O terreno instável da pedra dura

Palco da mais intensa transformação em São Paulo hoje, Itaquera é circunscrita pelo filósofo Nelson Brissac como pauta de simpósio preparatório para a quinta edição do projeto Arte/Cidade de intervenções urbanas

Paula Alzugaray

Publicado em: 03/06/2013

Categoria: A Revista, Entrevista

Nelson Brissac

Sobre um antigo conjunto geológico de rochas e granitos surgiu ita-aker, pedra dura em guarani. De topografia acidentada e tendência a erosões e alagamentos, banhado pelo rio Jacu e por uma rede de afluentes do Tietê, o bairro de Itaquera é hoje um dos eixos estratégicos no reordenamento da cidade e vive a mais intensa transformação urbana de São Paulo. A região não só tem o maior shopping center da América Latina, a maior unidade do Sesc do Estado de São Paulo (15 mil visitantes/dia) e o McDonald’s mais lotado da cidade, como agora também recebe os holofotes para a construção a toque de caixa do novo estádio do Corinthians, que em 12 de junho de 2014 sediará o jogo de abertura da Copa do Mundo.

É sobre essa “paisagem em movimento acelerado” – repleta de campinhos de futebol de várzea que brotam como mato em volta do canteiro de obras do estádio Itaquerão – que um grupo heterogêneo de artistas, arquitetos, gestores públicos, técnicos e especialistas se debruça desde abril. O simpósio ZL Vórtice, organizado pelo filósofo Nelson Brissac, em parceria com o engenheiro Ary Perez, o artista e professor Gilbertto Prado e Ruy Lopes da USP de São Carlos, discute, até o fim de junho, em encontros semanais as mutações topológicas, econômicas, populacionais, urbanas e culturais que a região vem sofrendo nos últimos anos e vai preparar o terreno para a quinta edição do Arte/Cidade, projeto de intervenções urbanas idealizado e realizado por Brissac, em São Paulo, desde 1994.

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Partida do Loucos e Malucos X Tatuapé no campo do E.C.U.R.C.A., em Itaquera. Ao fundo, o Itaquerão em construção

 

Dez anos depois do Arte/Cidade Zona Leste, que explorou a antiga região industrial da Mooca e do Belenzinho e tinha como característica atuar em um tecido urbano abandonado à decadência, à exclusão e à violência, agora o foco é sobre uma região midiatizada, com tendência à monumentalização. Em conversa com seLecT, Brissac fala do impacto da mudança de paradigma da economia brasileira sobre a zona leste paulistana e afirma: “A grande vantagem é que a dinâmica daquela região não depende do estádio nem da Copa do Mundo. A região está sendo modificada em razão das mudanças que estão ocorrendo na economia e na sociedade brasileira como um todo”.

Quais as características físicas e históricas do território delimitado pelo projeto?

Do ponto de vista geológico, essa região tem dois maciços: uma enorme montanha, onde estão o Sesc e o Parque do Carmo, e um enorme maciço granítico, onde havia a famosa pedreira do Vicente Matheus. Essa pedreira era um gigantesco buraco que forneceu o granito que cobre a maior parte das ruas da cidade de São Paulo e sustentou o Corinthians durante muito tempo. Essa pedreira foi encerrada e coberta por um aterro de resíduos sólidos, há uns três anos. Sobre esse morro estão sendo construídos, de um lado, o estádio do Corinthians e, do outro, um enorme polo administrativo e tecnológico. A área propriamente da pedreira é um terreno instável, que não tem nada construído. Não há metáfora melhor da arte do que um terreno instável. Há instabilidade nos declives. O terreno é instável, mas também é em declive, portanto, desliza. Tem tudo a ver com as enchentes, os deslizamentos, as avalanches. É tudo fora de equilíbrio. Para todo lado que você olha, vê as coisas no limite do equilíbrio. Então, a gente tem de fazer uma avaliação desses processos construtivos, criados sempre na beira do barranco, que é o grande anátema da edificação popular no Brasil. Os caras são sempre levados a construir em situações críticas e isso conduziu a uma maneira de pensar o terreno. Esse é um desafio interessante. Perto do rio você tem outro ponto de instabilidade: o rio que enche, a várzea… Essa várzea foi historicamente o grande ponto das olarias e das minas de areia. Há vários artistas que lidam não só com o material barro, mas também com a questão do agregado, do que é sólido e do que é aquoso…

Como o projeto ZL Vórtice se relaciona com esse contexto?

A hipótese é a seguinte: essa é uma das regiões de maior transformação urbana que hoje está acontecendo em São Paulo. Ao mesmo tempo, vive também uma das maiores transformações culturais e sociais no Brasil. A emergência do bando de loucos não é um fenômeno só futebolístico. O bando de loucos é a emergência da classe C, a transformação dos hábitos de consumo, a formação de uma nova centralidade. Isso está mudando São Paulo. O pessoal do transporte que vai participar do seminário diz o seguinte: atualmente, a CPTM transporta para o centro 1,5 milhão de pessoas por dia para trabalhar. E traz de volta todo dia. Nenhum sistema de transporte é sustentável se é obrigado a fazer isso. Tem de desenvolver atividades aqui, para essas pessoas todas não precisarem ir trabalhar fora. Estamos acostumados a ver notícias dessa natureza associadas ao Rio de Janeiro: o teleférico, a mudança dos padrões de consumo nas favelas. A notícia de ontem foi de cair de costas. Calculou-se o PIB das favelas brasileiras. A economia das favelas brasileiras já é maior do que a economia da Bolívia inteira. As favelas brasileiras já têm centros de consumo próprio: 81% das pessoas têm celular. 31% dos domicílios já têm computador em casa. Isso está acontecendo aqui também, com características de periferia. O que impulsiona isso culturalmente é o Corinthians. É o grande emblema disso. Nós nos acostumamos a achar que a periferia é amorfa, parada, sem dinâmica. Mas nossa hipótese é a de que tudo acontece lá.

