Os refugiados do fim do mundo

As soluções de Donna Haraway, Naomi Rincón Gallardo e Anna Tsing para a "beira da extinção" no plantoceno

Nina Gazire

N° Edição: 52

Publicado em: 25/04/2022

Categoria: A Revista, Destaque

Detalhe da videoinstalação Resiliência Tlacuache (2019)

Poucas teóricas foram tão longe ao imaginar um mundo multiespécies e suas implicações à beira da extinção como a bióloga Donna Haraway e a antropóloga Anna Tsing. No cenário do Antropoceno, uma das grandes problematizações que a malfadada era geológica nos traz é o questionamento urgente sobre a agricultura e a sua fixação em monoculturas. As cientistas vão além e questionam “até que ponto as plantas também não nos moldam e nos cultivam?”

Em 2019, ao participarem do seminário Edge Effects, pro- movido pela revista homônima da Universidade de Wis- consin, Haraway e Tsing trouxeram à luz mais uma anto- nomásia para o Antropoceno. Denominado Plantationcene – em português, algo como Plantoceno –, o termo é uma alternativa ao etnocêntrico Antropoceno: cristão, hetero- normativo, dualista, cisgênero, branco e machista. O que não significa que o termo alternativo para nomear a atual era geológica possa ser sinônimo de algo positivo, porém, uma nominação mais exata “não se subtrai ao termo já existente, e sim propõe algo a se pensar”, afirma Tsing.

Apocalipse no plantoceno
Algo antecipado pelas Utopías Piratas (2012), trabalho da artista norte-americana Naomi Rincón Gallardo, que viveu a maior parte de sua vida no México. Gallardo propôs uma máxima ao acompanhar a deriva do grupo de artistas punks JAR – Juventudes Autoritárias Revolucionárias: “Nenhuma história é totalmente compreensiva ou imparcial”. O mesmo pode ser dito sobre o Plantoceno de Haraway, que quer incluir na narrativa o consumo insaciável e voraz da vida do planeta pela engrenagem capitalista. “O Plantoceno força a atenção para o cultivo dos alimentos e das plantações como um sistema de trabalho forçado multiespecífico (…). A plantação depende de formas muito intensas de escravidão no trabalho (…). Considero importante incluir também o trabalho forçado de não humanos – máquinas, plantas e micróbios – em nosso pensamento”, afirmou Haraway no seminário. 

Utopías Piratas antevê cenários revolucionários, onde o corpo se libera dessa engrenagem, uma vez que Naomi Rincón Gallardo exerce radicalmente a conversão da realidade em histórias especulativas que descreve como “surrealismo mítico-crítico”. Partindo de uma metodologia de pesquisa não hierárquica, Gallardo compila entre- vistas, textos teóricos, testemunhos de resistência contra a lógica necropolítica de desapropriação e destruição, para criar uma espécie de cinema experimental queer do ponto de vista do desejo, em que os personagens representam identidades e trânsito fluidos entre seres humanos e não humanos. 

Anna Tsing em Feral Biologies, artigo de 2015, sugere que o ponto de inflexão do Plantoceno pode eliminar a maior parte dos refúgios, a partir dos quais diversos grupos de espécies (com ou sem pessoas) poderiam ser reconstituídos após eventos extremos (como desertificação, desmatamento). Haraway argumenta que, neste momento, a terra está cheia de refugiados, humanos e não humanos, e sem refúgios. Desse ponto de vista, o trabalho Utopías Piratas é um exercício de pedagogia crítica e ativismo para esse cenário, onde a pesquisa queer feminista, por meio de autopublicações, leituras de tarô e videoclipes, denuncia as hegemonias patriarcais, assim como foram propostas as Utopias Piratas (2001) do livro de Peter Lamborn Wilson. 

