O lugar social da arte

Moacir dos Anjos

Publicado em: 11/03/2015

Categoria: exposições on-line, Portfólio

A pesquisa artística de Clara Ianni feita até aqui já inscreve sua relevância em espaço tão avesso a reconhecer as desigualdades e os abusos que o cercam e interrogam

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Legenda: Trabalho Abstrato (2010), mostrado na 12ª Bienal de Istambul, em 2011 (foto: Cortesia da artista)

Em pouco mais de quatro anos, Clara Ianni desenvolveu dois definidos corpos de trabalhos, entre os quais há continuidade, mas também a marca da ruptura de quem busca novas trilhas. Em seus primeiros projetos expostos, realizados a partir de 2010, Clara parece fazer, com precisão conceitual e inteligência construtiva, um ajuste de contas entre sua formação como artista na Universidade de São Paulo e a mirada crítica que informa seu estar no mundo. Em um deles, de nome Trabalho Abstrato (2010), subtrai, de uma pá comum, área quadrada quase idêntica à superfície usada para a coleta de algo, tornando-a inútil para o uso produtivo ao mesmo tempo que a transforma em objeto de arte. Objeto que remete à história de uma produção artística não representacional – no procedimento Duchampiano que emprega para fazer a peça e na evocação que a forma vazada da pá faz da tradição neoconcreta –, mas que igualmente convoca a noção de trabalho abstrato cunhada por Karl Marx, a qual designa o dispêndio de esforço humano contido em qualquer mercadoria, não importa a forma concreta que esse trabalho assuma no espaço das trocas mercantis.

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Legenda: Natureza-Morta ou Estudo para Ponto-de-Fuga, (2011) em que chapas de aço levaram balas de diferentes calibres (foto: Cortesia da artista)

Essa fricção irônica entre procedimentos e conceitos fincados em campos de conhecimento diversos (arte, economia, filosofia), bem como a subversão de significados assentados que assim promove, são levadas a cabo em vários outros trabalhos feitos no período, constituindo inventário breve de encontros inesperados entre ideias e objetos. Em um deles, contudo, Clara Ianni sugere uma abertura mais decidida para aquilo que está além do campo da arte, ainda que seja nas convenções desse campo que a peça formalmente se ancora. Natureza-Morta ou Estudo para Ponto-de-Fuga (2011) é formado por nove chapas retangulares e idênticas de alumínio, colocadas sobre a parede em forma de grade – arranjo organizador consagrado, ao longo de décadas, por vertentes da arte moderna. A similitude entre esses elementos repetidos é contrafeita pela quantidade e pelos tamanhos dos furos que cada placa exibe, resultado de tiros dados sobre elas com as armas, de diferentes calibres, utilizadas pela polícia no Brasil. Procedimento que desmonta, com agudeza crítica, os significados dos termos artísticos utilizados no título do trabalho, promovendo aproximação abrupta entre espaços simbólicos e concretos de vida que poucas vezes se tocam. Questiona, sem alarde, o próprio lugar social da arte.

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Legenda: Forma Livre (2013), videoinstalação cujo áudio mostra Oscar Niemeyer pressionado para comentar o massacre de mais de 100 trabalhadores pela polícia, durante a construção de Brasília (foto: Cortesia da artista)

Violências diárias

Os trabalhos mais recentes da artista – principalmente os feitos a partir de 2013 – aprofundam o interesse, antes somente ensaiado, de investigar as violências diárias e diversas que o Estado promove contra grupos específicos de habitantes do País, tanto em tempos de exceção declarada quanto em períodos em que as leis supostamente garantiriam o estatuto de cidadão a todos. Fazem isso sem perder, todavia, o cuidado construtivo que já caracterizava a produção passada. No vídeo Forma Livre (2013), edita áudio de entrevistas com Lucio Costa e Oscar Niemeyer, em que os inventores formais de Brasília são confrontados com a informação (publicada em jornais da época, mas que dizem desconhecer) do assassinato, pela polícia, de mais de cem operários que trabalhavam na construção da futura capital do Brasil. Massacre que teria ocorrido por ocasião de greve que aqueles faziam, em 1959, por condições dignas de trabalho. Em simultâneo, o vídeo apresenta imagens de esboços desenhados da cidade e fotografias de seus traçados e edifícios feitas nesse mesmo período, cotejando a limpeza formal do projeto e os custos humanos, oficialmente não contados, de construir Brasília.

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Legenda: Cena do vídeo Apelo (2014), sobre a violência policial em São Paulo, feito em colaboração com Debora Maria da Silva (foto: Cortesia da artista)

Já nos vídeos Mães (2013) e Apelo (2014, em colaboração com Debora Maria da Silva), Clara Ianni debruça-se sobre a violência policial recente e em curso que vitima, em particular, a população pobre que vive nas periferias das grandes cidades brasileiras. Violência que inverte, de maneira radical, a função esperada de uma força policial em Estados democráticos, e que muitas vezes sonega até os corpos das pessoas assassinadas. São trabalhos, ademais, que experimentam formas distintas de acercar-se de uma mesma questão, embora ambos confirmem a imagem filmada como meio central na sintaxe que a artista vem tecendo em anos recentes. Mais importante ainda, tanto esses vídeos quanto Forma Livre afirmam a fala – no que os discursos das mães dos mortos deixam claro e no que somente sugerem – como dispositivo de ativar a memória e de reescrever a história, atualizando-a no agora em que os trabalhos são apresentados no campo da arte. Se ainda há muito por vir no trabalho de Clara Ianni, o até aqui feito já inscreve sua relevância em espaço tão avesso a reconhecer as desigualdades e abusos que o cercam e interrogam.

*Portfólio publicado originalmente na edição #22

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