O nativo, o alienígena e o deslocamento da periferia para o centro

A diluição de binarismos na obra fundamental de Anna Bella Geiger

Paula Alzugaray

N° Edição: 49

Publicado em: 29/04/2021

Categoria: A Revista, Destaque

Brasl Nativo/ Brasil Alienígena (1976/77), de Anna Bella Geiger (Foto: Cortesia da artista)

“O centro não é simplesmente estático” (Circumambulatio, 1973)

O desmonte da lógica binária é uma das grandes contribuições das teorias queer e pós-feministas às transformações sociais e comportamentais em curso hoje, colocando em modo demolição as regras que por séculos sustentaram a colonização dos corpos. Essas mesmas forças de desestabilização das lógicas de poder sobre territórios entraram em campo nos estudos de Anna Bella Geiger sobre o centro e as polaridades. Brasil Nativo/ Brasil Alienígena (1976-77) é um ponto de inflexão desse processo, quando toda classe de binarismos, como a parte e o todo, o dentro e o fora, e eu e o outro, começa a se desequilibrar e se embaralhar.

O trabalho é feito de nove pares de imagens, mas nem por isso fala de extremidades, ou de opostos complementares. De um lado, uma coleção de cartões-postais comprados pela artista em uma banca de jornal mostra cenas cotidianas e rituais de indígenas de diversas etnias – Bororo, do Mato Grosso; Suiá e Trumai, do Alto Xingu; Uaika, do Alto Rio Negro. No verso, lê-se “Brasil Nativo”. Do outro lado, temos as reencenações dos mesmos atos indígenas, realizadas pela artista, filhos e amigos, no contexto da cidade do Rio de Janeiro. No verso, lê-se “Brasil Alienígena… Com o meu despreparo como homem primitivo”.

Aponta a crítica Estrella de Diego, no texto Sobre o Mito do Pertencimento – Outras Formas de Ser Feminista, para os usos do cartão-postal nas manobras de construção, dominação e invenção de mundos, a serviço de agendas colonialistas. Por trás dos estereótipos de uma vida idílica e intocada, adivinhava-se a politica genocida que se infiltrava na Amazônia, nas rodovias abertas pelo regime militar.

Ao analisarmos as fotografias dos Bororo, Suiá, Trumai e Uaika, fica claro que se tratam de indígenas encenando seu papel de “nativos”, seja varrendo o chão em frente à maloca, dançando, manejando o pilão da mandioca, ou posando para a fotografia ao lado da freira católica. O que Anna Bella Geiger faz nas imagens do conjunto “Brasil Alienígena” é reencenar essas encenações, na sua condição de artista, mulher, branca, urbana: na calçada de um prédio modernista em Copacabana, no terraço do seu apartamento no Flamengo, segurando uma sacola de supermercado, acariciando um animal de estimação.

Brasl Nativo/ Brasil Alienígena (1976/77), de Anna Bella Geiger (Foto: Cortesia da artista)

Espelhamento e empatia
Entre os pares de imagens, um chama particular atenção: de um lado, uma índia Suiá sorri, observando a própria imagem em um espelho. Do outro, Geiger se debruça na direção de um olho d’água no chão, na pose ocidental clássica do Narciso contemplando a própria imagem.

Nas imagens espelhadas das duas mulheres – uma com seu corpo e território ameaçados por invasões; a outra, com seus atos e gestos cerceados pela censura –, os reflexos de uma mesma opressão. Diluídas hierarquias nesses espelhamentos, nos perguntamos: Quem aqui é o nativo? Quem o alienígena?

“Os cartões-postais do ‘Brasil nativo’ me trouxeram a pergunta: onde está o Brasil alienígena? E o que ocorre nesses dois Brasis, no nativo e no alienígena? Foi isso o que me motivou a criar a relação: a nossa falta do voto, a nossa falta de cidadania”, diz Anna Bella Geiger à seLecT.

Pelo seu caráter desestabilizador de forças, Brasil Nativo/ Brasil Alienígena é um trabalho fundacional na obra da artista. A obra nomeia a exposição que esteve em cartaz no Masp e no Sesc, em 2019, e que em 2021 segue para o Smak Antuerpia. Ela dá continuidade às pesquisas sobre a relatividade dos conceitos de centro e periferia – Aqui é o Centro (1973) – e abre caminhos para as fotogravuras de mapas – Mapas Elementares (1976); Local da Ação (1979-80) – que colocam a América do Sul no centro e o Rio de Janeiro no centro cultural do mundo.

Deslocado para o contexto 2020, o trabalho adquire centralidade em discussões atuais relativas a diversidade, decolonialidade, crise ambiental, fake news e negacionismo. A imagem da vida pretensamente imperturbada das aldeias amazônicas, reproduzida nas bancas de jornais de um Brasil censurado, está para os tuítes do Brasil de Bolsonaro: a floresta amazônica não está queimando.

  • Detalhe de Brasil Nativo/ Brasil Alienígena (1976-77) (Foto: Cortesia da artista)
  • Detalhe de Brasil Nativo/ Brasil Alienígena (1976-77) (Foto: Cortesia da artista)

Por que não sentir o aroma?
Mas um outro elemento perturbador vem embaralhar as certezas sobre quem é o nativo e quem é o alienígena nesta história. Ele se chama Anna Bella Waldman. “Imagine que meu sobrenome é Waldman – o homem da floresta”, diz a artista à seLecT. “Quando me casei em 1956, eu assinava Anna Bella Waldman, mas por essas coisas de hierarquias machistas, naquela época o nome de solteiro desaparecia e vinha o nome do marido… demorou para eu assimilar, mas comecei a assinar Geiger. Gosto do sobrenome Geiger, que significa violinista, mas não é a minha verdadeira face de uma Waldman, que é mais selvagem, que vem de dentro da floresta.”

A espiral das derivas, das oscilações e das flutuações na obra de Anna Bella Waldman Geiger se completa quando, em outubro de 2020, ela volta à série em processo Rrose Sélavy, Mesmo (1997-2020). “As inserções de Rrose Sélavy em páginas de jornal, eu já faço há uns 20 anos, quando as manchetes me trazem frases que podem ter duplo sentido”, diz. Colada sobre a fotografia de um indígena e sob a chamada “Febre da selva”, no segundo caderno do jornal O Globo, o alterego queer de Duchamp é convocado para de novo provocar e desestabilizar nossas certezas sobre quem está no centro e quem está na margem.

série Rrose Sélavy, Mesmo (2020), de Anna Bella Geiger (Foto: Cortesia Danielian Galeria)

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