O que é a arte numa época sem convívio presencial?

Confira a resposta do Grupo EmpreZa à pergunta do Fogo Cruzado da edição #47

Da redação

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: A Revista, Destaque, Fogo Cruzado

Vesúvio 3 Como Chama (2015), do Grupo EmpreZa (Foto: Victor Nomoto)

Em resposta ao convite da seLecT para participar da seção Fogo Cruzado da edição #47, dedicada ao tema Cidade, os integrantes do coletivo de performance Grupo EmpreZa decidiram responder à pergunta “O que é a arte numa época sem convívio presencial” por meio de uma ação. O grupo, que costuma realizar serões performáticos – eventos nos quais várias performances acontecem simultaneamente –, retomou as experiências metafísicas que explora desde 2003 com o conceito de teleperformance. Na ação, realizada em 5/4, o público foi convidado a se concentrar em um lugar silencioso, buscando encontrar o local do evento telepaticamente. Como resultado, o coletivo pediu que todos os participantes (entre performers e público) compartilhassem a sua experiência por meio de uma narrativa. O resultado, que gerou um texto coletivo, editado pelo EmpreZa, além de vídeos e desenhos, pode ser visto a seguir. Os nomes foram ocultados para não direcionar a leitura.

Grupo EmpreZa
Relato Serão Tele-performático, 5/4/2020
Quinze minutos antes aquietei o espírito, acendi um incenso e me acomodei em uma poltrona onde bordo, de meu ateliê que fica no jardim de minha casa. Meus cães ++++ e ++++ se sentaram por perto. Às 18h57, me deitei de olhos fechados e saí vagando na escuridão em busca de me juntar ao pessoal do serão. Ao imergir neste processo, tanto como aquele que assiste ou mesmo participante, ninguém saberá o que virá, além do olhar direcionado, através de suas máscaras que impedem uma respiração tranquila, que impede o tom da voz ora “falada”, “gritada” ou mesmo “sussurrada”. Consiste do isolamento e da neutralidade das cores, me senti assistindo um novo modo de relação humana da atual realidade em que vivemos, antes calorosa, agora fria e tenebrosa. Pontualmente, às 19h do dia 5/4/2020, domingo, cheguei ao Serão Tele-performático. Estava sobrevoando o céu da noite no centro de São Paulo quando avistei um campo de fumaça de pólvora e explosões de bombas de São João. Era tipo um largo, havia umas tendas montadas, algumas pessoas sentadas trabalhando em computadores ao lado de postes que davam suporte a roldanas que giravam cordas indo e voltando do topo de prédios bancários trazendo documentos que davam posse a frações dos lucros dessas instituições de forma anônima. Quando eu terminei de entender onde estava e o que acontecia, vi que trazia sinalizadores de fumaça nas mãos, aos poucos fui reconhecendo alguns integrantes do EmpreZa e outras pessoas conhecidas também com sinalizadores e bombas tipo traque, fazendo sentido real ou não, me parece que a estratégia era de que com o som e fumaça tentávamos garantir a segurança para as pessoas virem, escondidas pela fumaça, pegando os papéis que radiavam em varais horizontais a partir dos postes, cheguei a ver de relance uns flyers que traziam algumas instruções breves, por exemplo, para facilitar a dinâmica das pessoas de pegarem os documentos sem se aproximar demais e como proceder de forma anônima para continuar a distribuição da grana após aquele dia. Alguém toca o berrante, começa a defumação. Os performers caminham pelo espaço, primeiro pelo lado de fora, jogando sal grosso e defumando com o turíbulo, se concentram na entrada do grande galpão. Um berrante tocado por três minutos seguidos. Acho que foi antes, muito antes da peste… Antes desse escroto assumir o poder, antes da mudança para +++++, antes