O que é a arte numa época sem convívio presencial?

O Grupo Inteiro, Artur Barrio, Brígida Campbell, Ana Maria Tavares, Henrique Oliveira, aarea, Lia Chaia e Iole de Freitas respondem

Da redação

N° Edição: 47

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: A Revista, Destaque, Fogo Cruzado

Campos de Preposições, do Grupo Inteiro (Foto: Cortesia dos artistas)

A quarentena em decorrência da pandemia de coronavírus catalisou o uso da internet e do digital para a difusão da produção e da discussão artísticas. Se podcasts e viewing rooms não são novidades na apreciação e divulgação da arte, neste momento se tornaram dominantes, ao lado dos diversos formatos de encontros virtuais. Mas o que acontece com a experiência do corpo e do espaço – qualidade sine qua non da experiência artística pelo menos desde os anos 1960? Como a arte acontece sem o convívio presencial? É o que perguntamos a artistas, pesquisadores e professores. 

Grupo Inteiro
Coletivo
Gráficos. Dados. Vertigem. Fluxos. Situações. Informações. Dúvida. Narrativas. Ficções. Fricções. Políticas. Território. Morte. Circulação. Contaminações. Recuperação. Distância. Contato. Afeto. Tempo. Suspensão. Talvez, com a arte presente nos espaços da vida cotidiana, possamos aprender a conviver com o desconhecido, com o não saber, simultaneamente com a tragédia de tudo aquilo que já se sabe.

Artur Barrio
artista
NADA não é DÁDÁ é NADA….NADA…. e o “poderoso” mercado de arte  Feiras, feiras, feiras, feiras… $ … galerias de arte; o que é normal, assim como os museus… $ … !!! Pandemia é normal, historicamente, que o seja, mas e agora? A Bolsa caiu? O mercado de arte está com sintomas de falência, saudável ou não? O que importa para a arte? Que o seja, ou não ???……. E a arte ????……. e o artista ?……. (sorrisos por parte dos galeristas, mercadores, colecionadores, curadores e pessoas tristes)… porque, diferentemente, estamos habituados às cavernas, solidão, vento, água salgada, onde a arte é prenhe de si mesma, enquanto o mundo se clopctua em borrifos de álcool gel, esperando o horror passar entre soluços e lágrimas diante dos lobos, que, execrados, uivam esfomeados, não diante do cadáver, que esse é para as hienas e os ratos, mas sim diante dos corpos (dos) vivos já não tão vivos, devido às suas perdas financeiras, mas ainda assim desejáveis por justamente não terem conseguido ser lobos.

Ana Maria Tavares (Foto: Gaspar Pini)

Ana Maria Tavares
artista e professora
A arte, como a vida, é uma experiência de trocas. Suspender o nosso impulso natural de compartilhar experiências e de se reverberar no outro é mutilar o que temos de mais essencial, de mais rico na existência. Estamos experimentando um corte quase insuportável, abrupto e inesperado na convivência social e, com isso, cortamos também a possibilidade de qualquer experiência presencial com a arte. Entretanto, se os meios de comunicação e as tecnologias de rede têm servido para nos enlouquecer com uma inundação de informações, falsas ou não, sobre os acontecimentos recentes, estes servem também para nos aliviar neste tempo angustiante. É também a arte que tem entrado nas casas de milhões de pessoas, em linguagens múltiplas do audiovisual, da música, da literatura, da poesia, das artes gráficas, do teatro etc. É ela, essa infiltrada, que nos tem dado alguma esperança para resistir. Nesse contexto, a arte pode servir como salvaguarda, como uma saída possível para o fortalecimento do espírito – seja como atores, seja como receptores. Como em tantos outros tempos difíceis no passado, a arte é um lugar de resistência, de crítica e também da poesia. Mas só a arte não basta. Para além do alimento do espírito é preciso, antes, garantir o direito a uma vida digna. E, em nosso contexto, isso se torna ainda mais urgente. 

Henrique Oliveira (Foto: Norbert Miguletz)

Henrique Oliveira
artista
Acho que ainda é um pouco cedo para chamar uma semana ou duas de quarentena de “época”. Mas esta interrupção do convívio entre as pessoas me parece trazer de volta aquela velha questão – se fazemos arte para nós mesmos ou se, no fundo, é porque sabemos que será vista por alguém? Sinto que aquela solidão do trabalho de ateliê ficou mais evidente. É também um tempo mais propício pra estudar, ler com calma, refletir. Ao mesmo tempo que há uma grande incerteza sobre o futuro, há também, por outro lado, um alívio da pressão das entregas, dos compromissos, exposições etc. Enfim, me parece que estes são tempos de mais arte e menos mundo da arte.

