O visionário prédio de vidro de Eisenstein

Alcino Leite Neto

Publicado em: 28/09/2012

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

Filme nunca realizado do cineasta russo é crítica ao projeto arquitetônico moderno

Eisenstein

Legenda: Do projeto Glass House, de Eisenstein, que teria sido a mais radical experiência arquitetônica do cinema, só restaram alguns poucos desenhos e anotações.

Para a infelicidade do cinema, alguns projetos de filmes de Sergei Eisenstein jamais foram realizados, como a adaptação do romance Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser, a ambiciosa versão de O Capital, de Karl Marx, e o espantoso Glass House, cujo cenário seria um edifício inteiramente feito de vidro – paredes, teto e chão.
“Cada um na sua vida escreve seu mistério; o meu é Glass House”, anotou Eisenstein em seu diário, em 1946, dois anos antes de morrer, aos 50 anos. Mistério dele e também nosso, pois do projeto desse filme só restaram alguns poucos desenhos e anotações, que, todavia, permitem dizer que Glass House teria sido a mais radical experiência arquitetônica do cinema, em todos os tempos.

Não apenas isso: teria sido ainda um filme que abriria caminhos insuspeitados para o cinema, por querer subverter a lógica do plano, da perspectiva e da montagem, ao mostrar corpos, objetos e situações que, por causa da transparência, participariam de um registro fílmico feito de simultaneidade e sobreposição, misturando várias ações diferentes, o alto e o baixo, o interior e o exterior (e, portanto, o público e o privado).

A ideia de Glass House surgiu ao diretor (com esse nome, em inglês), durante uma viagem a Berlim, em 1926. Eisenstein – que era filho de arquiteto e estudou engenharia civil – inspirou-se no uso do vidro pela arquitetura moderna, que investira o material de atributos novos e utópicos.

No entanto, aos olhos do diretor engajado na Revolução Soviética, os arquitetos ocidentais estavam por demais arrebatados pelas “obras miraculosas da arte da construção e do pensamento arquitetônico, feitas de cimento, ferro, vidro e raios solares”, para se preocuparem com o “homem real… o morador”.

Glass House se configuraria, então, como um ensaio cinematográfico sobre o isolamento dos indivíduos nos países capitalistas e a indiferença social que os cerca, mas também como uma crítica – ou mesmo uma sátira – ao projeto arquitetônico moderno.

No filme, apesar da transparência absoluta reinante no edifício, os personagens agiriam na mais completa ignorância do que está ocorrendo a uns e outros. Assim, uma cena de aspecto folhetinesco mostraria um marido que não percebe a traição de sua mulher na mesma casa em que ele está. Em outra, um sujeito solitário se enforcaria, envolvido pelos demais habitantes do prédio, ocupados com suas atividades habituais.

“Pegar as ações mais banais ‘and change the point of view’. Pegar os tipos e conflitos psíquicos mais tradicionais ‘and change the point of view’”, escreveu Eisenstein, em inglês.

American Dream

Glass House voltou à mesa de trabalho do diretor em 1930, quando ele desembarcou nos EUA, atendendo a um convite para filmar em Hollywood – coisa que nunca se concretizaria. Um orçamento do gigantesco cenário de vidro chegou a ser encomendado pela Paramount, mas o filme esbarrou em mil empecilhos. Entre eles, a teimosia dos produtores em encontrar uma “story” para encaixar no prédio de vidro de Eisenstein, que, por seu lado, imaginava fazer do filme “um desfile de episódios com todos os lugares-comuns envolvendo as estrelas americanas”.

Décadas mais tarde, o francês Jacques Tati – outro grande “arquiteto” do cinema –, provavelmente sem ter conhecimento de Glass House, criou na obra-prima Playtime (1967) sequências extraordinárias que lembram muito o projeto fascinante do diretor soviético. Projeto que Eisenstein assim definiu, como se pensasse numa época futura, a nossa: “A solidão da exposição permanente aos outros e da visibilidade completa”.

Alcino Leite Neto é jornalista e editor do Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha. É articulista da Folha de S.Paulo.

*Publicado originalmente na edição impressa #6.

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