O técnico e o poético

Panorama da obra de Artur Lescher traz 120 trabalhos escultóricos articulados em torno da ideia da suspensão

Paula Alzugaray
Vistas da exposição Suspensão, de Artur Lescher (Foto: Levi Fanan)

Artur Lescher é um artista construtor – de objetos e de significados. Nesse sentido, poderia ser considerado também um artista escritor. Quando articula em sua escultura materiais como o ferro, o cobre, o alumínio, o latão ou o feltro, ele constrói objetos como se escrevesse textos, ou arquitetasse conceitos. As relações entre as palavras e as coisas são centrais em seu trabalho. A palavra Suspensão, título da exposição retrospectiva da obra de Artur Lescher na Pina Estação, em São Paulo, é, portanto, uma chave de acesso e entendimento de seu pensamento.

Com curadoria de Camila Bechelany, a exposição está montada em três seções. Suspensão é também o título da sala central, dando a entender que o desafio à gravidade, e o tensionamento entre peso e leveza são condições estruturais em toda a trajetória do artista. “Colocar em suspensão o significado das coisas é um papel da arte”, diz Lescher à seLecT. Nesta sala estão reunidas dezenas de esculturas pendulares e verticalizadas, que mal tocam o chão. A sensação do visitante é de caminhar ao longo de uma constelação de astros.

Dois eixos se estruturam a partir da seção central Suspensão. O primeiro, intitulado Narrativas Líquidas, é composto por obras da série Rios Afluentes (2004-2019). Rio Máquina (2009) é a grande engrenagem do discurso desses grupos de trabalhos, que operam um apagamento – ou desmonte – da palavra e da ideia de rio. “Me refiro aqui ao rio não como natureza, mas como máquina, como operação de linguagem”, diz Lescher. Feita de malha de aço inoxidável, a escultura articula qualidades de resistência e flexibilidade e remete, afinal, a uma rotativa gráfica. Nesse sentido, a escultura remete-se à imprensa e à escrita.

Vistas da exposição Suspensão, de Artur Lescher (Foto: Levi Fanan)

 

“A gramática e a equação sintática do trabalho são feitas das escolhas de encontros entre materiais. O metal, que é duro e pesado, na forma de correntes pode ser fluido e estabelecer conexões”, continua o artista. A operação poética proposta por Lescher é primeiro extrair a função e o sentido de uma palavra-objeto, depois inseri-la dentro de um sistema que não é natural, ou seja, ressignificar. “Nisso reside uma operação de suspensão. Entrar em um hiato, em um lugar de liberdade”, diz.

O segundo eixo articulado com a sala dos objetos e dos conceitos suspensos é Engenharia Da Memória. Nessa última sala, são apresentadas cerca de 50 maquetes e cadernos de estudos. A obra central aqui é Nostalgia Do Engenheiro (2014), que faz uma homenagem ao mais metafísico dos artistas, o italiano Giorgio de Chirico. A obra é composta por 16 objetos em metal e madeira, que reeditam ferramentas, objetos e espaços utilizados por De Chirico para colocar tempo e espaço em suspensão. “Eu gosto das coisas circulares e bem amarradas”, resume Lescher.

Serviço
Artur Lescher: Suspensão
Pina Estação
Largo General Osório, 66 – São Paulo
até 24/6
pinacoteca.org.br

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