Lia Chaia (Foto: Daniela Toviansky)

Lia Chaia
artista
A arte afeta o corpo. Em uma sociedade pautada apenas pela informação, uma sociedade eletrônica (de noticiário, boletins, comandos, rede sociais, fake news…), a arte entra num interregno, num compasso de espera. Nesta época de pandemia do coronavírus, os valores se alteram e a arte fica guardada para ressurgir, isso na esfera do outro em sociedade: daí vale lembrar a poeta Adélia Prado, que escreveu: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo”. Entretanto, a cabeça de quem faz arte é sempre ativada mesmo em situações de crise, revoluções ou guerra. Se a arte para a sociedade pode entrar no compasso do interregno, situações de crise para o artista podem ser motivadoras, assim como a desaceleração do tempo. Vive-se uma experiência constante de se relacionar com a realidade nessa tensão entre dentro e fora ao mesmo tempo. Mesmo nessa situação tumultuada segue-se trabalhando por desejos e necessidades internas, uma vez que as pressões externas do sistema da artes quase desaparecem. Portanto, o que importa agora é a exigência de produzir por parte do artista, um momento propício para radicalizar o pensamento e a maneira de fazer arte. É preciso continuar a fazer arte como modo de vida e estratégia de resistência. Aceitar a fragilidade humana; estamos à flor da pele, num terreno movediço e em constante movimento. A poesia que está submersa deve voltar à superfície para nos humanizar de novo. Portanto, mesmo neste momento, jogue uma isca e você poderá pescá-la.

Brígida Campbell (Foto: Cortesia da artista)

Brígida Campbell
artista
A arte em tempos de isolamento não será uma arte de grandes eventos, espetáculos, multidões…, pelo contrário, será uma arte sensível que surgirá da sutileza invisível de pequenos gestos domésticos, da criatividade que vem do ócio e do tédio, das brincadeiras inventadas para animar as crianças, das maneiras de arrumar a casa, da música, de filmes e objetos. Algo que só é possível ver quando tudo está suspenso. Será uma forma de arte que vai atingir a todos através da emoção, uma parte do ser humano, tantas vezes esquecida diante das demandas do dia a dia. Será uma arte de gestos poéticos, como a performance do bombeiro tocando trompete na escada de combater incêndios, as bandas de varanda ou do padre benzendo as cidades de um helicóptero. E, talvez, muito mais que muitas obras de arte tradicionais, estas pequenas ações poéticas vão realmente nos reconectar e nos trazer a noção de que compartilhamos o mundo e formamos um grande coletivo, no qual está tudo engendrado e todas as formas de vida têm seu valor. A quarentena será um momento de olhar para dentro de si e mudar a percepção das coisas de fora. E não foi sempre isso que a arte desejou?

Marcela Vieira e Lívia Benedetti (Foto: Acervo pessoal)

Livia Benedetti e Marcela Vieira
Curadoras
Como o aarea é uma instituição que nasceu na internet e há três anos vem atuando exclusivamente online, ele não precisou adaptar suas atividades à atual situação de reclusão e distanciamento imposta pela pandemia. Tradicionalmente, a arte é experimentada por meio da presença física do espectador, mediada por um ambiente planejado para esse fim; porém, vale lembrar que, marcadamente desde os anos 1960, obras de arte já desafiam esse setting, como a arte postal, ou transmitida na televisão, publicada na imprensa, enfim, circulando por outros espaços que não dependem do convívio presencial proporcionado pelos espaços institucionais. A internet é um desses meios. No aarea, convidamos artistas a fazerem, na maioria das vezes pela primeira vez, um trabalho para a web. A curadoria do aarea se interessa justamente por esse exercício de deslocamento de linguagem: quais as implicações de deslocar uma produção que geralmente se dá no espaço físico para o virtual? O que a internet pode oferecer para os artistas, no sentido de ferramentas, circulação, recepção e interação do público, entre outras características que lhe são próprias? Não advogamos pelo online como substituto para a presencialidade e materialidade da arte, mas tomamos a internet como um dos espaços possíveis para a experimentação artística.

Iole de Freitas (Foto: Sérgio Araújo)

Iole de Freitas
artista
Olhando em torno, percebo meus amigos, artistas e curadores, imersos na elaboração dos processos de construção de suas linguagens. Seja na escrita, seja na busca de dar materialidade à sua poética visual, encontro o mesmo empenho: o mergulho na invenção. O quanto de absorção, desta circunstância civilizatória grave que atravessamos, ocorrerá no corpo de cada linguagem se saberá mais à frente. Sem futuro, agitados e sacudidos no presente, me pergunto se existe alguma permanência daquilo que, pela linguagem, buscamos roçar…

 

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