Obras na escuridão

Exclusivo: Um dos mais importantes centros de arte contemporânea do mundo, o Palais de Tokyo recebe uma instalação de OSGEMEOS e de JR que jamais será aberta ao público

Adriana Ferreira Silva, de Paris

N° Edição: 30

Publicado em: 06/06/2016

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Detalhe da instalação da dupla OSGEMEOS com o francês JR em área restrita do Palais de Tokyo (Foto: JR)

Um dos mais recentes e instigantes trabalhos da dupla OSGEMEOS jamais será visto de perto pelo público. Há dois meses, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo criaram uma instalação em parceria com o fotógrafo francês JR nas paredes de uma das saídas de fumaça do Palais de Tokyo, em Paris. O trio passou dois dias dentro de um túnel escuro, sob a luz trêmula de 200 velas, e protagonizou uma espécie de ritual em memória dos mortos durante a Segunda Guerra Mundial. O evento está ligado ao passado do Palais, que, no período de ocupação da França pelo exército nazista (1940-1944), era um dos locais onde os alemães guardavam bens confiscados de judeus.

A sala vizinha ao espaço onde OSGEMEOS e JR se embrenharam foi usada como um depósito de pianos roubados. Das poucas fotografias que restaram daquela época, uma delas mostra o salão abarrotado de instrumentos. Inseridos nesse contexto, os irmãos desenharam homens, mulheres e crianças. Famílias judias que se mesclam às reproduções em grandes dimensões de imagens da década de 1940, escolhidas e manipuladas por JR. Um dos personagens está sentado ao piano. Outro abraça-o como se não quisesse dele se separar. Um terceiro chora ao lado do objeto despedaçado. Em fila, figuras esquálidas observam o vazio com um olhar desamparado.

Ao final do processo de criação, restam as fotos, feitas por JR, que devem se transformar num livro – ainda sem data de publicação. A obra voltou à escuridão. Como se trata de uma área de segurança da construção, seu acesso é completamente vetado. Nem o curador responsável por promover esse encontro, o francês Hugo Vitrani, poderá rever seu resultado.

Detalhe da obra d'OSGEMEOS (Foto: JR)

Detalhe da obra d’OSGEMEOS (Foto: JR)

Com essa composição, o Palais de Tokyo inaugura a sexta etapa do Lasco, projeto idealizado por Vitrani, com a intenção de ocupar territórios de acesso restrito desse labiríntico centro cultural, por artistas ligados à arte urbana. O nome do programa “work in progress” faz referência ao complexo de cavernas de Lascaux, no oeste da França, cujas paredes são cobertas por pinturas rupestres. “Os convidados podem fazer o que quiserem, onde quiserem. Não há regras”, explica o curador para seLecT. “Há trabalhos em espaços acessíveis ao público. Outros, podemos conhecer por meio de visitas guiadas. E há aqueles que estão camuflados ou em áreas cuja entrada é proibida”, afirma.

Opção pelo inacessível
Para Vitrani (ele próprio, ex-grafiteiro), a opção pelo inacessível é uma maneira de reproduzir o modus operandi desses criadores, e, ao mesmo tempo, testar os limites da instituição, promovendo ações ilegais e clandestinas mesmo “a convite” do centro artístico. “Há grafiteiros que fizeram coisas extraordinárias nas ruas e ninguém sabe, ninguém viu. Lotear essas áreas alimenta o imaginário dessas lendas urbanas”, acredita. A tentativa de reproduzir de maneira não usual o espírito subversivo das ruas dentro do Palais começou em 2012, ano de estreia do Lasco Project. Vitrani refere-se ao lançamento como o “cavalo de Troia”, que espalhou 50 grafiteiros pelos subterrâneos do prédio. “Buscamos artistas radicais, como (o francês) Azyle, que passou a vida inteira pintando dentro das estações de trem, sem nunca ter feito nada em outro lugar. Não foi fácil convencê-lo, mas ele veio”, lembra.

A primeira é também a parte mais visível do projeto. Espalhados por salas que desembocam nas escadas das saídas de emergência, os artistas forraram de cima a baixo paredes com pé-direito altíssimo. Há grafites e pichações por todo canto: em escadas, colunas, no teto. O efeito é impressionante. O vazio, perturba. Vez ou outra, um funcionário quebra o silêncio ao destravar o trinco de uma das pesadas portas de segurança. O ambiente foi cenário para o filme O Cheiro da Gente (2013), de Larry Clark.

