Observatório do Sul #2

Dando continuidade à série de textos produzidos durante o Observatório do Sul, o antropólogo e professor da Universidade de Durham, Alex Flynn escreve sobre as possíveis definições de um sul global 

Alex Flynn
Legenda: Alex Flynn

Por um Sul Global definido por práticas

Na busca por uma definição do ‘sul global’, muitas tentativas são limitadas pelas pressuposições a priori implícitas em suas próprias contenções. Uma tendência é a de configurar o sul global como ‘contranarrativa’ às epistemologias centradas na Europa e nos Estados Unidos. Sob este prisma, a ideia de sul global torna-se secundária, reiterando uma narrativa dominante e propondo um projeto epistemológico que só pode ser entendido comparativamente. Por outro lado, algumas definições constroem o conceito de sul global em relação a uma proposta geográfica, e assim demarcam o ‘sul’ com base em cartografias do espaço, talvez presumindo que os estados ‘subalternos’ estarão eternamente presos a transações exploradoras com parceiros dominantes. Já foi demonstrado que esta definição é redundante. Desde o final da década de 1970, a ‘teoria da dependência’ de André Gunder Frank, com sua abordagem determinista, foi subvertida pela intrusão temporal e pela mudança nas relações da economia política internacional. Está claro que os conceitos acerca do que constitui o sul global vão muito além dos meros indicadores econômicos, mas ainda assim vale notar como os países que Gunder Frank situou indefinidamente na ‘periferia’ passaram a integrar o que ele denominou o ‘centro’. Em 1984, a taxa de inflação anual do Brasil foi de 192,12% e a dívida externa com bancos e governos somava US$ 104 bilhões. Em 2009, a inflação anual no Brasil era estável em 4,847% e, naquele ano, o país pagou toda sua dívida ao FMI pela primeira vez, além de comprar US$ 10 bilhões em títulos do FMI para reforçar sua posição como credor ao invés de devedor. Definições estanques de sul global já não refletem, portanto, realidades complexas. Sendo assim, parece importante nos distanciarmos de definições relativas a uma entidade geograficamente circunscrita, ou enquanto contranarrativa à hegemonia, e nos aproximarmos da ideia de um emaranhado de discursos e práticas, de uma ‘aventura epistemológica’ derivada de modos de existência múltiplos e subjetividades políticas diversas.

Nesta tentativa de configurar o conceito de sul global sem cair nas armadilhas descritas acima, é importante que nos lembremos da singularidade e da importância de tal projeto. Como descreve Kelly Gillespie, participante da primeira sessão do Observatório do Sul e antropóloga na Universidade do Witwatersrand, “modificar a base de nosso conhecimento é modificar nossa maneira de estar neste mundo”. Ora, a ressonância de tal projeto é clara. Para Gillespie, elaborar um projeto caracterizado pelo conceito de sul global é desfazer a violência epistemológica inerente a sistemas pejorativos de representação, propagados e aceitos por tanto tempo, e habilmente desconstruídos por intelectuais pós-coloniais como Edward Said e Gayatri Spivak. Para Gillespie, estes sistemas de representação são responsáveis pela criação de hierarquias violentas, e somente a elaboração de uma prática de conhecimento própria ao sul global pode desfazer a violência estrutural inerente à epistemologia do capitalismo.

Em tal projeto, entretanto, há que se perceber tensões importantes desde o início. A teoria do ‘Perspectivismo’ de Eduardo Viveiros de Castro pede que contemplemos a possibilidade de construir um novo tipo de conhecimento baseado em modos alternativos de existência. Ela questiona a validade do paradigma do relativismo cultural, há muito estabelecido por Franz Boas, ao afirmar que, baseado num sistema de conhecimento científico, tal paradigma não deixa em aberto a possibilidade de se alterar as regras básicas da realidade por meio de epistemologias nativas. Em outras palavras, já que todos os povos do sistema Boasiano de ‘culturas’ compartilham de uma só realidade, que só pode ser explicada pela ciência, o relativismo cultural apenas tolera outras ontologias em sua própria estrutura, e talvez assim se aproprie delas. Para Viveiros de Castro, portanto, as ontologias Ameríndias possuem um caráter único, e logo constituem uma plataforma possível para a construção de um sistema de conhecimento que pertença ao sul global.

Nesse sentido, questões importantes devem ser levadas em conta. Em primeiro lugar, que tipo de legitimidade se confere ao denominar o sul global uma instância de ‘contranarrativa’? Em segundo lugar, já que partimos do contexto brasileiro, será que sua proposta pretende inscrever-se num campo de conhecimento global ou num conhecimento global específico ou ‘Brasil’? Em outras palavras, será possível dissociar a especificidade do local da elaboração e produção de algo global?

E, em terceiro lugar, se vamos aceitar que há algo fundamental e ontologicamente único no conhecimento produzido no âmbito do Sul, e se buscamos criar diálogo ou reconhecer a ideia e o potencial dessas histórias cruzadas, como podemos pensar estas conexões por si sós?
Conciliar a especificidade local com os problemas de representação frequentemente criados pelo global não é tarefa fácil. Parece essencial reconhecer o caráter único dos sistemas de conhecimento que existem ao largo das narrativas dominantes, mas não agregam sua singularidade a uma contranarrativa homogênea. Nesse contexto, eu diria que o sul global pode ser teorizado produtivamente como um emaranhado de práticas múltiplas e efêmeras. Essas práticas ocorrem de modo transnacional e, embora sejam, assim, globais, são inspiradas por uma elaboração teórica do conhecimento que é local. Desse modo, epistemologias específicas e únicas asseguram que uma prática seja inscrita regionalmente, porém representada globalmente. Reunidas, essas práticas representam uma plataforma que busca ‘ressignificar’, uma plataforma erigida sobre discursos locais de conhecimento que participam de uma conversa global de compatibilidade, e não de comparação. Eles recuperam e até sublinham diferenças inerentes de especificidade e lugar, e ao mesmo tempo se distanciam do provincianismo que permitiria que as diferenças definissem seu projeto.

