O MAR amanhã

População se manifesta pelo futuro do Museu de Arte do Rio e Secretaria Municipal da Cultura afirma estudar nova forma de gestão para garantir a estabilidade da instituição 

Paula Alzugaray
Manifestação de apoio à existência e permanência do Museu de Arte do Rio (Foto: Marcio Menasce)

Entre setembro e a última semana de novembro, a ameaça de paralisação das atividades foi uma realidade tangível para os dois museus mais visitados do Rio de Janeiro. Localizados na Praça Mauá, na região portuária, o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Museu de Amanhã – que juntos somam cerca de 1,5 milhão de visitantes/ano – vem sofrendo nos últimos anos com sucessivos cortes e atrasos de repasses de verbas da Prefeitura, tendo tornado-se emblemas do desinteresse do poder público em encontrar soluções para a Cultura, em um cenário de falência econômica do Município e do Estado do Rio. O Museu do Amanhã, que tem o maior número de visitações em todo o Brasil, teve 90% de seu orçamento reduzido desde a posse de Marcello Crivella. O MAR, sem receber repasses desde setembro e sem fôlego para se manter em funcionamento, colocou todos os seus funcionários em aviso prévio, em 10/11. 

Com quase 3 milhões de visitantes contabilizados desde sua abertura em 2013, o Museu de Arte do Rio está longe de ser só um caso de sucesso de público. O MAR é um fato cultural. Com um programa comprometido com a história cultural da cidade, é o único museu brasileiro cujo projeto institucional foi erguido sobre os pilares da arte e da educação. A Escola do Olhar, que funciona na interface com os eixos curatoriais e o acervo do MAR, estabelece programas de formação pedagógica e reflexão sobre cultura visual. 

Diferentemente do Museu do Amanhã, cujo público é formado majoritariamente por turistas, O MAR orientou sua atividade para a fidelização de públicos, tecendo uma rede de relacionamento e produção criativa com estudantes, professores, educadores sociais, profissionais de museus, moradores da região portuária, pesquisadores, artistas e amantes e interessados nas perspectivas da arte, da memória e do patrimônio. Seu comprometimento com essa população e as comunidades da Pequena África – o perímetro da cidade no qual o museu está inserido e em que as culturas negras se enraizaram e reinventaram – acabou por ter um papel chave no ápice da crise vivida pela instituição. 

“Abraçaço” em apoio ao MAR (Foto: Paula Alzugaray)

 

Na terça-feira 26/11, o MAR teve a resposta de seu público, ao receber um “abraçaço” de membros da sociedade civil em manifestação de apoio à sua existência e permanência. “O MAR pra mim é a coisa mais importante do Rio de Janeiro, porque é o único aparelho cultural que dá prioridade total à Educação. No mundo eu não conheço igual. O blockbuster do MAR é a Escola do Olhar, que atende a periferia, professores do ensino fundamental, curadores, universidades… atua em todas as escalas”, disse a professora, escritora e crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda à seLecT. Nos dias seguintes ao abraço simbólico, os eventos começaram a se desenrolar. Na quarta 27, em reunião com Carlos Gradim, diretor do Instituto Odeon, organização social (OS) que administra o museu, o Secretário Municipal da Cultura Adolpho Konder – no cargo há apenas quatro meses – confirmou que fará o aporte de recursos atrasados até dia 5/12.

Heloísa Buarque de Hollanda (Foto: Paula Alzugaray)

“A Secretaria Municipal de Cultura está empenhando todos os esforços junto à Secretaria Municipal de Fazenda para obter os recursos necessários para manter todos os equipamentos culturais em funcionamento. Está previsto o pagamento na próxima semana do Instituto Odeon”, informou em nota oficial. 

Na quinta 28, três artistas representantes do movimento MAR Vive foram recebidos por Konder para um esclarecimento a respeito das perspectivas que a Prefeitura pretende adotar para garantir a estabilidade da instituição a médio prazo. “O Secretário discorreu sobre a crise financeira que todas as secretarias da Prefeitura vivem e cuja proporção não tem precedentes na história recente. Mediante isso, afirmou que a Secretaria da Cultura já está se movimentando para sanar a folha geral de despesas através de parcerias com a iniciativa privada”, apontou o relatório produzido pelos artistas Maurício Dias, Paula Trope e Rosana Palazyan. 

Segundo o texto, o Secretário apontou como causas do problema atual do MAR os cortes de verbas devido à falta generalizada de recursos. Como possível solução, sinalizou a elaboração de um novo desenho administrativo, almejando melhor governança e comunicação entre as partes envolvidas na gestão – a Prefeitura, a OS e o CONMAR, conselho de representantes da sociedade civil que colabora com a definição das diretrizes, estratégias e fomento do museu. De acordo com a nova proposta, o papel do Conselho poderá ser fortalecido. 

