as comunidades periféricas e a arte contemporânea.

Vista da exposição de Pardo É Papel (2019-2020) de Maxwell Alexandre no Museu de Arte do Rio (Foto: Paula Alzugaray)

A escolha da cor dourada tingindo o ícone aquático que preenche os fundos das pinturas parece corroborar para a realidade luminosa que ele quer projetar. “A arte contemporânea não é um valor da minha comunidade, mas esse é o lugar do novo poder, onde o capital, sobretudo o intelectual, está concentrado”, diz. E esse é o lugar em que Maxwell está hoje. A primeira vez que expôs foi no complexo esportivo da Rocinha, “sem holofote e sem instituição”. Mas, desta vez, seus papéis pardos chegam ao Rio vindos do Museu de Arte Contemporânea de Lyon, na França, onde foi convidado para expor após seu trabalho ganhar visibilidade em residência em Londres, pelo Instituto Inclusartiz. Em junho de 2020, ele deverá expor no Palais de Tokyo, em Paris. 

No MAR, um painel inédito de dimensões ainda mais ampliadas que de costume, que o artista terminou de pintar na véspera do vernissage, aponta nova direção. Trata-se da primeira obra de uma subsérie chamada Novo Poder, que representa negros, dentro do espaço expositivo, contemplando arte contemporânea. “Esse lugar de construir a imagem é que é o lugar do poder”, diz.

Maxwell Alexandre encontrou no MAR esse lugar de construção e afirmação da própria imagem. Por outro lado, um projeto como Pardo É Papel, que foi viabilizado pela iniciativa privada e corresponde ao programa institucional do MAR, baseado em diálogos francos com as histórias e as comunidades do Rio, pode ser muito benéfico para o museu nessa etapa em que está em busca de caminhos para a superação dos obstáculos que a ausência de uma política cultural lhe trazem.

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