O uivo da melancolia

Angelica de Moraes

Publicado em: 27/11/2012

Categoria: Ensaio, Reportagem

Da gravura de Dürer aos sensíveis e bem-comportados emos, breves capítulos da história de um estado de espírito

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Melencolia I (24 cm x 18.8 cm, aus dem Jahre 1514)- Albrecht Dürer

Quando, em 1514, o artista alemão Albrecht Dürer
(1471-1528) gravou no metal a magnífica imagem da obra Melancolia, o Brasil era recém-descoberto. Porém, essa síndrome que atinge e corrói as fibras da alma já assolava a humanidade há milênios. Há quem diga que ela é a mais fiel companheira do homem depois do cão. Um deles, aliás, está enrodilhado aos pés da personagem mitológica que Dürer criou para representar esse estado de espírito. O cão galgo, na imagética renascentista, é um dos símbolos da melancolia.

Um cão submisso, ávido pelo raro agrado do dono e entregue ao sono para preencher o vácuo da espera. O cão no aguardo do comando, como potência de ideia capaz de farejar soluções. Um cão veloz. À luz da mentalidade renascentista, a imagem alada que domina a composição de Dürer pode ser entendida como um autorretrato do artista. Ou o retrato mesmo da condição do artista no mundo.

Naquela época, a melancolia estava associada à criatividade, que, por sua vez, costuma derivar da densidade de espírito. Algo que podia se espraiar melhor em um tempo distendido, menos avaro, raso e agendado em fatias finas do que o tempo contemporâneo. A melancolia já foi chamada de spleen, termo popularizado em versos pelo poeta romântico francês Charles Baudelaire, no século 19. Mas spleen é a palavra inglesa que denomina um dos órgãos do corpo humano: o baço. Conforme o pai da medicina, o grego Hipócrates (séc. 5º a.C.), esse órgão fabricaria a bílis negra, substância que escureceria o humor do indivíduo e o levaria ao ânimo melancólico.

Giacometti

O cão galgo, em escultura de Alberto GiacomettI: símbolo da melancolia

Essa secreção escura ocorreria, ainda conforme Hipócrates, sob influência do planeta Saturno. Um dos sinônimos para a melancolia no século passado era a palavra inglesa blue (azul). Na música, remete aos blues arrancados da guitarra por B.B. King e outros que extraem nossa alma pelos pés. Lars von Trier dedicou um belo filme ao tema (Melancolia, 2011), jogando por terra todas as utopias humanas (família, felicidade, amor) sob a iminência da destruição da Terra pelo choque com o fictício planeta Melancolia, tão azul quanto ela.

Nós, terráqueos, sabemos que somos azuis desde que o cosmonauta russo Yuri Gagárin, em 1961, nos informou isso. Na mesma ocasião, ele também deu conta da imensidão de nosso desamparo sideral: “Olhei para todos os lados e não vi Deus”. Órfãos de Deus, azuis e cada vez menores a cada nova descoberta científica que alarga e aprofunda os abismos do universo pelas lentes do telescópio espacial Hubble, os humanos estão mesmo em rota de colisão com o planeta Melancolia.

Não é estranho que sintam desejo de uivar para a lua, como já fazem os premonitórios cães e lobos. Atrás da lua, supõe Von Trier, está o que vai nos destruir. Nem o brasileiríssimo culto sincrético a São Jorge, cuja efígie estaria impressa na superfície lunar, poderá nos salvar. Certeiro observador da alma verde-amarela, o escritor Nelson Rodrigues (1912-1980) identificou, nos anos 1950, que sofremos de algo tão acabrunhante quanto a melancolia: o complexo de cachorro vira-lata.

Melancolia- Lars Von Trier

Cena do filme Melancolia (2011), de Lars Von Trier: o fim das utopias-fotos: divulgação / Warner Bros. Pictures (acima), e divulgação / California Filmes (imagens à direita

Para o escritor, o brasileiro seria “um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. E sentencia: “Não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”. Atualmente, o Brasil ensaia algum orgulho nacional na esteira de recente e dúbia prosperidade, mas ainda oscila entre sentimentos ufanistas e de vira-lata. Por exemplo, como explicar a imagem do brasileiro pelo estereótipo do feliz compulsivo, tripulante de uma nave louca na qual apenas existem três alavancas de comando (carnaval, futebol e samba), todas levando fatalmente ao alvo onírico da celebração e do riso?

