On the rocks

Felipe Chaimovich

Publicado em: 26/05/2012

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

Em cruzeiro de Punta Arenas, no Chile, até Ushuaia, na Argentina, bebe-se uísque com glaciares e descobrem-se os meandros do sabor e da história geológica da água em estado sólido

Glaciar

O gelo é propagandeado pela indústria do turismo como atração singular da visita aos glaciares sul-americanos. No trajeto até as colossais formações, serve-se uísque com pedras das geleiras centenárias. Assim, contemplamos o desmoronamento de paredes inteiras de cristal azul chupando pedaços dos escombros, num suave torpor.

A viagem é feita por água. Chega-se aos glaciares em pequenos botes, que também trazem o serviço de bebidas. No final da excursão, são oferecidos chocolate quente e uísque, que podem inclusive ser tomados juntos. Mas a peça ornamental desses bufês ao ar livre é sempre o balde de gelo repleto de pedregulhos irregulares.

Os glaciares são formados pela compactação de neve. O acúmulo de sucessivas camadas expulsa o ar pela pressão: o bloco forma-se quando a porcentagem de ar na água sólida cai de 90 para 20. O processo torna o glaciar dinâmico, pois está sempre mudando de forma, seja retrocedendo, seja avançando.

O gosto pela neve compactada levou ao desenvolvimento de diversas tecnologias que permitissem conservá-la ao longo das estações quentes. Nos parques palacianos e em algumas cidades europeias, havia as neveiras cônicas enterradas no solo, nas quais se depositavam neve e gelo no inverno, para o abastecimento das cozinhas ao longo do ano. Com a popularização das geladeiras, os cubos de gelo tornaram-se onipresentes.

Entretanto, a pressão a que a neve é submetida nos glaciares diferencia seus fragmentos do gelo doméstico. Como a água vai sendo compactada aos poucos, o ar é concentrado em esferas, o que deixa a parte sólida do gelo muito dura. Ao derreter, os pedaços de glaciar formam múltiplas concavidades irregulares e pontas, que, chupadas, se convertem em áreas de fértil exploração para a língua.

No roteiro de Punta Arenas até Ushuaia, o navio chileno Stella Australis, de 2010, prepara duas degustações de glaciar ao longo dos cinco dias de navegação pela Patagônia.  A primeira é feita após uma caminhada pela Baía de Ainsworth e o uísque é servido a 10 metros de uma família de elefantes-marinhos indiferentes aos humanos. A segunda é feita diante do glaciar Pia, que, como a maioria dos glaciares, está diminuindo. Vemos, pelas formações vegetais que avançam lentamente sobre o solo rochoso da região, que os períodos de glaciação foram muitos, marcados por mudanças na temperatura do planeta. O atual aquecimento da superfície da Terra soma-se como mais um momento em uma longa história de eventos visíveis nas camadas geológicas, expostas aos turistas afeitos a caminhadas. Antes de regressar ao conforto do barco, somos aquecidos por um gole rápido, seguido do contato com a pedra de gelo dura e irregular que teima em não se acabar.

No ano do centenário do naufrágio do Titanic, provar o gosto da geleira guarda algo de fi m dos tempos. Mas, ao deixar o Pia e entrar na Avenida dos Glaciares, no braço noroeste do Canal de Beagle, vemos que os ciclos milenares do gelo têm sua própria dinâmica. O frio na boca do estômago diante de uma natureza catastrófica é temperado pelo sistema de open bar do cruzeiro.

Felipe Chaimovic é doutor em filosofia pela USP, curador e professor da Faap. Autor de Greenberg After Oiticica, em The State Art Criticism (Routledge).

*Publicado originalmente na edição impressa #5.

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