da tristeza pelxs amigxs longe, antes da ++++ e eu termos sido infectados pelo vírus, antes de eu achar que ia perdê-la, antes dela se recuperar, antes de eu voltar a acreditar que dá para continuar lutando e vivendo ao lado dela… Com certeza foi antes… mas depois de alguns instantes do berrante ecoando voltei a ter visão aérea do largo. A respiração calma e tranquila. Esteja presente. Concentre-se no ar que entra e no ar que sai, e perceba como precisamos nos esvaziar pra depois nos preenchermos. Perceba como somos fluidos, como somos cíclicos. É o movimento que se repete a vida inteira: inspirar e expirar, in, ex, in, ex. A gente se enche e se esvazia. Quando a porta se abre, pelo lado de dentro, tudo está escuro, aos poucos uma luz acende e a cor verde se configura por todo o espaço. Vários tubos sem começo e sem fim no teto e no chão, um líquido preto percorre os tubos transparentes. Vemos o clássico couro de vaca muito utilizado nas performances anteriores do grupo. O couro, agora usado como tapete no chão da entrada, está completamente encharcado (dá pra sentir um cheiro forte de água sanitária). Os performers com pandeiro, turíbulo e sal grosso se concentram ao redor do couro formando um pequeno corredor. Muitas caras estranhas, às vezes deformadas apareciam no espaço, num ambiente meia luz de uma vela que permanece acesa mesmo quando soprada.  Começou com a ++++ e +++++ fazendo o “Beijo”, uma criança logo após sendo atingida na cabeça por quatro balas de mamona, +++++ e +++++ estavam atirando com um revólver adaptado para atirar balas de mamonas em voluntários em troca de algo de valor, mais não sei o que é, o +++++ estava entregando essas recompensas. Enquanto isso, via alguém correndo na horizontal pela parede esquerda, indo e voltando sem parar, acho que era eu. O ++++ aparece com a ++++, um a um entra lentamente passando pelo tapete embebido com o líquido desinfetante, passando e limpando seus pés, com seus sapatos. Hora ou outra, +++++, que toca o pandeiro, aproxima-o dos pés da pessoa que está sobre o tapete (como ele costuma fazer nas defumações anteriores, passando pelos locais em que estão ocorrendo ou ocorrerão as performances, como se quisesse transmitir ali alguma energia). Muitas ações ocorriam simultaneamente neste não-lugar. Escolhi permanecer os 60 minutos em uma delas especificamente. Um tutorial de como continuar a caminhar. Inúmeras possibilidades apresentadas. A última delas era uma ação conjunta, impossível de ser realizada só. Três EmpreZários (++++, +++++ e ++++) entram no salão, com escalpes em suas veias. Conforme andam, gotejam lentamente sangue pelo chão, sujando tanto o tapete quanto a extensão do salão. Outros EmpreZários (++++, ++++ e ++++) vão lavando o caminho de sangue, como lavaram na praça Mauá. Em seguida, ++++++ pega o couro da porta do salão, arrasta-o para o centro, usando uma pequena escova e sabão líquido, ajoelha-se e esfrega toda a extensão do couro, lavando o sangue e todo o resquício de sujeira deixados pelo público. Logo depois, estende o couro em um grande varal. Após esse ato, entram no salão duas duplas de EmpreZários em confronto, realizando o trabalho “O Beijo”, com gritos, sem máscaras e nus. Quando os gritos cessam, os EmpreZários saem. Artistas que antes se conectavam com sangue humano, com calor e poeira, agora, mesmo inseridos no mesmo ambiente, estão distantes e impossibilitados de se tocarem, não sentem o calor do outro, não percebem os estímulos sensoriais, e mais do que nunca não sabem suas reações diante de suas escolhas. Essa experiência me fez pensar os próximos passos da pandemia da Covid-19 em todo o mundo. E agora, mais do que nunca seremos irmãos, para