Opinião para gritar, opinião para silenciar (1968-2018)

Diante da possível eleição de um projeto autoritário de poder e silenciamento, é preciso confrontar ideias vagas com gestos claros

Paulo Miyada
O Presente (1967-2018), de Cybèle Varela (Foto: Ricardo Miyada)

Uma forte hipótese apresentada pelo crítico Roberto Schwarz no artigo Cultura e Política, 1964-1969apontava para a relativa hegemonia cultural de esquerda no país no período que se sucedeu ao golpe civil-militar em 1964 até a promulgação do AI-5 em dezembro de 1968. De fato, é notável o fôlego e multiplicidade da expressão crítica nesse período, em que o envelhecimento das estratégias tradicionais de engajamento e o afunilamento das práticas políticas institucionais pela ditadura foram respondidos pela voracidade vital da juventude contracultural da década de 1960.

O resultado foi uma produção cultural distante dos modelos clássicos de organização coletiva: o manifesto, o partido e o programa. No vácuo desses modelos, fortaleceu-se a ideia de opinião, palavra que não por acaso foi adotada como título para shows, companhia de teatro, exposições de arte, feira cultural e até jornal. Opinião é a expressão motivada por um compromisso ético, mais do que pela filiação a um partido; ela se molda espontânea e individualmente, ainda que em contextos de troca e colaboração coletiva; é o grito rápido que se lança no calor do momento. Pode ser rápida e superficial demais, mas compensa por sua energia disruptiva e cativante.

A preocupação primeira do regime militar em relação à arte, à cultura e à educação, havia sido desmobilizar as iniciativas progressistas que tinham escala e estrutura institucional, as quais talvez tivessem tido potencial de transformar o horizonte cultural do país se tivessem durado pelo menos mais uma década: o programa de ensino e pesquisa integrados da Universidade Nacional de Brasília (UnB), a iniciativa popular de educação e cultura do Movimento de Cultura Popular de Pernambuco (MCP) e o Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (CPC da UNE).

Vista da exposição AI-5 50 ANOS – Ainda não terminou de acabar, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até 4/11 (Foto: Ricardo Miyada)

 

Desarticulados esses e outros polos, restou à produção experimental de arte, teatro, música e cinema servir de incubadora para processos ágeis de troca de opiniões, tendo as pulsões contestadoras dos indivíduos como combustível e os processos coletivos como catalizadores. Foi isso que se cristalizou nos movimentosda época, que receberam nomes mais e menos adequados, como Tropicália, Nova Figuração, Novo Realismo e Pop. A reflexão mais articulada sobre as ambições e modos de atuação dessa geração, tendo o campo das artes visuais como baliza, segue sendo o texto de Hélio Oiticica Esquema Geral da Nova Objetividade (1967).

É o que tenta explicitar a sessão inicial da mostra AI-5 50 Anos Ainda não terminou de acabar, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até 4 de novembro. Entre obras, documentos e depoimentos, a produção desse momento apresenta-se como uma das mais inventivas e dinâmicas de nossa história. Discute-se, então, como as estratégias de repressão oficializadas pelo AI-5 serviram justamente para coibir a própria opinião, que se tornou criminalizável assim que as garantias básicas de livre expressão foram suspensas. Com isso, demoliu-se o fundamento poético e ético que deu corpo à produção artística de 1960. Não foi à toa, portanto, que o fim dessa década se fez repleto de obras limítrofes: fins de linha, pontos de ruptura, obras absurdas e gestos de despedida. Era a morte da opinião.

Há vários exemplos que podem ser vistos como atestado dessa violência. Há a prisão e o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, referenciado na mostra pelo disco que antecedeu a ida da dupla para Londres, um texto que Caetano publicou no Pasquim em 1969, um depoimento inédito de Gil e as tocantes letras de Aquele abraçoe Com medo, com Pedro” – esta última uma paradoxal ode à alegria diante do nascimento do filho quando o pai nem bem sabia se um dia poderia voltar a seu país.

