O que você vê não é o que você vê

Patriarcado e feminismo são confrontados sob o véu de desejo, luxúria e devoração das pinturas de Patrizia D’Angello

Paula Alzugaray

N° Edição: 46

Publicado em: 15/03/2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Relato Selvagem (2019) de Patrizia D'Angello (Foto: Divulgação)

O sarau organizado pela caricaturista Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, em 1914, ao som da música de Chiquinha Gonzaga, foi um dos grandes eventos gastronômicos e performáticos que ganharam cena no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, quando este era sede do governo federal, entre 1896 e 1960. Cardápios e convites para jantares, banquetes e convescotes guardados no arquivo do hoje Museu da República foram fonte de pesquisa para Patrizia D’Angello realizar a maior parte das 25 pinturas da exposição Jardim do Éden, em cartaz na Galeria do Lago, com curadoria de Isabel Portella.

É possível escutar, nas paredes da exposição, uma reminiscência do irreverente sarau de Nair de Teffé, que também foi conhecida por Rian. Conta a história do Museu da República que aquela foi a primeira vez que a música popular foi interpretada nos salões de um solar aristocrático. Interagem no conjunto de obras de D’Angello elementos desses dois universos, um dia antagônicos: a cultura popular e a cultura aristocrática. De um lado, em obras como Privilégio, Herança, Chá Colonial, Brioches e Canavial, todas de 2019, há bolos confeitados, louças, prataria, cristais e vasos do acervo do museu-palácio, representados em detalhe, como se observados por uma lente macro, em ângulos que evocam a nobreza, a luxúria e um certo apetite sexual oitocentista.

Em outro grupo de pinturas, abundam peças de aço inox, Tupperwares, garfos e garrafas plásticas e comida em putrefação (Agro É Pop, 2019), projetando a narrativa para o século 21, para a esfera da comida processada e do uso público dos jardins do museu, indicando com isso uma vontade de “descolonização” das versões da história ali guardadas. Entre bucólicas e perversas, as cenas de piqueniques na relva e de mulheres “selvagens” devorando frutas e embutidos fazem a ponte entre esses dois lugares da história.

Pelas relações criadas, os sentidos figurados e os discursos desvelados, a pintura de Patrizia D’Angello é o revés do
formalismo autorreferente minimalista. O que ela diz não é o que se vê. Suas pinceladas de óleo sobre linho e de aquarela sobre papel funcionam como uma delicada camada de verniz prestes a se romper, desconstruindo padrões de gênero e revelando conflitos.

Serviço
Jardim do Éden
Individual de Patrizia D’Angello, até 15/3, Galeria do Lago, Museu da República, Rua do Catete, 153,
museudarepublica.museus.gov.br

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