O que mudou desde 1968?

Enquanto muitos apontam semelhanças entre 1968 e 2018, exposição Que Barra reflete sobre avanços alcançados nos últimos 50 anos

Luana Fortes
Lo Personal Es Político, de Sol Casal (Fotos: Alessandra Carrijo)

O Atliê397 responde ao contexto político atual com a exposição Que Barra, curada por Carollina Lauriano, Flora Leite e Thais Rivitti. A coletiva parte dos 50 anos que separam 2018 do emblemático 1968. Há meio século, 20 mil estudantes franceses iniciavam uma onda de protestos que ultrapassaria as fronteiras da França. Discutindo desde educação até a Guerra do Vietnã, a luta foi logo aderida por sindicatos de trabalhadores e intelectuais. Suas reverberações incluiram o Brasil, que vivia sob ditadura militar e no mesmo ano enfrentou o Ato Institucional nº5, que marcou o início dos anos de chumbo do regime. Desde então, o que mudou?

Muito tem sido dito sobre semelhanças entre 2018 e 1968. Enxerga-se hoje uma fragilidade do sistema democrático brasileiro. Em meio a isso, a exposição Que Barra apresenta espaço para reflexão sobre não só os paralelos entre os dois momentos, como também sobre os avanços alcançados no intervalo entre eles. “A ideia era menos ser uma retomada histórica de 68 e mais falar sobre esses 50 anos que nos separam de 68”, conta Thais Rivitti à seLecT. “Não é ainda o mundo ideal, mas em 50 anos a gente percebe que o mundo caminhou”, completa Carollina Lauriano, que identifica avanços em assuntos como gênero e o feminismo.

  • Vista da exposição Que Barra
  • Beyoncé and Jay (2018), de Pedro Saci, e depósito de móveis que divide espaço com o Ateliê397
  • Repertório de Máquinas e Homens (2018), de Marcelo Amorim. Ao fundo, Beyoncé and Jay (2018), de Pedro Saci
  • Entrada do Ateliê397 com cartaz da exposição, que tem obra de Lia Chaia

Realizada a partir de campanha de financiamento coletivo, Que Barra é a quarta exposição montada pelo Ateliê397 desde que o espaço se mudou para um galpão na Vila Pompéia. Para Thais Rivitti, também diretora do ateliê, essa é a mais ambiciosa das quatro. “A mostra teve seis meses de pesquisa, traz 24 artistas e a gente conseguiu modificar o espaço e negociar com o vizinho”. O ateliê divide o galpão com o depósito de uma loja de móveis. O tapume que antes dividia a área foi substituído por um painel com fragmentos transparentes que evidencia a falta de política cultural destinada a espaços independentes como o 397. Não só os trabalhos expostos na mostra trazem questionamentos sobre a atualidade, como também o espaço em que ela ocorre e sua expografia.

Algumas obras espalham-se pelo galpão de forma não convencional. Para ver Abrigo, de Edu Marin, é necessário subir uma escada e passar por um trajeto quase labiríntico. O trabalho ocupa um pequeno espaço num mezanino e simula um espaço para se abrigar e possivelmente trabalhar. O abrigo tem rede, livros, tapete, banquinhos, lâmpada e uma máquina de escrever. Dá vista para o espaço todo, inclusive para o depósito de móveis e para as quatro bandeiras que compõem Beyoncé and Jay (2018), de Pedro Saci, penduradas na parede dos fundos do galpão – na área que cabe ao depósito. Para Rivitti, o trabalho de Marin suscita perguntas como: “Qual é o espaço da reflexão artística de um mundo que te convoca a se manifestar politicamente sempre?” e “É possível você se resguardar no seu ateliê?”.

  • Abrigo (2018), de Edu Marin
  • Trabalho de Débora Bolsoni
  • Trouxa (2018), de Thiago Araújo

As curadoras tinham vontade de mostrar dois tipos de trabalho. O primeiro deles diz respeito mais diretamente a assuntos de 68 que apresentam relações com os dias de hoje. O segundo, por sua vez, fala sobre tempo e esforços que se repetem sem propósito.

A obra de Thiago Araújo, intitulada Trouxa (2018), é exemplar do tipo um. Na ponta de um cabo de vassoura, o artista pendura uma trouxa de roupa feita ironicamente com uma camiseta da seleção brasileira de futebol. É também o caso do trabalho de Gustavo Torrezan que atormenta o público com gravações de assobios espalhados pelo espaço expositivo. O artista convidou pessoas a assobiar o hino da Internacional Comunista, organização fundada por Lenin em 1919.

O segundo tipo de trabalho é bem representado por Peixe (2017), de Frederico Filippi. Pendurada por um cabo, uma ferramenta elétrica com calda de borracha move-se repetidamente. O objeto é barulhento, incomoda e parece agonizar como um peixe preso em um anzol. O artista reflete a respeito do tempo diante de ações que não terminam e não tem finalidade. Faz-se pensar sobre a relação das pessoas com o tempo histórico atualmente em relação ao passado. “Se hoje a gente se sente impotente diante de tudo que está acontecendo, em 1968 as pessoas achavam que podiam mudar a história”, afirma à seLecT Thais Rivitti.

Serviço
Que barra
Ateliê397
Rua Professor Gonzaga Duque, 148 – São Paulo
Até 30/6/2018
atelie397.com

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