O presente está cheio de passado

Curadoria de Lilia Schwarcz cutuca a história que conhecemos e a reescreve a partir da arte

Luana Rosiello

Publicado em: 06/04/2022

Categoria: Da Hora, Destaque

Céu Azul (2010), de Emmanuel Nassar (Foto: Divulgação)

Este ano é marcado por diversos 22, determinantes para a construção do Brasil como o  vivenciamos hoje: o centenário de morte do escritor Lima Barreto e da Semana de Arte Moderna de 1922 , os 200 anos da Independência do país e as eleições presidenciais. Partindo deles, a historiadora, professora e curadora, autora de uma pesquisa  teórica fundamental para pensar o Brasil e a arte, concebe Vários 22, exposição  em cartaz até 21/5 na galeria Arte132.

Schwarcz reúne 80 trabalhos, selecionados segundo um recorte étnico, racial e de gênero. As obras  são provenientes do acervo de Telmo Porto, engenheiro de formação e diretor do espaço, e de outras 10 galerias ouartistas convidados pela própria curadora. ”A mostra se delineia a partir dos vários e tantos 22 que teremos esse ano. Além de ser um momento decisivo para a democracia do país, celebramos o Lima Barreto, o centenário da Semana de 1922 e o bicentenário da Independência do Brasil”, conta Lilia Schwarcz à seLecT. 

  • Vista de Vários 22
  • Vista de Vários 22

A curadoria subverte as narrativas históricas do Brasil, sobretudo por meio devozes afrodescendentes. ”Introduzir a mostra como lugar de afirmação e plenitude do negro possibilita rever a ‘história pela metade’ que a Semana e os outros marcos trouxeram; o nosso presente ainda continua cheio de passado”, finaliza. Schwarcz propõe um diálogo provocativo entre as narrativas estabelecidas pela arte e seus gêneros – paisagem e retrato -, intercalando obras de artistas clássicos e contemporâneos para colocar em xeque o imaginário hegemônico . ”Pensamos aqui em como reescrever essa história que, desde o início, foi negociada e sequestrada no Brasil, aproximando artistas de diferentes gerações para criar esses contrapontos por meio da arte”, conta a curadora a seLecT. 

No núcleo Símbolos Pátrios: A Nação em Resumo, a clássica litografia de Jean-Baptiste Debret, O Jantar – Viagem Pitoresca (1839), é colocada ao lado de Jantar Brasileiro, colagem digital da artistas maranhense Gê Viana, que se apropria da gravura do artista francês para fazer uma releitura da cena colonial. Essas relações, que permeiam toda a mostra, buscam afirmar os lugares de memória e identidade dos povos originários através dos tempos, evidenciando como fomos induzidos a ler nossa história  por uma lente europeia. 

  • O Jantar – Viagem Pitoresca (1839), de Jean-Baptiste Debret (Foto: Everton Ballardin/Divulgação)
  • Sentem para Jantar - Série Atualizações Traumáticas de Debret (2021), de Gê Viana

Além da seleção de obras ter sido pautada nas ambiguidades e tensões provenientes do campo erudito e do imaginário eurocêntrico, trazendo artistas como Flávio Cerqueira, Luiz Braga, Ayrson Heráclito, Jaider Esbell, Jaime Lauriano, Moisés Patrício, Igi Ayedun, O Bastardo, Maria Auxiliadora, José Bezerra, José Antonio da Silva, entre outros, a mostra também apresenta trabalhos inéditos de jovens artistas, como a tela Identidade (2022), de Larissa de Souza, Ikari (2022), de Pegge, e Lima – Série Jardim (2022), de Marlom Amaro, todos da galeria Hoa.  

Serviço
Vários 22
Até 21/5, Arte132  – Av. Juriti, 132, SP

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