O som espacial de Cabo Verde

Identidade musical e cultural nasce do encontro entre a tradição rítmica local e experiências com instrumentos elétricos vindos de além-mar

Ramiro Zwetsch
O músico Américo Brito faz golpe de karatê, em foto do encarte da coletânea Space Echo (2016) (Foto: Cortesia Sammy Ben Redjeb)

Antes de Cesária houve um parto natural. Se a voz de veludo de Miss Évora chamou atenção do mundo para a música de Cabo Verde nos anos 1990, hoje os ouvintes ocidentais se fascinam com o mistério do som que aquele arquipélago de dez ilhas africanas produzia na década de 1970. E a gestação dessa arte se desenvolve a partir da fertilidade que surge do encontro entre a tradição rítmica local e as experiências com os então recém-descobertos instrumentos elétricos – guitarra, baixo e, principalmente, teclado.

No fim dos anos 1960, a eletricidade ainda era privilégio de poucas regiões no país. Eis que, em 1968, um navio fantasma teria sido encontrado em São Nicolau (uma das ilhas cabo-verdianas) com centenas de teclados eletrônicos das marcas Hammond, Fender Rhodes, Farfisa e Moog, entre outras. Amilcar Cabral, principal líder revolucionário na luta pela independência do país – conquistada em 1975 – determina então que os instrumentos sejam distribuídos nas escolas onde já havia luz elétrica. Esse contato de jovens e crianças com os timbres eletrônicos teria fomentado a transformação musical de gêneros locais – como coladera, funaná, morna e batuque – para uma fusão futurista nos anos seguintes.

A história é fascinante, mas não passa de ficção. O alemão Sammy Ben Redjeb confirma tê-la inventado para promover a coletânea Space Echo – The Mistery Behind The Cosmic Sound of Cabo Verde Finally Revelead, lançada em 2016 por seu selo Analog Africa, especializado em relançamentos de música africana desde 2007.  “Essa história não passa de fruto da minha imaginação”, admite ele, em entrevista à seLecT. A fábula está no texto de encarte do disco e soa convincente para decifrar o segredo da mistura que os músicos cabo-verdianos inventaram nos anos 1970, ao explorar os recursos dos instrumentos elétricos – tanto que chegou a ser reproduzida como fato real por veículos confiáveis, como o site do jornal inglês The Guardian.

Capas de álbuns clássicos da estética “eletrônica” de Cabo Verde (Fotos: Reprodução)

 

O mesmo mar que inspirou a ficção de Sammy levou a Cabo Verde a música que era popular em outros cantos do mundo: o soul e o funk norte-americanos, o samba brasileiro, a cúmbia colombiana, a salsa cubana, o rock inglês, o reggae jamaicano e tantos outros ritmos desembarcaram no país e inspiraram os artistas a promover fusões com o repertório harmônico e rítmico local.

“Com a popularidade dos sintetizadores, a música de Cabo Verde ganhou um viés eletrônico, muito por influência do jazz elétrico de Herbie Hancock e Miles Davis, do rock de Led Zeppelin e Pink Floyd e do afrobeat dos nigerianos Fela Kuti e Tony Allen”, explica o escritor Abraão Vicente, atual ministro da Cultura e Indústrias Criativas no país. “Grupos e músicos de renome e importância decisiva para a formação da identidade musical e cultural surgiram nesse período: Os Tubarões (que interpretou o período da independência como poucos) e Bulimundo (que trouxe o funaná do interior de Santiago aos grandes palcos nacionais), entre outros.”

Resgates do naufrágio
O grupo Voz de Cabo Verde é considerado um dos principais divulgadores da estética da “eletrônica” – o músico Kaku Alves refere-se assim à produção musical do país nos anos 1970. “Eles tocavam os ritmos tradicionais, mas também merengue, salsa, cúmbia, chá-chá-chá etc. E foram o primeiro grupo de Cabo Verde a fazer uma turnê internacional”, recorda o guitarrista, que integrou a banda de Cesária Évora por 15 anos.

“O grupo é um dos grandes desbravadores de fronteiras da nossa música. Levou pela primeira vez, e em grande escala, a música nacional a palcos internacionais, de Lisboa à Holanda, com passagem por Paris. Composto de grandes músicos, que por si só representam marcos e figuras de proa da nossa música (Bana, Morgadinho, Djosinha, Luís Morais, Frank Cavaquim ou Chico Serra, e mais tarde Paulino Vieira e Tito Paris), acolheu influências da música latina que mesclou com a matriz da música pátria, conquistando palcos e públicos até então alheios ao ritmo e melodias crioulas”, completa Abraão.

Paulino Vieira, Toy Vieira e Leonel, integrantes do grupo A Voz de Cabo Verde, figuras de proa música cabo-verdiana dos anos 1970, responsáveis por desbravar fronteiras sonoras e geográficas (Foto: Cortesia Toy Vieira)

 

A banda foi também uma das mais requisitadas para gravações de artistas-solo. Na coletânea Space Echo, oito das 15 músicas trazem Voz de Cabo Verde como banda de apoio. Paulino Vieira, integrante a partir do fim dos anos 1970, foi uma peça-chave como arranjador e multi-instrumentista – figura onipresente em vários discos lançados do período.

“Uma das coisas que mais me fascinam na música de Cabo Verde é a modernização do ritmo funaná através de teclados e sintetizadores, especialmente pelas mãos de Paulino Vieira e sua banda Voz de Cabo Verde”, opina Sammy. “Esse som, em seguida, influenciou uma série de várias outras bandas, que se inspiraram nas inovações dele para fazer suas próprias reinvenções da música tradicional. Para que a música africana se destaque, é preciso ter uma base tradicional.”

A música cabo-verdiana inspirou o lançamento de outra coletânea em 2017. Synthesize The Soul: Astro-Atlantic Hypnotica From The Cape Verde Islands 1973–1988, do selo norte-americano Ostinato Records dá continuidade ao processo de redescoberta dessa rica produção de 40 anos atrás. Há ainda muito a se resgatar do fundo daquele mar musical, onde um navio imaginário teria naufragado em 1968.

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