O paraíso dos marrecos

Exposição na Residência Fonte reúne obras que investigam masculinidades e homoafetividades contemporâneas. Leia, em primeira mão, ensaio do curador

Icaro Ferraz Vidal Jr.

Publicado em: 20/05/2022

Categoria: Da Hora, Destaque

A Gente Começa de Pequeno, de Bruno Novaes

O título da exposição foi extraído de uma crônica de João do Rio publicada em 5 junho de 1903 na Gazeta de Notícias. Nela, o escritor enaltece a recém-inaugurada iluminação do Passeio Público da cidade do Rio de Janeiro, contrapondo a claridade do parque às “escuríssimas alamedas do velho Campo de Sant’Anna”, onde “as árvores, as boas e castas árvores, já devem estar escandalizadas com o que distintamente ouvem e com o que vagamente avistam à noite”. Com a ironia que lhe é própria, João do Rio conclui: “No passeio público, os palmípedes já se vão habituando ao movimento, à música e à luz. Mas, no Parque da República, as alamedas ainda são o paraíso dos marrecos… e de outros animais de mais tino e de menos inocência”.

Se aqui João do Rio apresenta uma visão moralmente positiva do projeto de modernização da cidade do Rio de Janeiro, este olhar não predomina no conjunto de sua obra, que reconheceu importantes tensões e paradoxos da modernidade brasileira. Para além do elogio das luzes, interessam-nos, na crônica em questão, os indícios da familiaridade do escritor, sabidamente homossexual, com o bas-fond carioca do começo do século. Por meio de seus escritos, João do Rio testemunhou a implementação heterogênea e desigual de um projeto de modernização no Brasil, e seus efeitos na criação de zonas de luz e de sombra no espaço urbano, caracterizadas, respectivamente, pelas contenções impostas pelo projeto civilizador e pela livre circulação do desejo e dos corpos que não cabiam em tal projeto.

A vida e a obra de João do Rio oferecem pistas interessantes para transitarmos pelas poéticas de Adriel Visoto, Bruno Novaes, Élcio Miazaki, Fefa Lins, Gabriel Pessoto, Marcelo Amorim, Marcio Junqueira, Matheus Chiaratti, rafael amorim, Rafael RG e Tales Frey. A possibilidade de pensarmos masculinidades e homoafetividades no plural relaciona-se, no contexto da exposição, com uma reunião de poéticas que flertam com o gesto do cronista, que cria sua obra ancorado na efemeridade dos acontecimentos vividos e na combinação, em doses variadas, de realidade e ficção, fornecendo instantâneos de uma realidade que é, ao mesmo tempo, individual e coletiva.

Homossexual, negro e obeso, a inserção de João do Rio nas altas rodas da sociedade carioca do início do século 20 não foi desprovida de atritos e tensões. O retrato complexo da modernidade oferecido pelo escritor não se separa destes marcadores, frequentemente negligenciados pela crítica. A eleição do dândi tropical como interlocutor extemporâneo dos artistas reunidos em O Paraíso dos Marrecos justifica-se não apenas por suas incansáveis descrições dos paradoxos inerentes à importação de um projeto branco e patriarcal de modernidade, mas também por se tratar de uma figura que inscreve a masculinidade sobre um campo plural, atravessado por complexidades que se radicalizam contemporaneamente.

Os aplicativos de pegação, a pornografia a um clique, a crítica contrassexual da masculinidade falocentrada, a consciência da violenta pedagogia da masculinidade na infância, e o reconhecimento de marcadores sociais – como raça e classe – como imprescindíveis para situar masculinidades e homoafetividades são apenas alguns dos fenômenos que aparecem nesta crônica fragmentada de nossa época. O Paraíso dos Marrecos reúne pinturas, desenhos, vídeos, fotografias e instalações que nos ajudam a compor um retrato do nosso tempo, mas procura fazer isto sem iluminar demasiadamente as vias por onde circulam os corpos e os afetos dissidentes.  

SERVIÇO
Fonte (Rua Mourato Coelho, 751, Vila Madalena, São Paulo)
Abertura: sábado, 21/5, das 14h às 20h
Visitação: até 18/6, sob agendamento
Artistas: Adriel Visoto, Bruno Novaes, Élcio Miazaki, Fefa Lins, Gabriel Pessoto, Marcelo Amorim, Marcio Junqueira, Matheus Chiaratti, rafael amorim, Rafael RG e Tales Frey
Curadoria: Icaro Ferraz Vidal Jr.

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