O lugar que habitamos

Em curadoria de Tobi Maier, os artistas Yonamine e Tiago Borges apontam ao espaço para ficcionar narrativas que começaram a ser escritas na escuridão

Francisco Correia

N° Edição: 48

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Vista da exposição Homo Kosmos (cough cough) (2020), de Tiago Borges & Yonamine (Foto: Guillaume Vieira)

Num primeiro instante, na Galeria Avenida da Índia, em Lisboa, os estímulos que se revelam na penumbra parecem contraditórios – talvez sejam mesmo, e ainda bem. Por um lado, as lâmpadas de luz negra, em conjunto com o grande asteroide que gravita perto da entrada, “pintado” pelas cores luminescentes das projeções, que se espalham pelo espaço e lhe dão uma sensação de movimento, transportam-nos para um imaginário sci-fi. Por outro lado, a abordagem punk e malcomportada que a dupla empresta aos seus projetos nos traz à memória a porosidade dos lugares primordiais. A repetição dos ícones serigrafados e as palavras pintadas no caos devolvem-nos às paredes das cavernas – ou das cidades, lá fora, cobertas a pichação.

Vista da exposição Homo Kosmos (cough cough) (2020), de Tiago Borges & Yonamine (Foto: Guillaume Vieira)

É nessa tensão absurda e fantástica entre passado e futuro, manualidade e tecnologia, que nasce a possibilidade de pensarmos o lugar que habitamos. Afinal, o Espaço, o grande fetiche tecnológico das civilizações modernas, é o lugar do recomeço, do vazio, onde tudo é potência, assim como as cavernas, onde os primeiros registos da humanidade foram marcados a tinta por mãos nas paredes. E pouco interessa a intenção, pois inegáveis são as marcas deixadas: as pinturas, as gravuras, os objetos que assinalam o início das ficções, que por fraqueza tendemos a aglutinar como única e, por engano, consideramos factual.

Homo Kosmos (cough cough) é um misto de energia revolucionária festiva e de trevas. E se é sobre a procura de mundos desconhecidos, é também sobre a procura de uma nova compreensão das narrativas históricas; sobre uma reescrita da cultura capaz de lidar com as heranças de violência e opressão ainda agora menorizadas. A propósito, aliás, do abominável conceito de “nova normalidade”, adotado nestes tempos de pandemia: quão novo é este normal? O que é o normal??? O subtítulo (cough cough) talvez seja poeira na garganta, levantada pelo descolar da nave espacial anteriormente construída pela dupla, AfroUFO (para a 31ª Bienal de São Paulo), ou pela pandemia que abalou 2020, fazendo-nos engasgar nos problemas estruturais há muito anunciados. Que vão das repercussões em nível mundial da luta antirracista, após o assassinato de George Floyd nos EUA à escalada da extrema-direita organizada, apoiada em discursos de ódio bafientos e em ações inexplicáveis. Afinal, que mundo é este que escolhemos criar, hoje, quando estamos tão perto das cavernas como da luz que vem das estrelas?

No percurso destacam-se as figuras citantes do traje da KKK, translúcidas e suspensas, fantasmas do passado ou protótipos adormecidos numa linha de montagem. Assim como a pequena divisão anexa onde a luz negra faz reluzir as cores elétricas dos símbolos acumulados nas paredes, que juntamente com a projeção ao fundo criam um dos momentos de maior efeito visual, deixando-nos talvez na sala de comandos da nave, agora em circulação.

Ainda assim, ao contrário de AfroUFO em que a obra é simultaneamente o objeto e o espaço expositivo, Homo Kosmos (cough cough) consiste num ambiente e é obrigada a lidar com o interior de um antigo armazém (ex-ateliê de Lagoa Henriques) transformado em white cube. Apesar da irreverente utilização das paredes ou da estrutura metálica do teto, a dimensão grotesca e extravagante da intervenção tropeça no embrulho branco, de módulos e paredes falsas, que neutraliza este e qualquer outro espaço. Pois, se as esculturas, pinturas e serigrafias, as projeções em movimento e o som se devoram, anulando a sua particularidade objetual, propondo uma unidade – um ambiente que oscila entre a pré- -história, as cidades contemporâneas e o espaço –, a força desta esmorece no diálogo com uma galeria tão ampla e arrumadinha.

Serviço
Homo Kosmos (cough cough)
Exposição de Yonamine e Tiago Borges, na Galeria da Avenida da Índia
Encerrada

 

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