O emaranhado de práticas que afirmo caracterizar o sul global apresenta uma nova proposta, que convida as pessoas a criarem seu próprio significado num sentido intrinsecamente múltiplo, efêmero e baseado no social. Um exemplo de elo nessa corrente pode ser visto nas conexões entre prática artística e relacionalidade, e na elaboração de significado para os protestos e as mudanças. Essa rede de práticas e praticantes abre frentes de debate ao incentivar a interação de instâncias experimentais na arte contemporânea. Tais trabalhos respondem a um paradigma estético diferente: no livro Estética Relacional, Nicolas Bourriaud afirma que a arte não deve ser julgada com base em critérios de ‘beleza’, e sim com base nas relações que uma obra proporciona e nos modelos de sociabilidade que propõe. Segundo essa visão, uma obra de arte “tem, como seu horizonte teórico, o âmbito das interações humanas e seu contexto social” criando ‘micro-utopias’, espaços temporários nos quais as pessoas podem dialogar e criar significado de modo democrático. Jim Elkins disse que neste tipo de espaço, ‘ver é metamorfose, não mecanismo’ e aí reside o potencial político da arte relacional – esses projetos pedem que seus participantes contribuam com seu próprio significado, ao invés de dar a eles uma mensagem pronta, e assim instigam um senso de desenvolvimento ético próprio. Desta forma, o conceito de estética relacional de Bourriaud tem implicações diretas sobre os modelos de socialidade e em parte justifica a minha convicção de que, em se tratando dos modelos de existência propostos pelo sul global, os movimentos sociais e arte contemporânea têm algo importante a contribuir.

As instalações site-specific do movimento Occupy, sua coreografia humana e as ações de protesto por mudanças realizadas pelo movimento Global Justice possuem uma relevância interessante à pesquisa artística atual: o apelo de Tania Bruguera por um espaço público livre de censura; a proposta do Opavivará de representação do conhecimento tradicional; e a representação do MST da condição de sem-terra através de sua performance e mística. Eu diria que todos esses acontecimentos são exemplos de performance política e sugeriria que, em todos esses eventos, podemos começar a compreender as práticas do que constitui o Sul, cada um deles um convite, guiado por uma epistemologia local e específica, na qual as pessoas constroem sua própria subjetividade política e múltipla.

Neste sentido, essas propostas ético-estéticas são um chamado à horizontalidade e à reflexão. Mas o que, mais especificamente, conecta esses exemplos às práticas do Sul? Ao atravessar a fronteira porosa entre o que chamamos de movimento social e intervenção artística, há uma proposta ético-estética de como viver sua vida com os outros. Há também um chamado ao envolvimento com a ética transitiva entre artista e observador. Mas como, mais precisamente, este processo ocorre? Nestas situações, as relações intersubjetivas são criadas como parte do encontro, à medida que a forma do acontecimento pede e possibilita as interações humanas. Esta matriz de socialidade profundamente horizontal é o cerne do processo ético poético: nós não só temos uma responsabilidade para com os outros, mas no convite ao diálogo criamos a possibilidade e as condições para um questionamento sobre o tipo de sujeito que queremos ser e o tipo de sociedade na qual queremos viver.

A definição do sul global por meio de uma série de práticas abre e expande a receptividade do projeto. Práticas efêmeras, múltiplas e prefigurativas no sentido de viver o modelo que buscam criar. Como tal, rejeitam qualquer narrativa dominante que configure a mudança e o progresso em termos de manifestos codificados e caminhos utópicos, e que acredite que a autoridade só pode ser reconhecida se for baseada no indivíduo.

Embora tais práticas tenham ocorrido em escala transnacional, é essencial enfatizar mais uma vez que cada contexto deriva de um sistema de conhecimento local específico. A coreografia humana de massa do movimento Occupy toma emprestada a ênfase de David Graeber na política prefigurativa e no anarquismo; o foco do Opavivará na participação pode ser relacionado ao trabalho em conjunção com o observador imaginado por Lygia Clark e Hélio Oiticica; e a multiplicidade de subjetividades políticas de Tania Bruguera, geradas por uma simples plataforma de debate, ecoa as perspectivas múltiplas inerentes ao trabalho de Felix Gonzalez-Torres, e sua recusa de apagar significação.

Assim, essas práticas, formadas por contextos específicos, apresentam uma certa compatibilidade que lhes permite responder a um cenário global, desvencilhando-se de acusações de provincianismo e transcendendo seu contexto regional. Esta compatibilidade está situada em seu convite aberto à participação na elaboração de subjetividades políticas múltiplas em contextos relacionais. Esta subjetividade multifacetada é revolucionária em seu chamado para “tornar-se de outra forma” (‘becoming otherwise’), no vocabulário de Elizabeth Povinelli, e profundamente política. Depois da ênfase de Chantal Mouffe na dissensão, esses espaços convidam as pessoas a empreender um processo transformador do coletivo e seus interesses, ainda que não de forma imediata. Assim, as práticas do sul global, formadas por e enraizadas em epistemologias locais e específicas, se distanciam da reificação do indivíduo e, portanto, rejeitam uma trajetória linear clara em direção ao futuro, tornando-se uma ideia aberta a todos.

As opiniões expressadas nos textos são de responsabilidade dos autores. 

O primeiro texto da série, Sobre cruzamentos entre arte e conhecimento, da curadora Sabrina Moura, pode ser lido aqui

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.