enfrentar essa guerra biológica. Mas não poderemos nos sentir e, mesmo interagindo no mesmo lugar, estaremos distantes, em paredes brancas, móveis brancos, telas brancas, signos brancos, vestuário e EPIs brancos, para evitar os riscos biológicos e quimicamente isolados, limitados e protegidos de nós mesmos, que tanto amamos, mas desconfiados, pois teremos que estar atentos para nos prevenir. Qual de nossos irmãos e amigos nos trará o sofrimento e a morte? É necessário emergir do mundo de fantasia e da expressão forçada de “vamos sempre ter prazer”. Porque tudo isso morre. Porque inspirar sempre provoca uma descida até a natureza da morte. A morte é a mulher que cuida de nós quando choramos sozinhos, é da morte que vem a vida. É do inspirar que expiramos. E nada, absolutamente nada nesse mundo é permanente. Minha estrutura dói, mas vai passar. Agora sinto-me confortável, mas isso também vai passar. Agora esqueço o tempo. Procurei o eixo, respirei profundamente e começaram a vir palavras: São sete. De segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. O sete pra criação. O sete da espiritualidade, da meditação, da introspecção e do ocultismo. O sete da reflexão e da sabedoria, do mistério da vida, do conhecimento científico e da inteligência. O sete que suportamos na vida. A célula do tempo que nos divide em semanas, pra depois meses, pra depois anos, pra depois… a vida passa tão rápido. São sete chakras. sete pontos que sustentam a nossa estrutura. A óssea, espiritual, o fluxo de energia. O sete que sustenta nosso corpo. O sete que nos suporta na vida. A partir destas comecei a desenhar em um caderno em meu colo, abrindo os olhos apenas um cisco. Em um desenho quase cego… pensei em vocês e nas ações que testemunhei na vida antes disto, acho que era um domingo, tinha cara de domingo. Com certeza  +++++, +++++ e +++++ estavam por lá, não fisicamente – mas isso não importa. Era o último dia de uma exposição, ao menos parecia. No último galpão, longe de tudo, um bingo… Diziam se tratar de uma ação performática, mas era um bingo… Alguns idosos entravam no galpão, compravam uma cartela e se divertiam. Bingos não eram ilegais? Eu achava que sim, naquela época ao menos… Havia cachaça, todos bebiam… Ou podiam beber, bastava comprar uma dose… Eu não. Comprei algumas cartelas, para que ++++ e eu pudéssemos jogar e, quem sabe, ganhar algum daqueles prêmios, obras de artistas consagrados, escolhidos por ++++++. Eu só queria um prêmio, o macacão suado usado pela ++++++ ao longo de sua instalação. Faltava um número, um único… Faltava pouco, quando uma senhora gritou bingo. Perdi. Fiquei bem chateado, ao mesmo tempo encantado. Estar ali, ouvindo os números sendo sorteados ao som da conhecida música do Porta da Esperança foi incrível. Eles continuavam sendo maravilhosos, o @grupo.empreza. Eles, que sangravam, gritavam até não mais poder, se batiam, levavam ao limite o corpo… Eles que sempre me faziam lembrar de Espinosa – “não sabemos o que pode um corpo” –, mas sempre discutindo Brasil… Incríveis. Eles estavam lá, naquele dia, fazendo uma performance, mas que era um bingo… E eu não ganhei o macacão da ++++++, que fazia barulho ao fundo… Mas isso acho que foi antes, muito antes da peste. Isolar-se é o outro lado da balança de um aproximar-se. Dos outros é o outro lado da balança de mim mesma. Diz um velho palhaço que quando duas pessoas se encontram e se olham nos olhos, há um encontro de’eus. Assim faz-se deus. Viver e experimentar-se só é possível cara a cara, ossos a ossos. Escutei uns barulhos estranhos. Sabe o que eram os barulhos? Os paradigmas velhos caindo. Por que caem os paradigmas velhos? Pra gente levantar os novos.

