O rock e o virtual

Publicado em: 26/08/2011

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

A internet amplia os espaços da música ao vivo para além dos palcos

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Foto: Venn Festival

Ronaldo Lemos e Vivian Caccuri

Toda a parafernália necessária para um show de rock’n’roll, quando ele ainda estava nascendo, já servia para o que hoje achamos óbvio: multiplicar o poder da performance ao vivo. Ninguém, nem o mais chocho dos ânimos, passaria impune a uma guitarra e uma voz exageradas, rasgadas e distorcidas por um amplificador. Era para isso: tecnologia para mover, excitar, desconcertar (sobre o tema, veja o incrível documentário da performance Rock My Religion (1984) de Dan Graham, disponível em bit.ly/ffduAC).

Mas o que acontece com esse ao vivo quando a performance tem de conviver com uma série de eventos simultâneos, coisas que não param de acontecer no mesmo tempo do show, mas fora do palco e da “realidade”? Em “lugares” como a sua caixa de e-mails, suas mensagens em redes sociais, sua conta no Twitter, e assim por diante. A performance no rock pode ficar ainda mais ao vivo.

Não é coincidência que o ao vivo torna-se vez mais importante no mundo conectado (inclusive para se ganhar dinheiro), na medida em que somos dominados por telas, fotos, posts e vídeos que se materializam da nuvem digital. Menos óbvio é que com esse novo status do ao vivo, a música – como é tocada, concebida, ensaiada, apresentada – também muda.

O ao vivo torna-se um ritual de muitas faces. Ele celebra a música que consumimos virtualmente e dá vazão a uma sociabilidade suprimida, de estabelecer laços, ainda que precários, com as pessoas que consumiram o mesmo que a gente. Não é por acaso que um dos sinais do rock globalista contemporâneo é justamente a assimilação crescente da percussão. Isso pode ser visto tanto no trabalho de artistas das pontas como Jon Mueller (EUA), MoHa! (Noruega) e OOIOO (Japão), quanto em artistas do centro, como o Animal Collective (EUA), com seu assumido caráter ritualístico, os ingleses do These New Puritans e o Gang Gang Dance (EUA). Isso para não falar em bandas do Brooklyn nova-iorquino, como Vampire Weekend e Dirty Projectors, que abraçam uma sofisticação rítmica e um flerte com a África na estrutura das suas composições e do seu ao vivo. Como que em busca de uma âncora para o real para músicas que circulam primordialmente pelo virtual.

O que tem a percussão de especial para ressurgir com tanta força no pop globalista em tempos de internet? A resposta tem, no mínimo, duas partes. Trazer o corpo de volta para a cena, articulando força, movimento e som. Um contraponto a um mundo que suaviza cada vez mais o gesto físico, mediado por teclados e telas de toque (touch screen), prenúncio da profecia dos designers norte-americanos Ray e Charles Eames, que diziam ainda nos anos 1950 que “a quantidade de energia utilizada neste mundo irá de alto, para médio, para um pouco mais baixo”. A percussão no rock contemporâneo é assimilada em contraste a tudo isso, alistada na ambição de preencher com realidade e energia o espaço da performance.

Nesse curioso embate entre real e virtual (como se esses conceitos ainda fizessem sentido!), sucedem-se, por falta de termo melhor, pulsões de virtualização da realidade e de realização do virtual. A desmaterialização crescente da música, que flui pela rede, é conver-tida em motivo para reunir pessoas, levando a novas e importantes oportunidades de peregrinação pela cidade em busca de shows. A música desmaterializada cria hoje, parafraseando o designer John Thackara, um lugar entre a ficção científica (o sonho, o virtual) e a ficção social (a prática cotidiana) que se inscreve e deixa sulcos no dia a dia urbano. Assim, é preciosa, porque faz as pessoas se deslocarem por outros caminhos, abandonando temporariamente suas rotas cotidianas e tarefas funcionais.

Assim como a slow-food não fechou os McDonald’s, as bicicletas não diminuíram o número de carros nas cidades, nem a globalização apagou as identidades nacionais, a percussão e o ao vivo não vão rematerializar a música. Mas servem para tornar o corpo novamente protagonista, criando um espetáculo em que a atração principal é a própria ideia de realidade, que se materializa pela duração fugaz de uma canção.

Ronaldo lemos é professor visitante na Universidade de Princeton (EUA) e Diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ; foi curador do Tim Festival. 

Vivian Caccuri é a artista plástica e mestre em musicologia pela UFRJ.

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