Onde o debate acontece

Sociedade reage contra fechamento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural, em defesa da arte como arma política para a desestabilização de noções hegemônicas de gênero e sexualidade

Paula Alzugaray
Cena de Interior II (1994), de Adriana Varejão (Foto: Eduardo Ortega)

Nosso país dos extremos e das contradições foi um dos primeiros a permitir a adoção para casais homoafetivos e a disponibilizar antirretrovirais para o HIV. Ao mesmo tempo em que se destaca em algumas políticas públicas favoráveis à comunidade LGBT, aqui é o fim do mundo: primeiro lugar em assassinatos de transexuais e travestis e quinto em feminicídios. No país em que juízes acatam estupradores seriais presos em flagrante, a justiça federal favorece a patologização do comportamento homoerótico e uma exposição de arte é arbitrariamente encerrada após manifestações críticas, a sociedade como um todo coloca-se em perigo.

O debate que o Santander Cultural não promoveu a respeito do incômodo que três obras da exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” gerou em uma parcela de sua carteira de clientes é uma urgência reconhecida por diversas instituições brasileiras – como o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP, que na terça 19 realizou discussão pública com antropólogos e cientistas sociais sobre o erotismo e a pornografia em usos artísticos e políticos; o Itaú Cultural, que em maio realizou a quarta edição da mostra de arte e diversidade Todos os Gêneros; ou o Masp, que dedicou toda sua programação de 2017 a temas relacionados à sexualidade.

O QUE VEMOS, O QUE NOS OLHA Masp concede ao público a liberdade de ver, ou não, conteúdos da mostra “Pedro Correia de Araujo: Erótica”. Sexualidade é tema da programação em 2017 (Foto: Paula Alzugaray)

 

O caso Queermuseu cria uma grave lacuna no histórico de abertura que as instituições brasileiras estão demostrando no que toca a revisão de identidade de gênero, de sexualidade e afetividade. Ao encerrar a mostra alegando chancelar a arte em sua pluralidade, mas sem a devida escuta de parcela substancial da sociedade, a instituição manifesta obtusa contradição. Na realidade, o que chancela é a opinião de que “Cena do interior II” (1994), de Adriana Varejão, é uma apologia à zoofilia, ignorando o caráter crítico ao colonialismo da obra dessa artista, aspecto vastamente estudado por pesquisadores do estatuto da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz.

“Esta é uma obra adulta feita para adultos”, diz Adriana Varejão à seLecT. “A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as shungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil. O trabalho não visa julgar essas práticas. Como artista, apenas busco jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas. É um aspecto do meu trabalho, a reflexão adulta”.

“A maior parte das pessoas que atacaram as obras sequer tomaram conhecimento do contexto no qual elas se inseriam”, diz a advogada Juliana Campos, autora do texto de uma petição popular argumentando a anticonstitucionalidade da anulação do direito à cultura e à liberdade de expressão. “Isso é desinformação compartilhada e viralizada. Muitas pessoas contrárias à mostra sequer se abriram à discussão, mesmo diante de comprovações de que não havia nenhuma ilegalidade nas obras. As pessoas se baseiam em um desconhecimento das pautas para atacá-las e reproduzem assim intolerância e perseguição ao diferente”.

REAÇÃO Cartaz de recém-criada frente de oposição à censura, diante de obra da mostra “Não Matarás”, no Museu Nacional da República (Foto: Wagner Barja)

 

Ainda que reações ultraconservadoras não sejam exceção no Brasil, este foi o primeiro caso de censura consumada a uma exposição. Mas, a julgar pela reação pública – não apenas em redes sociais mas em ambientes nada virtuais –, a tolerância a atos extremistas será zero. “Essa onda fundamentalista gerada pela interrupção da exposição no Santander tem que parar já”, diz o artista Wagner Barja, diretor do Museu Nacional da República, em Brasília, após a visita de pretensos censores da bancada evangélica à exposição “Não Matarás”. Com 47 artistas brasileiros, a curadoria de Wagner Barja aborda a reação artística à Ditadura Militar.

A resposta do museu à “inspeção” evangélica foi convocar um encontro na terça 19, formando uma frente suprapartidária de parlamentares em favor da liberdade de expressão. “Será que não percebem o retrocesso e o atraso que isso causa à indústria das artes?”, continua Barja. “Estou falando de economia criativa, que numa crise dessas é a única saída para uma imensa cadeia produtiva da cultura. Exposições censuradas, terreiros de umbanda queimados, índios chacinados e por aí vão destruindo nossas referencias simbólicas mais significativas.”

É sabido que a arte é um potente campo social de desestabilização das noções hegemônicas de gênero, sexualidade e raça, e tem papel central entre táticas micropolíticas de resistência. Mas não seria inoportuno assumir sua função de arma política. Se existe um tempo em que o mundo precisa dos artistas na política, esse momento é agora.

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