Os franceses Lek & Sowat assinam intervenção na terceira edição de Lasco Projects, curadoria de Hugo Vitrina que ocupa espaços inusitados da instituição parisiense (Foto: Aurélien Mole/Palais de Tokyo)

Os franceses Lek & Sowat assinam intervenção na terceira edição de Lasco Projects, curadoria de Hugo Vitrina que ocupa espaços inusitados da instituição parisiense (Foto: Aurélien Mole/Palais de Tokyo)

Os frequentadores podem fazer um tour por ali com horário marcado, na companhia de um monitor. Alguns setores, no entanto, têm acesso livre, pois são passagens para anexos do Palais, como o clube e casa de espetáculos Yoyo, cuja entrada se confunde com a de uma galeria de arte de rua. O efeito é involuntário. Tudo o que Vitrani menos deseja é comparar o Lasco Project às exposições de grafiteiros de apelo popular, tão em voga nos anos 2000. “Na primeira fase, nos concentramos em representantes da cena dos anos 1990, que não participam de projetos oficiais, continuam à sombra, mas são ícones para essa cultura. Uma turma que se interessava pela ruína e não faz figurações. Não tem nada de pop”, diz. “Depois, passamos a chamar pessoas que não são necessariamente ligadas ao grafite, pois não se trata de um programa de street art, mas de como os artistas podem trabalhar sobre o tema da rua, seja ele poético ou violento, num lugar fechado.”

Estrelas da street art
No total, cerca de 70 criadores participaram do Lasco Project. A cada etapa, mudam as técnicas, muda o conceito, muda tudo. “Começamos com uma invasão coletiva de grafiteiros e evoluímos para projetos pessoais e monográficos”, resume Vitrani. Entre eles está uma instalação do português Alexandre Farto, o Vhils, que participou da terceira parte, em 2014. O gravurista viaja o mundo fazendo retratos e, posteriormente, reproduz os rostos, esculpindo-os no concreto. “Ele pintou muitos trens quando era adolescente e depois passou a fazer murais no ateliê”, explica Vitrani. “Suas esculturas seguem a ideia do vandalismo, de criar por meio da destruição, ao raspar um muro que pode estar coberto por cartazes políticos ou de propaganda.”

Outras estrelas da street art que assinam as paredes do Palais de Tokyo são o norte-americano Craig Costello, responsável por uma pintura de grandes dimensões, no jardim externo, a dupla francesa Lek & Sowat e Futura 2000, icônico grafiteiro de Nova York. Além de pinturas de acesso público, os três últimos cobriram as paredes de um buraco cuja entrada é proibida.

O norte-americano Craig Costello durante preparação de trabalho para o Lasco Projects #4 (Foto: Aurélien Mole/Palais de Tokyo)

O norte-americano Craig Costello durante preparação de trabalho para o Lasco Projects #4 (Foto: Aurélien Mole/Palais de Tokyo)

“Futura só aceitou participar porque poderia fazer o trabalho ilegal”, conta Vitrani. “Para despistarmos a organização, ele pintou um painel bem simples, na superfície, e depois se concentrou no subterrâneo, onde reproduziu o estilo que o tornou clássico nos anos 1980”, descreve o curador. “O único que sabia de nossa intenção era o presidente do Palais, Jean de Loisy.”

Essas imagens, inclusive as camufladas, estarão reunidas num livro que será publicado em outubro com registros de quase todas as fases do Lasco Project. Ficam de fora os artistas que compõem o sexto programa, cuja inauguração ocorre em julho e terá pinturas e instalações dos franceses Olivier Kosta-Théfaine e Philippe Baudelocque e do grego Stelios Faitakis. Por ora, a única peça furtiva é a dos GEMEOS e JR. “Mas nunca se sabe o que os artistas podem inventar”, sorri, Vitrani.

Ícones do grafite internacional, os brasileiros OSGEMEOS reeditam uma aliança com JR que começou em São Paulo, num muro na Avenida Radial Leste, e agora ocorre pela primeira vez dentro de uma instituição. O francês – que não divulga seu nome de batismo –, é um nome badalado na arte contemporânea, graças ao impacto de seus retratos de pessoas comuns que, transformados em imagens gigantes, cobrem muros, arranha-céus e monumentos de grandes metrópoles.

Em 2008, ele trouxe ao Brasil o projeto Women Are Heroes (mulheres são heroínas), realizado no Morro da Providência, à época uma das comunidades mais violentas do Rio. A ação consistia em fotografar moradoras e transformar seus retratos em cartazes gigantes, que foram pregados sobre telhados, escadarias e paredes da favela – as imagens estão no site do artista. Realizado entre 2008 e 2010, o projeto passou ainda por Serra Leoa, Libéria, Índia e Camboja, entre outros países.

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