Olhar à terceira pele

Leo Faria assina composto de vídeo-foto durante a MADE inspirado nas cinco camadas de Hundertwasser

Patricia Buarque
Leo Faria entre criadores e criaturas (Foto: Leo Faria, Vagner Fernandes)

Há mais de seis anos o mineiro Leo Faria é reconhecido nacional e internacionalmente como o melhor fotógrafo do Brasil de street style – tanto é sua influência, que acaba de ser nomeado como um dos 33 embaixadores mundiais da Canson, fabricante francesa de papel de impressão de alta qualidade. Porém, seu interesse maior sempre recaiu em captar, através da fotografia, a forma de se comunicar a respectiva identidade de cada um, a partir do contexto subjetivo implícito nas suas roupas. Para ele, apreciar o objeto e suas relações contextuais exige um mergulho em modo reflexivo, no qual a subjetividade – não invade o objeto com representações mentais que não dizem respeito a este, e sim – vem do próprio objeto. Mas, como revelar a aparência que indica o caminho à verdade, e não aquela que encobre ou oculta?

A fim de uma análise mais profunda sobre o tema, apropriou-se das ideias do artista e arquiteto austríaco Hundertwasser, que desenvolveu a teoria das cinco peles, em que o ser humano baseia sua existência, retratando suas formas de pensar e agir através das camadas que o acobertam. Para ele, a epiderme seria considerada a primeira pele, sendo a mais próxima da essência humana, enquanto que as roupas, a segunda, é percebida como objeto de distinção entre o homem e o mundo. A terceira pele seria a casa e os objetos, seguida das relações sociais e a natureza/humanidade, respectivamente a quarta e a quinta pele. 

Já a casa e os objetos, relatados como a terceira pele, foram o ponto de partida de Leo Faria para assinar a exposição Olhar À Terceira Pele, instalação interativa apresentada durante a MADE – Mercado, Arte, Design, de 22 a 25 de agosto, no Pavilhão da Bienal do Ibirapuera, em São Paulo. Durante os 30 dias que antecederam ao evento, o fotógrafo entrevistou via vídeo-conferência os 102 participantes para entender sua relação com as peças e os objetos que seriam expostos em seus respectivos espaços. “Eu entrei em suas casas, seus ateliês, seus espaços de trabalho e desvendei as memórias afetivas, as lembranças e as histórias de cada um das peças desenvolvidas por esses designers e artistas” relata Faria. 

Durante os cinco dias de evento, o fotógrafo montou um estúdio fotográfico no Pavilhão da Bienal, onde clicou cada um desses designers e artistas com o objeto de referência e, conforme as fotografias eram impressas em tamanho natural, povoava-se a rampa da obra de Oscar Niemeyer, construindo uma instalação que permitiu ao público andar entre criadores e objetos. Para ele, a experiência possibilitou que cada expositor imprimisse a marca específica de sua própria criatividade sobre o fragmento do tecido urbano que lhe foi confiado, seja ele cerâmica, madeira, cachaça, papel, etc. Esse tecido urbano interferido é pele de seu criador, à medida que emerge dele, do seu centro, do seu ser. O visitante poderia se aprofundar nesse aspecto oculto de cada fotografia, acessando um QR Code na sua parte superior, que o levava à vídeo-conferência realizada anteriormente ao evento.

Com esse composto foto-vídeo, o fotógrafo conquistou o Prêmio MADE Latina, escolhido pelo Conselho Consultivo da MADE como a melhor exposição do evento, que reuniu mais de 100 designers, artistas, galerias e coletivos, consolidando-se como plataforma de disseminação da educação e da cultura no setor.

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