Em cada uma das edições do Arte/Cidade, você se pautou por conceitos específicos para as dinâmicas locais. No AC Zona Leste, você relacionou a ocupação informal da região aos conceitos de máquina de guerra e ciência nômade, de Deleuze e Guattari. E agora, quais são os conceitos movimentados?

Você colocou o dedo na ferida. Estou interessado em saber o que aconteceu em dez anos com áreas dessa natureza. O nômade urbano, o catador de papel etc., foi substituído por quem? Será que ele foi substituído pelo empreendedor, pelo comerciante, pelo capitalismo? Ele foi absorvido pela economia capitalista, ele tem cartão de crédito. Ele comprou um carro. Nas pesquisas relacionadas à favela – não à periferia, onde essa  tendência deve ser ainda mais forte –, 65% da população já é classe média, segundo os critérios do IBGE. Só  30% é classe baixa, invertendo a proporção que tínhamos anteriormente. Então, quais são os agentes dessa  transformação? Quem são os agentes sociais criando  novos procedimentos, agenciamentos, dispositivos? A  cultura está sendo feita agora por quem? E qual sua  relação com o mercado? Será que o mercado capitalista está homogeneizando tudo? Às vezes, pelo que se  lê no jornal, parece que a Maré e a Rocinha vão virar  Ipanema. Mas não é bem assim. Qual é a diferença?  Vamos ter de detectar essas particularidades. Eu acho que aquilo que a gente elaborou no outro Arte/Cidade, as máquinas de guerra, já não vale mais.

Com a Copa do Mundo, a região ganha holofotes. Como pensar a intervenção dentro desse contexto de um ambiente midiatizado e espetacularizado?

Esse aspecto tem de entrar na nossa pauta de discussões. Essa questão se aproxima mais da ideia do papel  do esporte na reconfiguração das cidades. Isso está ficando cada vez mais claro: órgãos como o COI, dos  Jogos Olímpicos, e a Fifa estão se transformando em  grandes instituições de planejamento urbano. Eles interferem no planejamento urbano das grandes metrópoles com um poder inacreditável, às vezes maior do que os órgãos de planejamento locais, determinando a construção de equipamentos, sistemas de transporte, acessibilidade, hotéis. Eles interferem em tudo. A ênfase é mudar o eixo de desenvolvimento urbano para áreas mais pobres. Como aconteceu no leste de Londres. A prefeitura aqui está fazendo grandes desovas de acessibilidade para o estádio: o metrô está fazendo uma alça nova, toda a Radial Leste está sendo reconfigurada com novas pontes. Vale a pena ir lá ver! Parece Londres. Mas a grande questão é a seguinte: essas reconfigurações vão ser capazes de atrair efetivamente mudanças de paradigmas econômicos, criando novas atividades econômicas, desenvolvendo novas tecnologias e formando mão de obra local? Toda a questão do polo de desenvolvimento que o governo está incentivando é para tratar essa questão. Isso vai acontecer mesmo? Ou passada a Copa do Mundo isso regride e as pessoas virão de carro para assistir aos jogos? Isso é uma armadilha, um risco, porque essa monumentalidade pode ser efêmera.

Por isso talvez seja interessante que o Arte/Cidade aconteça só depois da Copa do Mundo?

Sim, para se relacionar com esse processo sem se deixar dominar por ele. O espetáculo é uma armadilha poderosíssima, sobretudo para a arte e a arquitetura. O artista e o arquiteto são sempre tentados à monumentalização, essa é uma tendência da arquitetura e da arte pública contemporânea, que confunde tamanho com escala. A tentação de fazer coincidir no tempo o Arte/Cidade com a Copa do Mundo pode acirrar ainda mais essa monumentalização. Isso nós não deveríamos fazer.

A sua tese é que essa região representa a fatia de um acontecimento em escala nacional?

A região está sendo modificada em razão das mudanças na economia e na sociedade brasileira como um todo, independentemente de futebol, estádio e Copa do Mundo. Não acredito que vá acontecer lá o mesmo que aconteceu na África do Sul. O que ainda não conseguimos caracterizar é quais são as especificidades, os agentes que estão levando isso pra frente. Eles estão se utilizando de quais procedimentos, repertórios e tecnologias? Quais as iniciativas de comércio, o uso intensivo de no- vos sistemas de comunicação ajustados para hábitos culturais dessa área? Quais as mudanças dos hábitos de consumo e de trabalho aqui? Como isso impacta na vida doméstica, que atividades estão surgindo?

Diferentemente da época em que era uma pedreira e obedecia à lei do extrativismo, agora essa é uma área que atrai?

Exatamente. Essa era uma área que só provia, era uma área dormitório. No Rio de Janeiro, essas mudanças são bem mais midiatizadas, porque são mais próximas da zona sul, das áreas onde a opinião pública está mais atenta. Nós nunca pensamos essa área paulistana como foco de interesse, capaz de atrair dinâmicas. Mas já já vai ter até galerias de arte lá. Não tenha dúvida! Vai ter tudo.

*Publicado originalmente na #select11.

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