O amor há de renascer das cinzas. 
Vamos festejar o cinza com amor.  
Que a gente possa se firmar no afeto.
Que a gente tenha amor e alegria.
E se a gente não tiver, a gente inventa. 
Arte em tempos de isolamento? 
Só vivendo pra saber. Presente. 
Qualquer coisa, a gente inventa.

Alguém passa correndo falando que esqueceu alguma coisa (acho que foi o +++++).  No centro do salão, há um grande aquário, de 200cmx200cm, nele há submersos em água limpa e transparente dois EmpreZários, ++++ e +++++, que dividem um pequeno tanque de oxigênio. Eles oscilam o tanque entre si para que possam respirar. Cada um espera a sua vez, ou simplesmente quando não aguentam mais, pegam do outro o tanque de oxigênio. Um exercício como o realizado em “Sehão”, ou “Maleducação”. Por convite de +++++, eu pude fazer a minha própria imersão como espectador, na qual os participantes estariam todos vestidos de macacões químicos e equipamentos de proteção individual para realização de todos os atos, seja para comunicar, seja para se alimentar, seja para consumir ou transitar. +++++ movimenta o turíbulo, o qual às vezes também é colocado no chão, próximo aos pés da pessoa que no couro esfrega seus pés. Fumaça é soprada sobre os pés e também o couro. Quando cada um do público passa por esse ritual de limpeza, pega uma máscara, passa pela mesa com Álcool (70% e cachaça) e pode circular pelo salão. O público está todo de máscara. Riscos com pemba são feitos pela ++++ ao longo do salão, obedecendo uma distância de dois metros entre cada um, espaço esse que o público deve manter-se afastados uns dos outros ao longo do “Serão”. Faço cara de brava e me preparo para fazer a performance. Entro num tubo grande (parece um aquário), dentro dele tem uma água preta e translúcida, respiro fundo e começo a pegar fogo dentro da água, uma chama alaranjada muito forte, como num passe de mágica. Um tempo se passa, mas nada acontece… Aos poucos vejo todos se lavando com a água preta, ela escorre das paredes… ++++ vem coberto de uma carapaça estranha não dá pra reconhecer do que é feito, mas quando ele anda derrete e deixa marcas no chão. Vejo algumas de nossas vacas amigas fumando no canto da sala… Fico feliz que tenham vindo nos ver! ++++ está preparando para performar. ++++ e +++++ batem uma corda preta pegando fogo, +++++ entra, como se fosse uma profissional, pula corda numa velocidade absurda. ++++ e ++++ começam outra performance, num poço de água, tocam o dedo indicador na água preta, aos poucos a água preta dos tubos sem começo e sem fim espalhados pela sala começam a borbulhar muito alto fazendo um barulho característico de música. A ++++++ trançando algo em círculos numa coluna central dando várias voltas e o +++++ empurrando um carrinho onde levava um saco muito volumoso, ele retirava punhados de moedas de 25 centavos e jogava por detrás do ombro. Fez isso até o saco ficar com um peso em que conseguisse segurar sobre a barriga e fazer o haraquiri no saco, espalhando um total de quatro mil moedas no chão. Logo depois disso acontece um Blackout que provoca um furdunço onde ninguém via nada. O mesmo movimento que nos tranquiliza e ao mesmo tempo sufoca. Estou presente, mas amanhã eu preciso acordar cedo, pois preciso fazer aquela ati… Presente. Será que estão fazendo alguma interferência nas redes porque eu… Presente. A última vez que meditei passei dez dias em silêncio naquele lugar e lá eu… Presente. Não sei se vou conseguir ficar esse tempo todo, e i kl … Presente.  Nossa mente é mais inquieta que nosso frágil corpo. Tenho sede, tenho fome, tenho desespero, tenho ego, me afobo, me apavoro, me inquieto, tem medo, não sei, finjo que sabe, tem ego, tem fome, tem raiva, tem dor, quer se prevenir, sobreviver, se resguardar, o ego não quer morrer, não quer solidão, tem desespero, não consigo ficar presente. Não quero ficar presente. Será que já está acabando? Desperta telefone. Minha coluna está doendo. É como se minha estrutura de sustentação não fosse mais me aguentar. Minha coluna vertebral, minha estrutura, dói a ponto de não me aguentar, os ombros pesam. Acordo com o barulho na rua, 19h55, abri os olhos e me surpreendi com a hora. Parecia mesmo que não havia se passado nem dez minutos. Este tempo não linear foi muito forte. Entrei no Instagram de vocês e vi a chama. Creio que os desenhos atestam. Curiosa para ver o todo. Os EmpreZários saem e o “Serão” chega ao fim.

  • Desenho de Clarisse Tarran para o Serão Teleperformático do Grupo Empreza (Foto: Divulgação)
  • Desenho de Clarisse Tarran para o Serão Teleperformático do Grupo Empreza (Foto: Divulgação)
  • Desenho de Clarisse Tarran para o Serão Teleperformático do Grupo Empreza (Foto: Divulgação)
  • Desenho de Clarisse Tarran para o Serão Teleperformático do Grupo Empreza (Foto: Divulgação)
  • Desenho de Clarisse Tarran para o Serão Teleperformático do Grupo Empreza (Foto: Divulgação)
  • Desenho de Clarisse Tarran para o Serão Teleperformático do Grupo Empreza (Foto: Divulgação)
  • Desenho de Clarisse Tarran para o Serão Teleperformático do Grupo Empreza (Foto: Divulgação)

Participantes: Aishá Kanda, Alysson Drakkar, Babidu, Clarisse Tarran, Christian Vinci, Helô Sanvoy, Marcela Campos, Radarani, Rava Monique e Roberta Naufal.

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