O visualizador que veio do frio

Giselle Beiguelman

Publicado em: 07/01/2014

Categoria: Entrevista, Reportagem

Para Lev Manovich, especialista em visualização de dados, as redes sociais apontam para uma comunicação visual em alto nível, mas não estão expandindo a nossa imaginação

Lev

Legenda: Lev Manovich no Laboratório de Estudos de Software da Universidade da Califórnia, em San Diego (Foto: calit2)

Autor do referencial The Language of New Media (MIT Press, 2001), livro adotado por dez entre dez cursos de Comunicação e Arte do mundo todo, Lev Manovich é russo, nascido em Moscou, onde estudou artes, arquitetura e programação. Emigrou para os Estados Unidos nos anos 1980. Lá, passou a se interessar por semiótica e linguística, fez mestrado em psicologia e doutorado em estudos culturais.Diz que há mais de 30 anos tenta analisar imagens, mas que isso só foi possível de fato com a explosão das redes sociais nos anos 2000, pois permitem visualizar padrões. Em 2007, quandoera professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, fundou o Laboratório de Estudos deSoftware (Software Studies Initiative) e passou a dedicar-se ao que chama de Cultural Analytics (Analítica Cultural), análises computacionais e visualização de grandes massas de dados culturais e imagéticos. Desde o começo de 2013, é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Computação da Universidade da Cidade de Nova York, onde dirige o laboratório de Software Studies, também baseado no Instituto de Telecomunicação e Informação da Califórnia (Calit2). Keynote speaker da quinta edição do Media Art History, evento itinerante internacional que em 2013 foi realizado em Riga, na Letônia, Manovich conversou com seLecT sobre o impacto das redes sociais na cultura visual contemporânea.

Como a visualização de dados pode nos ajudar a compreender a cultura do nosso tempo?

O crescimento explosivo do conteúdo cultural na web, incluindo as mídias sociais desde 2004 e os esforços de digitalização de museus, bibliotecas e outras instituições, viabilizou um novo paradigma para o estudo das mídias contemporâneas e históricas. Em vez de se concentrar apenas em artefatos isolados, podemos usar a análise de dados computacional e técnicas de visualização para estudar os padrões em grandes conjuntos de dados culturais.

Por que você decidiu concentrar suas pesquisas em tecnologias de visualização de dados sobre imagens?

Vivemos rodeados por imagens. Elas estão nas redes, nas ruas, nas roupas das pessoas, nos museus. Como as olhamos? Olhamos a partir de uma pesquisa preliminar, definindo categorias que vão nos permitir organizar e ler essas imagens. Mas as imagens não são apenas inteligíveis por meio de categorias, porque não são definíveis apenas por meio de palavras. Imagens são cores e formas acima de tudo. Então, a grande pergunta da visualização de dados, e o que tem mobilizado a mim e ao meu grupo de pesquisa, é: como explorar essas imagens e entrever parâmetros que não sejam descritos apenas no nível das tags (palavras- chave), mas dos seus elementos visuais?

Qual o papel das redes sociais nessa explosão de imagens?

Central. Os anos 1980 e 1990 foram essencialmente textuais, dominados pelos recursos de mensagem instantânea, bate-papo e e-mails. Isso tem mais relação com a precariedade das conexões do que com uma preferência coletiva. Basta pensar que a internet só se popularizou a partir do Mosaic, um browser, uma interface gráfica de acesso aos conteúdos online. Mas foi a partir dos 2000 que nos tornamos essencialmente visuais e o marco desse processo foram as redes sociais, o lugar para onde escoa a produção imagética e onde já aparecem redes, superpopulares, como o Instagram, onde só circulam imagens. Toda a leitura de mundo mudou e a imagem, cada vez mais, precede o texto. Hoje, você pode montar sua própria revista com aplicativos como o Flipboard, com recursos estritamente visuais. É toda uma mudança no paradigma de comunicação…

Por outro lado, há um excessivo domínio dos templates (modelos prontos) e uma padronização da comunicação a partir da visualidade e do design de megaplataformas como o Facebook…

Sim, podemos dizer que tudo está indo na direção de uma comunicação visual de alto nível, mas não estamos ainda expandindo nossa imaginação.

A visualização de dados pode mudar esse panorama? Pode reverter essa tendência de padronização?

A visualização de dados a partir de imagens visa entender padrões culturais e não criar novas composições. Se analisarmos um conjunto de 25 mil imagens do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e um de mais de 3 milhões extraídas do Instagram, o que vamos encontrar? Temos maior ou menor diversidade de padrões? Não quero julgar, mas analisar. Existem tendências na comunicação visual contemporânea?

Seu laboratório de pesquisa está envolvido em um projeto que faz o download de 6 mil imagens postadas diariamente no Instagram a partir da cidade de Nova York. Devolvemos, então, a pergunta: existem tendências na comunicação visual contemporânea?

Na comunicação profissional, sim, há uma tendência: medida. Essa é a história do big data, do data mining. Isso muda toda a maneira como a mídia opera. As empresas têm um conjunto de ferramentas para otimizar sua produção. No limite, até as pessoas individualmente dispõem desse tipo de recurso, instrumentalizando um Google Analytics, por exemplo. Toda a indústria da comunicação hoje é testada, tudo passa por um preview e uma comparação preliminar de resultados. Será que isso leva a mais padronização? Big data é medida. Os milhões de imagens que circulam no Instagram, no Facebook, no YouTube hoje, talvez sejam meia dúzia de padrões.

Isso não contraria a hipótese de que a produção imagética e sua distribuição nas redes sociais apontam para uma democratização do conhecimento?

Existe essa democratização, mas é indiscutível que há também toda uma nova esfera da produção profissional que está ligada às empresas de computação, hoje muito mais radicais do que as de comunicação. O Twitter, por exemplo, que é uma nova tecnologia de escrita, não foi inventado por uma empresa de comunicação. Nem o Flipboard. As transformações nos modos de publicar e visualizar não estão vindo dos meios tradicionais de comunicação. A inovação não vem, hoje, nem das artes nem da indústria de comunicação, mas das empresas de tecnologia.

*Entrevista realizada em Riga, Letônia; foi publicada originalmente na edição #15

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