O que falta para o Rio ser uma real democracia racial?

Nega Gizza, Virginia de Medeiros, Bernardo Mosqueira e Thamyra Thâmara respondem à pergunta feita pela #select29

Nega Gizza (Fotos: Divulgação/ Camila Fontana - Flickr)

Do morro para o asfalto e da zona sul para a Baixada Fluminense há distâncias que parecem intransponíveis. A população das favelas e do aglomerado urbano da Avenida Brasil, de maioria negra, sente na pele o preconceito herdado do Brasil Colônia, quando seus antepassados foram escravizados. Espacialmente segregado e limitado a funções profissionais subalternas, o povo negro do Rio vive o avesso do cartão postal e da pretensa democracia entre etnias, tão alardeada como chamariz turístico. Por essa razão, seLecT faz a pergunta que não quer calar:

O QUE FALTA PARA O RIO SER UMA REAL DEMOCRACIA RACIAL?

Nega Gizza
Rapper, apresentadora da TV Brasil e fundadora da Central Única das Favelas (CUFA)
No Rio de Janeiro, a miscigenação é muito forte e as pessoas não têm claro a qual grupo pertencem. Não conseguem se identificar “sou negro” ou “sou branco”, porque nas escolas, nas instituições e entre os políticos não há discussão sobre essa questão. O racismo é crime no Brasil, mas a pena ainda é muito leve. Com o pagamento de uma cesta básica, a pessoa sai livre. Para chegarmos a essa democracia racial no Rio é preciso falar mais sobre o assunto com brancos e pretos, falar sobre a questão dos escravos e de como se deu a mistura de raças. O IBGE precisa fazer uma pesquisa mais condizente com a realidade, com mais delicadeza de abordagem para as pessoas se sentirem mais à vontade para se identificar como negro. Minha filha é miscigenada, mistura de italiano com preto, então tem o cabelo mais liso, a pele mais clara, como meu filho. Meu filho, que tem 8 anos, identifica-se como negro, mesmo quando comentam sobre sua cor mais clara e cabelo “macio”. Você precisa saber de onde veio para ter clareza de como se identificar. Precisamos discutir mais o assunto, saber que vamos continuar pegando o mesmo ônibus, frequentando os mesmos lugares, que vamos para a zona sul, para a praia, e é preciso saber conviver. Essa é a cara do Rio de Janeiro, é uma cidade da mistura.

Virginia de Medeiros
Artista
Como falar de uma “real democracia racial” hoje sem mergulhar nesse caldo complexo e composto, do qual emerge uma dimensão psicopolítica, micropolítica, biopolítica, afetiva, estética, psíquica, que, através de certos desarranjos e colapsos, denuncia os modos de produção de sentidos e de valores que caducaram? O termo “real democracia racial” está completamente esvaziado de sentido, esgotou-se. O que me interessa é aquilo que se insinua para além ou aquém de uma “real democracia racial”.

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Virginia de Medeiros

Bernardo Mosqueira
Curador
A desmilitarização e a profunda remodelação da Polícia Militar do Rio de Janeiro e o cumprimento de um plano de educação que valorize a cultura e a história do povo negro no Brasil são ações fundamentais para tornar possível a construção de uma democracia racial nessa cidade. É preciso aumentar a autoestima, a segurança, as oportunidades e a esperança da juventude negra carioca. O negro é tratado pelo Estado como potencial inimigo interno e não como legítimo sujeito de direito. Enquanto as famílias brancas têm renda média aproximadamente 70% maior do que as famílias negras, os jovens negros são mortos 70% mais do que os brancos. Nossa história resultou em uma estrutura social que nega aos negros a educação de qualidade e o acesso aos melhores postos de trabalho e aos locais dignos de habitação. É preciso que outros agentes do Estado diferentes de uma Polícia Militar treinada para matar possam estar presentes nas comunidades. É dever do Estado aumentar a oferta e a qualidade dos serviços básicos de forma a transformar todas as áreas da cidade em territórios férteis para o crescimentos das crianças e dos jovens negros. É preciso que haja a implementação de uma educação libertadora capaz de inspirar o orgulho negro e de desnaturalizar o racismo institucional além de estender para esses jovens de forma justa as oportunidades de trabalho.

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Bernardo Msoqueira

Thamyra Thâmara
Jornalista e idealizadora do Projeto Gatomídia
Nascer de novo (risos). A base da construção do Brasil é racista. O Rio de Janeiro, hoje, é uma cidade só para turistas, e não para os cariocas. Circular pela cidade para ter lazer e cultura é caro, o que contribui para a segregação da juventude negra na periferia, sem poder experimentar a cidade e sua vida. Na favela, o “pau come” e na pista o jovem preto continua sendo esculachado. Recentemente, foi divulgado que a Anatel autorizou as Forças Armadas a usarem Bloqueadores de Sinais de Radiocomunicação (BSRs) durante a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Essa medida, se realmente for levada adiante, só vai piorar a violação de direitos que acontece cotidianamente na cidade, porque a gente sabe que, hoje, as mídias sociais fazem esse papel de fiscalizar a ação policial nas ruas e em protestos. Além de ser crime contra o direito à informação e à comunicação. Fazer essa ideia maluca ser barrada já é um pequeno passo para a “democracia racial”.

Thamyra Thâmara

Thamyra Thâmara

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