 

Modelo público-privado
Mas o que significa um museu público precisar de “maior participação da iniciativa privada” para chegar à estabilidade? De acordo com o atual modelo de gestão, poder público e iniciativa privada dividem – em valores variáveis, nunca em partes iguais – o fomento da instituição. Pelo atual contrato, a Prefeitura arca com salários dos funcionários fixos e manutenção do prédio – energia, água e segurança –, e a OS é responsável por buscar os patrocínios para todas as atividades expositivas do MAR e educativas da Escola do Olhar. Nos últimos meses, no entanto, a OS e o CONMAR tiveram que buscar reforços junto à iniciativa privada para garantir o pagamento das contas de manutenção do museu, que são altas – cerca de R$ 200 mil mensais só de energia elétrica, por causa da reserva técnica que usa climatização ambiente por 24 horas. 

Cabe aqui um breve retrospecto do problema. A gestão público-privada do MAR começou a mostrar grave desequilíbrio com um primeiro corte substancial de 25% no orçamento da Secretaria Municipal de Cultura destinado ao museu, realizado em abril de 2017, no início da gestão do prefeito Marcello Crivella. Com repasses na ordem de R$ 1 milhão mensais, pagos sempre com atraso, a instituição se viu forçada a iniciar uma longa fase de reduções de pessoal e custos fixos, que viria a se agravar em abril de 2019, com o vencimento do contrato do Instituto Odeon. 

Nesse momento, a Prefeitura propôs um contrato aditivo de um ano, por um valor ainda menor, insuficiente para os pagamentos das contas e dos funcionários. Uma contraproposta da OS conseguiu negociar o mesmo valor por um período de cinco meses, o que daria cerca de R$ 750 mil/mês, até setembro último. A diferença de custos entre abril e setembro foi paga por doações articuladas pelo Conselho do MAR junto a instituições várias.  

Em outubro, a Secretaria voltou a propor um novo contrato aditivo, com valor ainda menor, de R$ 470.000 mensais. Nesse momento, a instituição não teve outro remédio que iniciar um processo de demissões de seus mais altos cargos, entre os quais a diretora executiva Eleonora Santa Rosa e o diretor cultural Evandro Salles. A crise se agudizou de forma incontornável quando nem mesmo esse repasse mínimo foi pago. Isso levou o Instituto Odeon a colocar a equipe de 62 funcionários, 18 estagiários e 46 terceirizados em aviso prévio. 

Crise financeira ou política?
“A questão é financeira. Somos parceiros da Prefeitura, porque crises ocorrem. Nos adaptamos à crise e reduzimos a equipe”, disse à seLecT Carlos Gradim, diretor do Instituto Odeon. “A Cultura tem o orçamento do aditivo, o que eles não têm é caixa. Colocamos a equipe em aviso prévio por que o atraso colocou em risco direitos trabalhistas. Mas o secretário Konder tem se esforçado muito em encontrar soluções”. 

De fato, o Secretario Adolpho Konder tem demonstrado disposição para o diálogo. Quando assumiu o cargo, em agosto, emitiu um parecer contrariando a fala da antecessora, que afirmara que a Cultura não era prioridade desse governo. “O MAR é um dos equipamentos mais importantes para a Secretaria Municipal de Cultura. Sua importância está voltada para a formação cultural da sociedade, com ações que beneficiam diretamente cerca de 400 mil visitantes ao ano. Temos a intenção de manter o museu a pleno vapor em 2020”, disse em nota oficial.

Mas para que um museu funcione a todo vapor, não deveria prever um novo contrato, considerando valores que deem sustentabilidade e que sejam compatíveis com as necessidades da instituição? O Secretário ainda não respondeu à pergunta da seLecT. Mas por meio de sua assessoria de imprensa, disse que vem buscando diálogo com os 62 equipamentos municipais e que está fazendo estudos e reuniões com representantes do MAR. Além disso, se comprometeu a dar uma entrevista à revista assim que tiver uma visão mais concreta acerca do futuro do museu.  

Evandro Salles em manifestação em apoio ao MAR (Foto: Paula Alzugaray)

“Enquanto não for estabelecida uma solução definitiva para o museu, ele vai ficar com uma espécie de vazio político”, diz Evandro Salles, ex-diretor cultural do MAR, à seLecT. “Tem que se resolver uma crise financeira imediata, mas a questão fundamental que tem de ser resolvida é a crise estrutural. Uma instituição não pode ficar à mercê de soluções mensais. A forma mais destrutiva de ação é o silencio. Se você corta a verba e não explicita qual é o seu projeto, essa é a forma mais perversa de destruir uma instituição em desenvolvimento. Tem de haver um posicionamento, uma fala sobre o entendimento que a prefeitura tem sobre essa instituição. A significação dela pra cidade, pro país, pra educação, pro aparato de educação da municipalidade, que é um dos maiores do país”. 

