O mercado e a arte no século 21

Quando a economia brasileira deve encolher 8% em dois anos, a SP-Arte dá mostras de resiliência

Felipe Martinez

Publicado em: 25/04/2016

Categoria: Da Hora, Mercado de Arte

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SP Arte (Foto: Reprodução)

Em 2013, o economista francês Thomas Piketty balançou o cenário econômico mundial com a publicação de sua obra “O Capital no Século XXI”. Piketty utilizou uma série extensa de dados para demonstrar que o capitalismo do presente século tende a concentrar cada vez mais renda nas mãos de poucos. O mercado contemporâneo de arte fornece a exata temperatura dessa tese.

Em plena crise econômica, quando a economia brasileira deve encolher terríveis 8% em dois anos, a SP-Arte, um dos principais eventos no calendário artístico do país, dá mostras de resiliência. Ainda que as vendas tenham caído significativamente em relação ao ano passado, a feira foi capaz de movimentar 180 milhões de reais em quatro dias, desempenho de dar inveja a qualquer outro mercado. A despeito dos apetites moderados, a crise não foi capaz de impedir que os mais ricos continuem a desembolsar cifras astronômicas por artistas consagrados pelo mercado.

Logo na abertura, o sexagésimo oitavo homem mais rico do mundo, sócio da 3G capital, holding que controla empresas como a Ambev e o Burger King, supostamente adquiriu uma pintura de Beatriz Milhazes pela bagatela de 16 milhões de reais. Segundo noticiado posteriormente, a galeria responsável pela obra cancelou a transação devido à grande repercussão do negócio, mas admitiu que a pintura foi colocada à venda por algo em torno de 12 milhões de reais. Apesar da controvérsia, a obra de Milhazes permanece como o ícone da feira deste ano, dada a magnitude dos valores que orbitaram ao seu redor. Foi seu valor de mercado, e não seu valor artístico, que motivou selfies, artigos, comentários e toda a repercussão que pode ter levado ao cancelamento da transação.

Também não é pura coincidência que os Panamá Papers tenham revelado o funcionamento de um esquema offshore, operado pelo escritório panamenho Mossack Fonseca, para realizar transações não declaradas com obras de nomes do calibre de Modigliani e Picasso. As obras presentes nos registros da Mossack Fonseca são dignas do desejo de qualquer museu do mundo. Os altos preços atingidos em leilões e feiras de arte nos últimos anos e sua íntima ligação com transações secretas e fora do controle dos Estados mostram o quanto a arte pode ser um investimento atrativo, livre de impostos e de regulamentação. Não é preciso dizer que tal característica causa impacto na própria produção artística e nas decisões de compra e venda.

Isso não significa que seja somente essa a razão para se adquirir obras de arte, mas o motivo investimento e o motivo especulação estão ligados ao mercado de arte desde, pelo menos, o século XIX. Basta uma rápida leitura das cartas de Vincent van Gogh a seu irmão Theo, ou ler “A Obra” de Émile Zola, para constatar que o desenvolvimento da arte moderna esteve, desde o princípio, muito próximo do desenvolvimento do capitalismo financeiro. Desde que o capitalismo é capitalismo, qualquer coisa colocada no mercado pode ser objeto de transações de natureza financeira, e não seria diferente com as obras de arte.

Ironicamente, o mesmo prédio onde ocorre a SP-Arte sediará ainda neste ano a próxima Bienal de São Paulo, um evento que historicamente, entre fracassos e sucessos, pretendeu-se crítico ao expor as contradições da sociedade burguesa por meio das obras de arte, na melhor tradição da modernidade. Apesar das tentativas das vanguardas de negar o caráter de mercadoria da arte, tudo foi absorvido pelo mercado: desde a arte conceitual até as performances. Os estandes da SP-Arte deram uma boa amostra disso, em um momento no qual, a despeito de qualquer crise, quem está no topo do topo tem cada vez mais dinheiro. Para entender a arte no mundo diagnosticado por Piketty, vale antes passar pela SP-Arte do que pela Bienal.

Felipe Martinez é economista e doutorando em História da Arte pela UNICAMP. Ministra o curso de História da Arte Moderna no MAM-SP.

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