O problema é o poder

A artista israelense Yael Bartana fala sobre a etapa brasileira de seu projeto E Se As Mulheres Governassem o Mundo?

Giselle Beiguelman
Retrato de Yael Bartana (Foto: Fabio Braga)

A artista israelense Yael Bartana esteve em São Paulo em dezembro, a Convite do Instituto Goethe e da Casa do Povo, para fazer os primeiros estudos relacionados ao seu projeto E Se As Mulheres Governassem o Mundo? (What if Women Ruled the World?), iniciado no Manchester International Festival, em 2017, e apresentado em Berlim, em 2018.

Na obra, realizada até o momento em formato teatral, Yael apropria-se, em interpretação livre, das cenas finais do filme Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick. As cenas mostram uma war room, onde homens decidirão o futuro do planeta e, eventualmente, o levarão à destruição.

Esse foi o cenário de encontro entre pensadoras, artistas, cientistas e ativistas, envolvidos nas primeiras etapas do projeto. “A apresentação era bastante específica sobre mulheres e guerra e mulheres pacifistas”, diz Yael Bartana à seLecT sobre esses eventos. “Discutia o que você poderia fazer se estivesse no poder e, como uma provocação, qual tipo de poder nós desejamos ser.” Um único homem, com o torço nu, participava das apresentações. “A ideia era desencadear conversas por meio de interrupções. Por isso tínhamos um tipo de antagonista ao projeto feminino, à mesa-redonda feminina, ao governo feminino, que era um homem, e o chamamos de Tweetler, em referência clara a Trump.”

What If Women Ruled the World (2016), néon de Yael Bartana

A artista frisa que E Se As Mulheres Governassem o Mundo? funciona como um think tank para elaborar outros mundos possíveis, composto de experts, atrizes e moderadoras. O capítulo paulistano ainda não tem formato definido, mas certamente retomará a estrutura de plataforma de reflexão. Contudo, será adequado às especificidades do contexto brasileiro, onde a mulher ainda disputa o direito de soberania sobre o seu próprio corpo, e vai incorporar agentes conservadores. Yael diz que, para ela, é muito importante convidar mulheres de esquerda e de direita, não só para gerar confronto, mas porque o encontro “talvez afete, em algum nível, algumas das mulheres; talvez elas vejam algo novo. A maioria vive num ambiente muito masculino e tem de competir com os homens. Mas o que aconteceria se estivéssemos num ambiente feminino? Será que abririam sua mente/visão? Talvez não possamos mudar o mundo, mas, se pudermos mudar a mente das pessoas, já seria um potencial bastante poderoso”, afirma.

Nascida em Israel, Yael Bartana participou de importantes exposições internacionais, como a 31ª Bienal de São Paulo, quando foi um dos destaques com o filme Inferno (2013). Participou também da 54ª Bienal de Veneza, em 2011, onde representou a Polônia com sua trilogia sobre a complexa relação entre judeus e poloneses e suas reverberações na contemporaneidade (And Europe Will Be Stunned, 2007-2011).

Crítica contumaz das políticas de exclusão, vive um autoexílio de seu país há mais de 20 anos. Apesar de retornar frequentemente por laços familiares, a situação para ela tem o peso de um “sacrifício”, conta. “Meu sonho é que a ocupação termine, que haja direitos iguais, com livre acesso a todos, independentemente de identidade. Eu adoraria isso, porque, obviamente, os judeus são sempre o outro, historicamente. Então é uma fantasia: eu gostaria muito de voltar para Israel e morar no lugar onde cresci. Além do mais, tem sempre essa questão dos cheiros, dos seus vizinhos, seus amigos. E há também o sentido de comunidade, que é muito forte, e não existe na Europa um sentido de comunidade.”

Foi justamente a partir do tema da sua relação com o país natal que começou nossa conversa, na Casa do Povo, onde uma intervenção sua no teto, em néon, Assim Elas Comemoram a Vitória (2017), recebe a todos. Releitura de uma frase que é uma das chaves de leitura da Casa do Povo, diz também muito sobre o trabalho de Yael Bartana e sua reflexão sobre o imaginário e as políticas de identidade e da memória. Fundada por judeus comunistas em 1946, a Casa foi inaugurada com um discurso intitulado Assim Eles Comemoraram a Vitória, que associaria para sempre a Casa do Povo à luta contra o nazifascismo. Ao trazer o verbo para o presente e mudar o gênero do sujeito da frase, Yael Bartana atualiza as lutas que se repõem hoje, a partir de discursos de ódio contra a diversidade e práticas racistas e xenofóbicas. E abre alas para seu projeto em curso.

