O Mestre do Avant-pop

Giselle Beiguelman

Publicado em: 26/01/2013

Categoria: Crítica, Reviews

Quer levar Tarantino a sério? Não leve Tarantino a sério

Django-unchained-movie-2012

Legenda: Quentin Tarantino incorpora Django.

Django – com D mudo, como ensina Jamie Foxx, seu intérprete e protagonista – é o novo filme de Quentin Tarantino. Está em cartaz no Brasil e mundo afora, irritando muita gente e encantando um outro bom punhado de multidões.

A tuitada de Spike Lee no fim do ano ficou famosa e dá o tom do que ofende muitos ativistas. Para quem não lembra, Lee escreveu: “A escravidão americana não foi um Western Spaghetti de Sergio Leone. Foi um Holocausto.” 

O filme conta história de um escravo liberto, Django, que em parceria com um alemão caçador de recompensas, o Dr. King Schultz (Cristoph Waltz, brilhante…), sai em busca de sua amada, vendida ao cruel fazendeiro do Mississipi, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

É conhecida a tese de que todos os filmes de Tarantino são um só. O tema foi explorado no curta Tarantino’s Mind, protagonizado por Selton Mello e Seu Jorge, e sua hipótese central aprofundada, aqui, na seLecT, por Alexandre Matias, ex-editor do Link e atual Diretor de Redação da revista Galileu. 

Além dos elos mapeados pelos experts em Quentin Tarantino, que confeririam continuidade entre os filmes, fazendo com que todos compusessem um longo roteiro de uma narrativa em processo, são recorrentes suas referências ao universo do entretenimento, em remixes geniais de retóricas dos B movies e dos quadrinhos.

Mas agora teremos que acrescentar a esse cardápio o olhar de Tarantino sobre a história. Afinal, seus dois últimos filmes são ficções históricas. Bastardos Inglórios (2009), na Segunda Guerra Mundial, e Django Livre nos EUA no século 19, antes da Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana (1861-1865). 

Na época do lançamento de Bastardos, Tarantino comentou, em entrevista ao premiado jornalista e escritor americano Jeffrey Goldenberg na revista The Atlantic, que a falta de imaginação de Hollywood sobre o tema, com suas cenas traumáticas e tristes, era irritante. “Nós já vimos essa história antes. Eu quero ver algo diferente. Vamos ver alemães que são apavorados por judeus. Vamos não fazer tudo para terminar num grande desastre, vamos tomar a diversão dos filmes de ação e aplicá-la a esta situação.”

Nesse filme, um grupo de soldados americanos judeus, na França ocupada pela Alemanha, tem como objetivo exterminar líderes nazis. Em Django, o escravo liberto diverte-se em ganhar para exterminar brancos. Que coisa poderia ser melhor que isso, pergunta ironicamente. 

Nos dois filmes invertem-se as posições: os oprimidos tomam o lugar do opressor. Mais do que isso, incorporam seus discursos, sua ideologia, seus valores e comportamento ditatoriais. Sangrento, cruel e hilário, Bastardos apresenta judeus que fazem, literalmente, picadinho de nazistas apavorados. Em Django, também sangrento, cruel e hilário, como um cowboy solitário, o protagonista homônimo, cruza os imensos vazios da América, para escrever o futuro pela pena (e bala) do indivíduo.

Pastiche e paródia de filmes de bang-bang, Django é um tributo a estética dos quadrinhos. Cabeças de cavalo explodem e peitos estourados a tiros certeiros jorram sangue, como chafarizes em corpos furados. Os efeitos sonoros substituem as onomatopeias recorrentes nas HQs. O público se diverte e com razão. Tarantino é um convite ao barulho e ao bom humor.

Ele parece rezar pela cartilha do Manifesto Avant-Pop de Mark Amerika e Lance Olsen em In Memoriam to Post-Modernism (San Diego University Press, 1995, p. 21), quando afirmam as diferenças entre o pós-modernismo e a cultura de rede:

Uma das principais crenças do pós-modernismo é: eu, quem quer que seja este, junto pedaços de dados e formo um texto, enquanto você, quem quer que seja, produz seu próprio significado com base naquilo que traz para este texto. Um dos mais importantes princípios do avant-pop é: eu, quem quer que seja, estou sempre interagindo com os dados criados pelo coletivo, quem quer que seja este, e por meio da interação e da ampliação deste coletivo, vou encontrar significado.

É nesse contexto que os filmes de Tarantino ganham força. Algoz irônico e antropofágico da indústria hollywoodiana e do entretenimento pasteurizado, aqui não há lugar para patrulhas que desprezam a cultura de massas, tratando seus produtos como lixo industrial. Ela está no nosso horizonte e seus clichês estão aí para serem devorados pelas inúmeras estratégias de haqueamento simbólico. Como diziam Amerika e Olsen:

Em uma Era dos Dados, em que nos arriscamos a sofrer de intoxicação informacional (…), criar uma obra de arte depende mais e mais da habilidade do artista para selecionar, organizar e apresentar os pedaços de dados brutos que tem à sua disposição. Todos nós sabemos que a originalidade está morta e que nossas realidades virtuais contaminadas são já readymades e prontas para o consumo!

Isso posto, só existe uma forma de levar Tarantino a sério: não levar Tarantino a sério. 

Divirta-se.

Django Livre. 2012
Direção e roteiro: Quentin Tarantino.
Com: Jamie Foxx, Cristoph Waltz e Leonardo DiCaprio.
Distribuição: Sony Picutres
www.djangolivre.com.br

Todas as imagens: Divulgação Sony Pictures e IMDb

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