Em que momento foi ejetada dessa cabine a funda melancolia que brota das raízes da pátria, nas veias por onde circulam o banzo do escravo trazido pelo navio negreiro, a tristeza do índio desaculturado e desarvorado nas margens da civilização e, não menos importante, a nostalgia do português que cultua a plangência dos xales pretos e dos fados? Como dessas três melancolias ancestrais resultou a sorridente mulata emplumada com samba no pé? Conseguimos nos identificar com esse clichê? Ou sabemos desde sempre que somos feitos de outro estofo, da bile negra de Hipócrates?

A folclórica alegria do brasileiro é um mito, uma construção social que inconscientemente ajudamos a perpetuar e cuja incongruência é denunciada pelas estatísticas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelecem que a depressão e o estresse crescem a níveis epidêmicos nos países industrializados, e que, em 2020, serão a segunda maior causa de comorbidade (fator associado à morte) do mundo ocidental. O Brasil participa com destaque nesse mapeamento dos ânimos.

Levantamentos realizados pela Isma-Brasil, filial da International Stress Management Association (associação internacional que avalia e estuda o estresse), dão conta de que os brasileiros estão entre os povos mais estressados do planeta. Somam 30% da população economicamente ativa do País. Nestas supostas paragens idílicas cresce também o fenômeno do burn out, o esgotamento mental intenso resultante de demandas abusivas internalizadas na esfera do trabalho.O burn out (expressão inglesa que remete à imagem de uma cabeça de fósforo queimado) produz exércitos de melancólicos, exauridos pelo desequilíbrio entre esforço e recompensa. A mesma pesquisa constatou que os ambientes de trabalho no Brasil não favorecem o mérito profissional. O que conta mais por aqui, diz o estudo, são as relações pessoais. Talvez um desdobramento contemporâneo perverso do que o historiador Sérgio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil (1936), denominou “brasileiro cordial”. Cordial (do latim cordis, coração), para assinalar que essas atitudes passam longe dos critérios racionais que deveriam pautá-las.

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Kirsten Dunst interpreta Justine no filme Melancolia-fotos:  Warner Bros. Pictures, e divulgação / California Filmes

A psicanalista Maria Rita Kehl, no livro O Tempo e o Cão (Boitempo, 2009), esclarece que “o mundo contemporâneo demonizou a depressão, o que só faz agravar o sofrimento dos depressivos com sentimentos de dívida ou de culpa em relação aos ideais em circulação”. Um dos maiores humoristas brasileiros, Chico Anysio, depressivo clínico e usuário confesso de Prozac, afirmava: “O humor só existe em países com problemas. Não existe humorista sueco ou finlandês”.

Talvez a história da melancolia contemporânea necessite de outra linguagem para ser contada. Talvez ela seja o desesperanto, neologismo criado pelo escritor cubano Guillermo Cabrera Infante para definir os angustiados diálogos dos replicantes (robôs orgânicos) do filme Blade Runner (direção de Ridley Scott, 1982). Especialmente quando o replicante Roy, sentado no beiral de um alto prédio da megalópole e encharcado pela chuva que desenha finas linhas d’água no seu rosto e disfarça as lágrimas, observa que suas memórias são sobre perdas e morte. Roy uivava para dentro, no beiral do mundo futuro.

Filmes e telesséries reunindo vampiros e lobisomens atravessaram gerações com sucesso garantido. São a melhor metáfora para acolher os conflitos adolescentes surgidos com a transformação do próprio corpo. O peludo lobisomem é, na real, um garoto na puberdade. Ele foge e uiva de medo do adulto que nasce dentro dele e das urgências do despertar do sexo. A desesperança atinge a adolescência desde sempre, mas não se fazem mais Rimbauds como antigamente. O teen melancólico é um Peter Pan sem a coragem de lutar contra os piratas.

Os sensíveis e comportados emos, que saíram de moda no fim da primeira década deste século, morreriam de susto diante do visual podreira e das malcriações do seu ancestral remoto no uso de roupas pretas, rímel pesado e tachinhas: o punk. Os emos jamais entenderiam a revolta cheia de som e fúria das meninas da banda punk russa Pussy Riot. Mas seus irmãos em utopia, os jovens brasileiros que se organizam em microativismos pontuais contra políticas públicas falidas e em defesa dos direitos da cidadania, certamente entendem. Eles são a verdadeira alternativa à melancolia, porque insistem em construir e sinalizar uma saída. É um Brasil que muda de mentalidade e solta os cachorros.

Ensaio publicado originalmente na edição 08, outubro de 2012

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