O regresso de não mais voltar

Obras de naturezas aparentemente opostas, reunidas na exposição individual de Marcone Moreira na Blau Projects, estabelecem uma rota de antagonismos na trajetória do artista

Ana Maria Maia

N° Edição: 16

Publicado em: 19/02/2014

Categoria: A Revista, Crítica

Luis Camntizer no 3º Seminário seLecT

Um conjunto de desenhos feitos em nanquim ensina sobre as etapas de um projeto de marcenaria, do encaixe à fixação de sarrafos de madeira aparentemente novos. Apresentados como uma espécie de manual ou, no mínimo, como instrumentos para se organizarem ideias e planejar sua execução conforme preceitos básicos de um ofício, os desenhos da série Construção (2010-2013) levam a noção de projeto para Peso à Terra, mostra individual de Marcone Moreira na Blau Projects, em São Paulo. Essa, no entanto, não é uma noção central nem recorrente no trabalho do artista, ao menos da maneira como é formulada nas disciplinas exatas ou nas artes aplicadas como a arquitetura e o design.

Marcone Moreira costuma apropriar-se de materiais coletados por onde passa e compor esculturas, objetos e instalações a partir da justaposição dos mesmos. Às vezes, alguns pregos, roscas ou cordas aparentes são usados para manter as partes juntas, outras vezes, como no caso de Expansão (2013), nem isso. A escultura foi feita a partir das hastes de madeira de uma embarcação e o arranjo de suas peças no chão pode variar de alguns centímetros, quando ela estiver toda fechada, até cerca de 10 metros, quando espaçada. Suas dimensões cambiantes atestam a abertura para o rearranjo e o improviso. Seu azul descascado destoa do branco da galeria, cor neutra para o novo, vitrine de lançamentos no sistema institucional e comercial da arte.

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Obra Sem Título (2012), de Marcone Moreira (Foto: Divulgação)

Construção e Expansão são obras de naturezas aparentemente opostas, que, reunidas em um mesmo espaço, estabelecem uma rota de antagonismos na trajetória do artista. A existência de uma confronta, mas, ao mesmo tempo, comprova a outra, as diretrizes concretas dão valor ao experimento, e vice-versa. De uma alteridade irredutível (de uma obra em relação à outra, da origem dos materiais ao seu estado presente, de diferentes interlocutores e estruturas de poder e saber) nascem paradigmas a ser reverberados do campo da arte para fora dele.

O crítico e curador Frederico Morais já afirmou em um audiovisual de 1977 que “arte se coloca no mundo como se fosse a primeira vez”. Na realidade mesma, em seus caminhos descartados e possibilidades nunca levadas adiante, as práticas artísticas encontram indícios para começar. Essa característica se manifesta na obra de Marcone Moreira à medida que ele reinsere em um circuito simbólico e econômico artefatos considerados obsoletos pela indústria. Como obra, pedaços arruinados não só de barcos, mas também de caminhões, barracas e utensílios populares, ganham novas funções sociais, entre elas a de objetos de contemplação, destituídos de seu valor instrumental, ou a de vestígios da passagem de pessoas anônimas por lugares ausentes.

Sobre essas pessoas e lugares, esculturas como Sem Título ou Compasso (2012) não entregam nenhuma referência figurativa, a não ser uma memória tátil que resulta em manchas de manuseio e tempo sobre a superfície dos materiais. Tornam-se, portanto, obras abstratas do ponto de vista das composições, mas ainda dotadas de reminiscências figurativas advindas do estado da matéria de que são feitas. Como as bandeiras de Alfredo Volpi, que se bifurcam entre representar a tradição junina brasileira e aderir aos grides geométricos da vanguarda modernista pré-concretista, tais obras se mantêm em uma dupla chave de entendimento. Com isso ganham perspectiva para rememorar e metaforicamente reinventar o contexto sociocultural de onde se originam.

Equador e Tordesilhas
Marcone Moreira cresceu em Marabá e hoje vive no Rio de Janeiro. Desde o início de sua carreira, impulsionada por um prêmio ganho no Arte Pará de 2003, já morou em Belo Horizonte, para fazer a Bolsa Pampulha de 2005, e passou por alguns outros programas de residência, afinal, a mobilidade é cada vez mais comum entre artistas contemporâneos. A distância, o contexto amazônico continua aparecendo, embora se misture com referências e materiais de outras localidades.

Como lugar geopolítico, dotado de questões formadoras do repertório do artista, e não tanto como um estereótipo estético que teima em recair sobre leituras do seu trabalho, a Amazônia consta nas temáticas de Ausente Presença (2013) e Equador e Tordesilhas (2012). Cruzando ortogonalmente duas hastes de carroceria de madeira, uma amarela e outra vermelha, essa última obra demarca onde se situa a cidade de Belém. No encontro entre o horizonte de incidência solar mais extrema e o fim da zona de domínio colonial português, nesse ponto de confluência entre fatores climáticos e históricos, essa metrópole regional representa até hoje um paradigma de descentramento e autonomia cultural no Brasil. Na obra, a cidade gera as coordenadas de um diagrama no qual o eixo horizontal predomina, em vez do vertical, como na cruz e em outros símbolos do poder hierárquico. Na biografia do artista, que viveu ali ao longo de 2012, Belém é o ponto médio entre a ambiência de Marabá, sua cidade natal, e o circuito profissional da arte contemporânea brasileira.

No díptico fotográfico Ausente Presença, o norte afetivo e geopolítico de Marcone Moreira leva-o a misturar o registro de uma ação vivida na residência de Terra Una, uma ecovila no interior de Minas Gerais, com a imagem da placa do Monumento ao Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 1996 no sul do Pará. A menção a esse trauma da luta agrária no País condiciona a leitura da outra fotografia, que mostra os pés do artista moldados em barro e plantados na lama vermelha do lugar. O material, nunca antes usado pelo artista mas, segundo ele, deflagrador de sua primeira experiência estética, ainda na infância, deu o mote para o título da individual.

Peso à Terra define um gesto de padecimento, a desistência de lutar contra raízes que se impõem, um retorno involuntário às origens. Consentido, o peso apodera, a terra nutre, o retorno instaura ele mesmo novos lugares e a origem vira uma motriz de infindáveis possibilidades.

A seção Vernissage é um projeto realizado em parceria com galerias de arte, que prevê a publicação de um texto crítico sobre a obra de um artista que estará em exposição durante os meses de circulação da edição. No dia 22 de Fevereiro, às 12h, é a abertura da exposição de Marcone Moreira na Blau Projects e o lançamento da seLecT #16.    

*Publicado originalmente na #select16

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