O sonho não acabou

Publicado em: 02/09/2011

Categoria: cultura digital, Reportagem

Internet quebrou hierarquia da cadeia produtiva cultural e dá vazão ao novo

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Ilustração: Lucas Rampazzo

Giselle Beiguelman

A WAYBACK MACHINE, um serviço do Internet Archive que arquiva sites desde 1999 tem um acervo que cresce 20 terabytes por mês. Se a biblioteca do congresso dos EUA, a maior do mundo, digitalizasse os seus 33 milhões de livros, produziria 10 terabytes. Resumindo: o Internet Archive cresce, por mês, duas bibliotecas do congresso e seu patrimônio bibliográfico construído em quase 200 anos de história.

Essa quantidade de dados é um parâmetro do aumento no volume de textos, imagens e sons que temos hoje à nossa disposição. Os mais conservadores dirão que nunca fomos inundados com tanto lixo cultural. esquecem, porém, que a internet não inventou a banalidade, nem a pedofilia, o racismo e outros acintes políticos e estéticos. Apenas deu vazão a eles.

Mas deu vazão, também, a um manancial de recursos que quebrou a hierarquia da cadeia produtiva cultural. Possibilitou que artistas e criadores chegassem ao público e aos críticos antes de passar pela chancela da galerias, gravadoras, editoras e emissoras de TV. Isso tudo faz parte de um cenário cultural novo e inovador que põe em questão um sistema de produção e circulação do conhecimento que vai muito além do valor da propriedade intelectual.

Pelo menos desde o modernismo, no início do século 20, as práticas de apropriação e reciclagem dialogam com a produção artística. Pensar na obra de artistas referenciais da arte pop, como Andy Warhol e Roy Lichtenstein, fora da esfera da cópia como fenômeno criativo é um exercício insano. Sampleagem e remix surgiram no mundo das fitas cassete e dos LPs, muito antes que alguém, fora dos laboratórios de ciência avançada, sonhasse com a internet.

Então, o que há de tão diferente no que se faz hoje? O fato de que todas essas coisas podem ser feitas sem qualquer referência anterior. Tudo pode ser combinado com tudo e chegar ao seu desktop ou à palma da sua mão sem que seja necessário consultar as fontes. Basta seguir uma tag específica no Twitter, como, por exemplo, #NowPlaying. Você fica sabendo, via @fulano, que filtrou @beltrano que assina os feeds do blog X, que é alimentado pelo tumblr Y, que coleta informações em um serviço automatizado de publicação, que o DJ Z está bombando.

O conteúdo espalha-se e vaza pelos nós da rede. E é aí que a coisa pega. Porque a qualquer momento alguém, diretamente do #SPFW, pode tuitar: um dos maiores stylists italianos! Michelangelo. Moda noite. #fashion. >3. http://youtu.be/NPkzQJo9ByE. Até explicar que Michelangelo designa o autor de uma das obras máximas da Renascença, o Davi, e que La Notte é uma das obras-primas do cineasta Antonioni, também Michelangelo e também italiano, mas não estilista, nem muito menos nascido no século 15… Porque agora, com todas as facilidades de transmissão de conteúdo que os meios digitais favorecem, as comportas do conhecimento estão abertas para que ele seja recriado, mas também reutilizado sem lastro e sem contextualização das informações.

Os limites entre a sociedade do conhecimento e da imbecilidade são estreitos. Mas é simplista acreditar que conteúdo livre é prerrogativa da barbárie. Especialmente porque é ingenuidade pensar que os novos formatos autorais que emergem na internet são formatos do pode tudo. Como disse o poeta americano Charles Bernstein, a autoridade nunca é abolida, apenas se reposiciona. Em um sistema descentralizado, gera autoridades múltiplas e conflitantes, não sua ausência.

O desafio hoje, portanto, não é pensar como controlar as informações que circulam na internet, mas como fomentar processos de criatividade distribuída que expandam o repertório cultural, pluralizando os focos de validação das informações.

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