Sem Título (1970-1972), de Carlos Zilio (Foto: Ricardo Miyada)

 

Outro exemplo que merece destaque na história da arte brasileira é a série de desenhos que Carlos Zilio fez enquanto preso político. Desde o final de 1967, o artista procurara radicalizar a vocação social, política e comunicacional de sua arte, até o ponto em que abandonou a arte para dedicar-se integralmente a ações diretas de luta política, primeiro no movimento estudantil e depois na guerrilha urbana. Já na clandestinidade, Zilio esteve próximo da morte após ser baleado 3 vezes em conflito com policiais em 1970. Desde seu período de internação e durante os dois anos e meio em que permaneceu preso, retomou a prática do desenho utilizando materiais simples entregues por familiares. O trabalho resultante dessa reaproximação com a arte é também um reencontro com princípios visuais da Nova Figuração, como o uso majoritário de preto, branco, amarelo e vermelho, o tratamento gráfico da imagem e a composição alegórica estruturada por linhas marcadas, formas geométricas e elementos em perspectiva isométrica. Ao mesmo tempo, é impactante reconhecer como, de dentro dessa sintaxe originalmente desenvolvida para a livre expressão de ideias críticas, emerge uma espécie de diário do cárcere, com ampulhetas, caixotes ensanguentados e gritos de agonia. Trata-se, simultaneamente, do ápice e da ruptura do projeto estético e político de uma geração.

Aos Poucos, da série Fotopoemação (1976-2010), de Anna Maria Maiolino (Foto: Ricardo Miyada)

Na década de 1970, surgiram outras formas de expressão, muitas delas adaptadas para evadir a censura. Algumas optavam por circular em redes subterrâneas e incorporar códigos e táticas conceituais que deixavam os censores no escuro. Outras caminhavam para experimentações não-verbais, em que a pulsão de vida e desejo era a maior subversão. Modos de dizer quando nada pode ser falado – resistências sufocadas e auto-marginalizadas. Demorou demais para que a opinião voltasse a correr livre neste país.

Hoje, existe liberdade de expressão, embora a censura siga à espreita e realize experimentos com argumentos morais, supostamente defendendo costumes e crenças. Testes assim existem no país desde os tempos da República Velha e os anos da ditadura são exemplares de como é fácil fazer deslizar a censura, uma vez aceita como norma, para perseguições políticas e ideológicas.

Mais desnorteante ainda é pensar que a era das comunicações digitais catapultou a opinião a um patamar inédito: uma espécie de atrofia da opinião, tornada compulsória e histérica, até a reversão de seu potencial crítico. Estamos na iminência do que será a primeira eleição presidencial em que o vai e vem de opiniões em redes eletrônicas poderá ser mais volumoso e decisivo do que as modalidades tradicionais de propaganda política. O problema é que, agora, o qualificador mais marcante das opiniões é seu fluxo e volume, não seu conteúdo. Circulam com eficácia indistinta mensagens informativas e discursos de ódio, notícias factuais e fake, muitas vezes processadas por algoritmos de funcionamento opaco. As sessões de comentários dos sites de notícias são uma significativa metonímia desse fenômeno.

História Política Administrativa, Social e Econômica do Brasil (1990), de Paulo Bruscky e Daniel Santiago (Foto: Ricardo Miyada)

 

O resultado contraditório dessa dinâmica pode ser a eleição de um projeto autoritário de poder e silenciamento, impulsionada por um maremoto de opiniões raivosas sobre nossa frágil democracia e suas instituições desmoralizadas. Ápice e ruptura da opinião, outra vez.

Em reação, há quem queira restringir a palavra ao monopólio dos notáveis mas essa é uma hipótese impossível e reacionária. Alguma alternativa, talvez, possa se inspirar naquela geração da década de 1960. Olhando para eles, podemos dizer: é preciso confrontar as ideias vagas com os gestos claros; é preciso arriscar atitudes que coloquem à prova os princípios das ideias abstratas que se quer defender. Transbordar os compartilhamentos digitais e dar consequência responsável às opiniões, colocando credibilidades, trajetórias e corpos em linha com a defesa de projetos democráticos – e o museu nem sempre será uma das arenas para isso, a rua está aberta e amanhã deverá estar tomada.

Pois hoje, como ontem, a omissão tem gosto de submissão.

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