O que fazer com a herança moderna?

Ainda que tenham recortes bem diferentes, as mostras em cartaz na Fiesp e no CCBB-SP ausentam-se das discussões difíceis sobre o legado da produção modernista

Cris Ambrósio

N° Edição: 53

Publicado em: 23/05/2022

Categoria: A Revista, Crítica

Sem Título (2018), de Maxwell Alexandre, na mostra Brasilidade-Pós Modernismo, no CCBB

As exposições Era Uma Vez o Moderno (1910- 1944), na Fiesp, e Brasilidade – Pós-Modernismo, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), poderiam mobilizar textos dedicados a destrinchar suas faltas e acertos separadamente. No entanto, nas comemorações do centenário da Semana de 22, sua leitura comparada pode dizer algo do olhar atual sobre os legados modernistas.

Organizada por Fabricio Reiner e Luiz Armando Bagolin, a mostra na Fiesp é fruto de uma parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), órgão que faz a salvaguarda de todo o arquivo de Mário de Andrade e de extenso acervo bibliográfico.

Era Uma Vez o Moderno é pesadamente baseada em causos e artifícios expográficos. Por exemplo, dá-se voz a personagens como se estes fizessem parte de um conto ficcional, em projeções de atores com caracterização teatralizada dizendo frases em loop, numa aparente tentativa de uso de firulas tecnológicas, mas sem muito pretexto.

Sem Título (1982), de Mário Röhnelt

Algo semelhante acontece próximo a uma das citações de parede, que narra as impressões de Anita Malfatti sobre a atratividade física de Marcel Duchamp, assunto talvez abordado pela primeira vez na história. Em uma cavidade retangular na parede iluminada por uma luz branca há uma espécie de holograma sincopado, do mesmo estilo que é usado em alguns relógios digitais, com uma reprodução da pintura Nu Descendo uma Escada, no 2 (1912), do artista francês. Mas, em vez de projeção estática, o clássico duchampiano foi montado no formato imagem em movimento, alterando sua posição e perspectiva originais.

A opção por essa montagem cenográfica e a escolha de não deixar claro na exposição o porquê de ela ter sido feita são recorrentes em vários níveis. A exposição carece de um tratamento da apresentação do tema e dos materiais, muitos deles documentos e publicações com grande abrangência temporal e geográfica. Mas é preciso pontuar que vários dos objetos têm muita força per se. A edição de Macunaíma – O Herói sem Nenhum Caráter, com as páginas desenhadas a guache pelo poeta Pedro Nava, presenteada a Mário de Andrade, é um deles. Acompanhados de ostensiva informação visual e textual, manuscrita e impressa nas paredes, mas sem contextualização histórica, os trabalhos carecem de um respaldo institucional situando o público a respeito das razões pelas quais devem ser reverenciados, seja por seu valor estético, contexto ou unicidade. O gesto corriqueiro de ler a ficha de parede antes de olhar para o trabalho acaba sendo inócuo então, uma vez que grandes elucidações não vêm de lá. De uma forma meio às avessas, acaba surgindo nisso a liberdade do observador de especular por conta própria o valor daquilo que está diante de seus olhos, e existe algum mérito nesse vácuo.

Este é um ponto de contato entre as exposições Era Uma Vez o Moderno e Brasilidade – Pós-Modernismo, itinerante nas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Ainda que tenham recortes bem diferentes, ambas se ausentam das discussões difíceis sobre o legado e as análises sobre a produção modernista sob as lentes das questões e reivindicações contemporâneas.

SEM DISCUSSÕES
A mostra organizada pela pesquisadora Tereza de Arruda debruça-se sobre a produção brasileira recente, com trabalhos de Maxwell Alexandre, Beatriz Milhazes, Alex Flemming, Berna Reale, Tunga e Nelson Leirner. Os nomes da Semana de 22 aparecem nos textos de parede, e a frase “Nossa estética é de reação. Como tal, é guerreira”, do poeta Menotti del Picchia, é estampada mais de uma vez nos espaços da mostra. A reincidência da frase é uma confirmação insistente da imagem de rebeldia e iconoclastia atribuída aos modernos, que valeria a pena ser repensada em mostra sobre o centenário da Semana.

Um exemplo da atitude crítica a que se refere aqui seria Franklin de Oliveira, autor de A Semana da Arte Moderna na Contramão da História(Topbooks, 1993), que escreveu sobre os contornos dados à Semana em 1972: “O mais perverso dos ditadores militares do ciclo de 64, o general Médici, consagrou a Semana de Arte Moderna como o evento central da cultura brasileira contemporânea. (…) Quando a Semana completou 50 anos, (ele) a incorporou ao calendário do putsch que instaurou no país o poder militar”.

Isso não serve para dizer aqui que o modernismo seja reacionário, e sim para mostrar a sua apropriação por poderes hegemônicos, políticos e financeiros ao longo das décadas: na época, por convergência de círculos sociais e, depois, por a estética modernista, em si ter se tornado hegemônica, como uma espécie de ancestral da cultura popular. Sendo assim, causa estranhamento a confirmação categórica feita na mostra Brasilidade – Pós-Modernismo, de que “movimentos como o antropofágico foram incisivos para o entendimento da essência brasileira”, especialmente enquanto outras produções intelectuais atuais questionam essa suposta essência brasileira, em detrimento das narrativas suprimidas na historiografia do país. Esses direcionamentos conceituais destoam do esforço da própria curadoria de colocar em evidência uma diversidade de vozes, regiões, gêneros e repertórios.

Possivelmente, uma das heranças duradouras do centenário da Semana de 22 e do bicentenário da Independência será o contínuo questionamento sobre a ideia de brasilidade, a quem ela diz respeito e por quem lutava esse modernismo guerreiro.

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