Olhares embotados

Gustavo Fioratti

Publicado em: 16/03/2015

Categoria: Crítica, Review

Até o dia 22 de março de 2015 o público de São Paulo pode conferir uma exposição com obras da maior coleção de videoarte do mundo

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Legenda: Obra de Kentridge resgata Viagem à Lua, de Méliês (foto: Cortesia do artista)

Para investigar a vocação do vídeo como um suporte que incorpora questões temporais da performance, Memórias da Obsolescência faz uma combinação precisa entre pioneiros (Marina Abramović, William Kentridge, David Lamelas entre eles) e jovens artistas (como o argentino residente em São Paulo Nicolas Robbio). O resultado é uma breve passagem por questões comuns a diversas gerações de artistas que catalizaram em suas criações o sentimento de viver em um período histórico iniciado no pós-bomba atômica, em que protocolos formais vão se estilhaçando na mesma medida em que a tecnologia avança e os valores morais deixam para trás os últimos resquícios do ideal romântico do século 19.

Parece uma feliz coincidência, mas é também sintomático que a Lua protagonize três dos trabalhos. Como símbolo, poderia condensar o espírito de suspiros poético (talvez no vídeo Moon Notes, de Leandro Katz, haja aspectos desse ideal). Mas a imagem do satélite acaba também sintetizando compressões do absurdo nos novos tempos.

Estudo das Relações entre Espaço Interno e Externo, vídeo de David Lamelas gravado no ano em que o homem foi à Lua (1969), mostra a opinião de passantes nas ruas de Londres sobre um “real significado” desse marco histórico para o homem. As respostas são quase sempre cômicas ou céticas. Uma mulher responde que “os homens são excitantes estando na Lua ou não”. Outro classifica a experiência como derivada de uma “tecnologia sem propósito”. Kentridge, por sua vez, resgata a conhecida imagem do filme Viagem à Lua, de 1902, em que um foguete acaba cravado no olho de um rosto impresso ao satélite. Só que, no lugar do foguete, o artista sul-africano brinca com uma cafeteira italiana voadora. Em texto sobre o trabalho de Kentridge, o curador Jesus Fuenmayor resgata um termo utilizado pelo artista, “embotamento”, em referência a uma “insensibilidade” intrínseca ao contemporâneo que “nos impede de vivenciar as coisas intensamente”. É uma chave para a exposição.

Há nesse espectro um caminho que revela obras lubrificando o ceticismo positivista com humor, como Nu Com Esqueleto, em que Marina Abramović, deitada, coloca sobre seu corpo um esqueleto humano. Ela respira; em sincronia, os ossos se movem. Para completar esse mosaico que busca cristalizar a imagem de um mundo cômico, absurdo e não por isso menos trágico, Espectros Urbanos, da panamenha Donna Conlon, sobrepõe ao skyline de uma cidade, em primeiro plano, colunas feitas com tampinhas. Além do conjunto apresentado no Paço das Artes, a mostra de obras da coleção Ella Fontanals-Cisneros conta também com projeções no Museu da Imagem e do Som.

Memórias da Obsolescência até 22⁄3, Paço das Artes, Av. da Universidade, 1, Cidade Universitária, SP

*Review publicado originalmente na edição #22

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