Fatos culturais
Nesta semana de grandes acontecimentos, o MAR inaugurou duas importantes exposições: Pardo é Papel e Spider (Aranha), de Louise Bourgeois na Coleção do Itaú Cultural. Primeira individual de Maxwell Alexandre em um museu brasileiro, Pardo é Papel esteve em cartaz até setembro passado no MAC Lyon, na França, com curadoria de Matthieu Leliévre. Ganhou montagem no Rio graças ao esforço da iniciativa privada, capitaneado pelo Instituto Inclusartiz. Maxwell Alexandre retrata em sua obra uma poética urbana que passa pela construção de narrativas estruturadas a partir de sua vivência cotidiana da cidade e da comunidade da Rocinha, onde nasceu, trabalha e reside. Aos 29 anos, ele é uma revelação internacional. Em junho de 2020, inaugura individual no Palais de Tokyo, em Paris, após realizar residência artística na capital francesa a convite do SAM Art Projects, da colecionadora Sandra Hegedüs. 

“Eu estava totalmente ciente do que estava acontecendo com o MAR quando procurei o presidente do museu (Carlos Gradim), o Evandro (Salles) e o Paulo (Herkenhoff)”, diz Frances Reynolds, diretora do Instituto Inclusartiz à seLecT. “Eu disse que, conhecendo o background de Maxwell e a situação do MAR e do Rio hoje, era superimportante fazer essa exposição. Eles disseram que o problema do patrocínio era meu, mas eu estava tão convencida do que eu estava pensando que acho que consegui transmitir isso ao patrocinador”. Quem financiou a mostra foi o Grupo Petra Gold Serviços Financeiros, que fez a restauração do Teatro Leblon, hoje intitulado Teatro Petra Gold, e patrocina galeria Simone Cadinelli Arte Contemporânea. “Tudo o que a gente puder investir em Cultura, a gente está investindo na cidade”, disse Eduardo Wanderley, CEO do Grupo Pedra Gold, à seLecT

Frances Reynolds e Paulo Herkenhoff em frente a trabalho de Maxwell Alexandre (Foto: Divulgação)

 

A abertura da exposição aconteceu no mesmo dia do “abraçaço” e transformou o MAR palco de uma grande celebração cultural, expandindo o público e envolvendo comunidades que ainda não conheciam o museu. Como os rappers BK’ e Baco Exu do Blues, que fizeram uma performance sob os pilotis. “Acho que essa exposição vai ser um marco pra essa juventude. Para a comunidade que eu represento”, diz Maxwell Alexandre a seLecT. “Eu tinha uma visão leviana sobre o MAR, ligada a questões que ligam esse lugar a um processo de gentrificação. Mas há algum tempo, andando de skate da Praça XV até a rodoviária, comecei a perceber que este, de fato, era um lugar que estava funcionando. Eu via pessoas na rua, uma atmosfera gostosa. E agora, ao ocupar o museu, comecei a me deparar com uma rapaziada preta, bonita, indo no museu… me deu uma sensação meio de Madureira”, diz ele, se referindo ao bairro da Zona Norte carioca.

Detalhe de trabalho de Maxwell Alexandre (Foto: Paula Alzugaray)

 

O efeito de identificação que a mostra Pardo é Papel tem surtido entre os visitantes certamente ecoa outra exposição que aconteceu entre abril de 2018 e março de 2019, para comemorar os 5 anos do museu. “O Rio do Samba: Resistencia e Reinvenção trouxe um publico novo pro museu, da zona oeste do Rio, dos subúrbios, que passou a frequentar e não deixou o museu”, conta Evandro Salles. “Foi a primeira vez que se fez num museu uma história social do samba. Isso é um dado muito importante do ponto de vista cultural. Não é à toa que não tinha havido uma exposição no RJ sobre isso: decorrência de uma estrutura realmente racista. E quando isso ocorre há uma resposta maravilhosa das pessoas ligadas a esse universo cultural, que vão ao museu para se reconhecerem, para reconhecerem a sua própria historia”.

Pardo é Papel, individual de Maxwell Alexandre no MAR, gera forte identificação com o público

 

No sábado 30 foi a vez de Spider (1996), da Coleção Itaú Cultural, em itinerância por várias cidades brasileiras desde 2018, ocupar o MAR. Na fala de apresentação, o curador da exposição, Paulo Herkenhoff, também responsável pela Coleção MAR, formada por um acervo de cerca de 9 mil obras e 20 mil itens documentais e bibliográficos, salientou a importância de união e alianças para atravessar a crise. O curador se mostrou confiante com os diálogos tecidos com a Secretaria da Cultura ao longo da semana, que segundo ele acenam com uma perspectiva de futuro, e citou Mário Pedrosa: “Em momento de crise, é preciso estar com os artistas”. E com os museus. 

Saiba mais sobre o MAR em texto da curadora Clarissa Diniz sobre a inserção do museu na região do Valongo, publicado na seLecT #29 (abril/maio 2016), dedicada ao Rio de Janeiro.

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