Olhar para o leste

Paula Alzugaray

Publicado em: 04/11/2014

Categoria: Crítica, Review

Instalação de Dominik Lang e individual de Geta Bratescu no Inhotim ampliam acesso do público brasileiro a circuitos pouco explorados

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Legenda: Sleeping City (2011), instalação de Dominik Lang em exposição no Inhotim (foto: Daniela Paoliello)

Dominik Lang pertence a uma geração de artistas tchecos que começou carreira nos anos 1990, após a Tchecoslováquia abandonar o comunismo e diluir-se em dois Estados independentes. Nascido em Praga, em 1980, e residente na cidade até hoje, desenvolve uma obra estruturada sobre a apropriação de objetos e, nesse sentido, dotada de um caráter ecológico que orienta boa parte da produção artística contemporânea.

O artista diz estar interessado em “revelar o que não é visto, mesmo que esteja diante de nossos olhos” e, ao não inventar coisas novas, redireciona a atenção para o que já existe. Essa postura dá a diretriz da instalação The Sleeping City (2011), exposta na Galeria do Lago, no Inhotim.

The Sleeping City foi concebida para o Pavilhão da República Tcheca e da Eslováquia na 53ª Bienal de Veneza, e depois apresentada na Trienal do Palais de Tokyo, em Paris. Adquirida em 2012 para a coleção do Inhotim, está em exposição temporária em Brumadinho. A instalação foi criada a partir de esculturas de bronze realizadas pelo pai de Dominik Lang, Jiri Lang (1927-1996), que não conseguiu projetar sua obra em vida por não corresponder ao realismo demandado pelas regras do Partido Comunista. De traços francamente surrealistas, as esculturas do pai foram “enquadradas”, dispostas em vitrines ou articuladas entre si por barras de ferro. O resultado remete, em certo sentido, a uma sala de um museu etnográfico, mas vai muito além disso, produzindo um potente efeito metafísico de sobreposição de espaços e de temporalidades.

Outro artista recentemente adquirido pelo Inhotim é a romena Geta Br tescu (1926), um dos nomes mais importantes da vanguarda do pós-Guerra do Leste Europeu, que ganhou uma individual com obras feitas entre 1960 e 2013. As aquisições de Lang e de Br tescu sinalizam uma política da curadoria da instituição mineira – conduzida por Rodrigo Moura – de descentralização das narrativas na história da arte mundial, atentando para nomes não consagrados pelo circuito hegemônico. A inclinação em direção ao Leste Europeu também pode ser notada na mostra Artevida, cocuradoria de Moura e Adriano Pedrosa no Rio de Janeiro, que expõe obras dos croatas Sanja Ivekovic e Goran Trbuljak, do sérvio Mladen Stilinovic, do romeno Ion Grigorescu, do ucraniano Edward Krasinski (também na 31ª Bienal de SP) e da própria Geta Br tescu, exposta no módulo Corpo da expo Artevida.

Dominik Lang e Geta Bratescu, até maio de 2016 na Galeria do Lago, Centro de Arte Contemporânea Inhotim, Brumadinho (MG)

*Review publicado originalmente na edição #20

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