seLecT: Em apresentação na Casa do Povo, você disse que seu status de cidadã israelense foi o ponto de partida do projeto E Se As Mulheres Governassem o Mundo?. Você nunca pensou em realizá-lo em Israel?
Yael Bartana: Nós queríamos e ainda queremos. Estou estudando. Há negociações sobre a possibilidade de realizá-lo lá, mas a verdade é que é impossível juntar mulheres israelenses e palestinas. A menos que elas sejam palestinas-israelenses, ou seja, mulheres árabe-israelenses, que vivem em Israel. Isso é possível. Senão, é mais que impossível haver cooperação com mulheres palestinas que moram na Palestina. Porque elas não cooperariam com uma artista israelense, mesmo que essa artista seja a pessoa mais esquerdista do mundo. Não importa, ainda assim sou israelense. Eu realizei trabalhos na Palestina, nos territórios ocupados. Eu fui com um grupo de ativistas que reconstruíram uma casa palestina em duas semanas, como um ato de resistência à ocupação. Trabalhei com uma curadora na Palestina, em Ramallah. Na verdade, eu a convidei para o projeto das mulheres, ela é uma das experts (Galit Eilat). Mas você não consegue realizar um projeto na Palestina de maneira transparente; definitivamente não. Então isto ainda é uma possibilidade imaginativa. Poderia realizá-lo em Jerusalém e convidar artistas árabes-israelenses. E isso também seria muito interessante. Há importantes movimentos populares de mulheres relacionados à ocupação, à situação de guerra, muito complexos, formados por mulheres de direita e de esquerda, movimentos bastante grandes, que promovem protestos e ações. Uma das moderadoras do meu projeto é a jornalista de guerra Anat Saragusti, muito ativa no contexto político e social em Israel. Ela esteve na Dinamarca nas três performances e depois veio para Berlim para as quatro performances. Eu quis trabalhar especificamente com Anat porque ela esteve em Gaza, lida com mulheres em situação de guerra e conflitos, e quis contar com seu conhecimento, seu interesse, sua expertise, e suas perguntas sobre feminismo e o papel do feminismo numa zona de conflito, o que se pode realmente fazer. E foi interessante, porque pudemos realmente ver mulheres que tinham background militar e lidam com a indústria armamentista.

And Europe Will Be Stunned (2010), néon de Yael Bartana

 

Qual foi sua motivação ao escolher o Brasil para realizar o projeto?
Em primeiro lugar, gosto muito da ideia de descentralizar, de sair da Europa. Embora as mulheres que eu convidei nas outras etapas do projeto sejam em sua maioria muito privilegiadas, empoderadas, pois conduzem seu próprio mundo, tomam suas próprias decisões. Até mesmo as que se tornaram operadoras de drone, elas escolheram isso, tiveram essa possibilidade. Mas países como a Finlândia, a Dinamarca, que são lugares de direitos iguais; elas nem mesmo veem que existe essa luta feminina. Elas dizem não haver diferença entre homens e mulheres porque nunca experimentaram algo assim. Moram num ambiente totalmente branco e protegido, odeiam refugiados e imigrantes. A Dinamarca é sua própria tribo, um país super-racista. Eu venho de um país onde há muita violência, guerra e discriminação, e que tem muita merda acontecendo, então uma das coisas que busquei foi sair do contexto europeu e vir para a América Latina. Trata-se de um contexto totalmente diferente, uma discussão muito diferente. Também conheço o Benjamin (Seroussi, diretor-executivo da Casa do Povo), já trabalhei com ele, confio nele, sei como ele funciona. Então, quando ele me convidou, eu lhe falei: olha, nós não podemos fazer novamente no formato de peça de teatro, como fiz na Europa, mas o projeto continua a evoluir, continua a se expandir. Trabalhar no contexto brasileiro é muito importante: há muito que se discutir aqui. O que vivenciei na minha semana de trabalho no Brasil foi absolutamente incrível. As mulheres que conheci são tão poderosas, tão empoderadas, e ao mesmo tempo sua comunicação é tão suave. Não estou acostumada com isso. Mesmo enfrentando assuntos muito pesados, elas possuem uma iluminação interior. Como conseguem isto? Tanta beleza… Eu não estou acostumada. Vinda do contexto europeu, são todos muito rabugentos. Talvez seja o sol, o sol e a água, eu não sei. Isso me deixa fascinada, como elas são tão otimistas e suaves, e tão inteligentes. É uma combinação realmente interessante, conhecendo este país onde é tão difícil ser mulher, ainda mais mulher negra, mulher indígena. Acabei de ter um encontro com um advogado que está lidando com mulheres castradas. Meu Deus, como é difícil. Eu sinto que é possível. Temos de descobrir uma forma de fazer e gerar um momento interessante no contexto do Brasil e na Casa do Povo, um lugar para as pessoas. E agora conhecendo, por exemplo, pessoas como a Carmen (líder da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo), e trabalhando juntas, vejo que há uma forte energia para a luta, para lutar contra o sistema e pelo desejo de ter uma vida melhor. E também disseminar essa possibilidade. Tenho vivenciado aqui que as pessoas querem comunicar que a situação pode ser diferente. Em sua estrutura singular, em sua forma única de disseminar, de maneira íntima e muito poderosa, podemos solapar, abalar o sistema, que é tão agressivo, tão machista e sexista.

E que aconteceria se as mulheres governassem o mundo?
Não sei se tenho uma resposta…. Tenho sim! A pergunta deveria ser: e se as lésbicas governassem o mundo? Seria diferente? Acho que precisamos compreender primeiro que não devemos ser vítimas do sistema e da sociedade, e perseguir a nossa crença ou nossas vísceras. Acho isso muito difícil em várias situações. Obviamente, falo a partir de condições bastante privilegiadas. Eu não cresci como uma mulher negra, não passei pelo Holocausto, nunca me senti discriminada até certo momento de minha vida. Talvez eu ignorei e não enxerguei. O poder sempre é um problema. Você tem de ser muito cuidadoso a respeito de como você usa o seu poder. Eu acho que essa é a grande pergunta: se as mulheres com poder fazem exatamente o mesmo que os homens, então o problema é o poder? Já chegou a hora de as mulheres governarem o mundo. Serem líderes, terem mais oportunidades. E isso deve incluir as mulheres trans. É muito complexo e soa como uma utopia. Mesmo no movimento feminista existem desavenças, mas discórdias são produtivas, uma força para avançar e permitir a escuta.

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