Estudos para Resiliência Tlacuache (2019), de Naomi Rincón Gallardo, apresentados no projeto The Backroom, do Museo Tamayo, Cidade do México

Utopia para o plantoceno
“Penso que mais do que um grande nome, na verdade, é preciso pensar num novo e potente nome. Assim, Antropoceno, Plantoceno. (…) Insisto que precisamos de um nome para as dinâmicas de forças e poderes ctônicos em curso, das quais as pessoas são uma parte. Talvez, mas só talvez, e apenas com intenso compromisso e trabalho colaborativo com outros terranos (leia a definição do conceito na seção Mundo Codificado), será possível fazer florescerem arranjos multiespécies ricos, que incluam as pessoas”, afirma Donna Haraway no artigo Antropoceno, Capitaloceno, Plantoceno, Chthuluceno: Fazendo Parentes (2018). 

A artista Naomi Rincón Gallardo formula uma crítica ao eurocentrismo, ao extrativismo e ao credo do desenvolvimento a partir de uma perspectiva feminista, decolonial e antirracista. Em várias de suas obras é possível presumir a tentativa proposta por Haraway de criar parentes, que contém uma história do “estar entre”. Seu trabalho Sangre Pesada (2018), um dos destaques da 34a Bienal de São Paulo, tem como ponto de partida uma investigação sobre a mineração em Zacatecas, no centro-norte do México, onde a extração da prata se iniciou no século 16. Na videoinstalação em três canais, a artista coloca em fricção os saberes e mitos locais e a herança destrutiva dos processos coloniais e neocoloniais de exploração predatória. “Isso transforma a paisagem em um local de constante inquietação na esteira do abuso da industrialização”, explicou a artista na ocasião em que a obra foi apresentada na Bienal de Berlim, em 2020. “O México, atualmente, representa muitos dos sintomas da crise do pensamento ocidental e modernizador. Luta entre construir sobre sua promessa industrial de diminuir os problemas sociais e lutar pela preservação do patrimônio natural e cultural de seus ancestrais, deixando para trás um território árido, devastado e cheio de vestígios do que foi ou poderia ter se tornado, com uma terra que respira o rescaldo da confusão sobre as diferentes concepções de um mundo artificialmente irracional, criando um cenário fantasmagórico.” 

Em Resiliência Tlacuache, Naomi Rincón Gallardo incorpora um gambá sagrado do povo Zapoteca

Pergunte ao gambá de Oaxaca
A instalação dialoga com aquilo que Haraway aventa no texto Antropoceno, Capitaloceno, Plantoceno, Chthuluceno: Fazendo Parentes sobre a questão ir além das “mudanças climáticas”. Trata-se também da enorme carga de produtos químicos tóxicos, de mineração, de esgotamento de lagos e rios – sob e acima do solo –, de simplificação de ecossistemas, “de grandes genocídios de pessoas e outros seres, em padrões sistemicamente ligados que podem gerar repetidos e devastadores colapsos do sistema”.

No projeto digital The Backroom, iniciado em 2005 pela diretora do Museo Tamayo, Magali Arreola, com um grupo de curadores independentes de diferentes nacionalidades, é possível consultar vários documentos relacionados à obra Resiliência Tlacuache (2019), de Naomi Rincón Gallardo, em que singularidades comunitárias são atribuídas a diversos seres híbridos imaginários e míticos em diálogo com a espécie de gambá conhecido como Tlacuache, e sua proteção para a defesa de territórios.

A seleção inclui fragmentos de vídeos descartados, imagens de seu blog pessoal, parte da trilha sonora e um fragmento de entrevista com Claudia López Terroso, curandeira do Istmo de Oaxaca. O trabalho é dedicado a Rosalinda Dio- nicio, ativista e advogada que lutou contra projetos de mineração na região. O trabalho Resiliência Tlacuache (2019), propriamente dito, é também inspirado por uma série de entrevistas realizadas com a ativista zapoteca, que está envolvida na defesa de um território onde uma empresa canadense construiu uma mina. Rosalinda Dionicio sofreu um atentado em uma emboscada, mas sobreviveu.

“Resiliência Tlacuache é um trabalho ficcional, no qual convergem quatro personagens que se encontram em um território ameaçado pela mineração. Escolhi tlacuache (nome dado no México e na América Central aos gambás), porque chamam de tlacuachitos aquelas pessoas que suportam muitos ataques e golpes: esses animais, quando tentam roubar galinhas, são espancados, mas eles têm a capacidade de se fingir de mortos. Assim, na emboscada pensaram que tinham conseguido acabar com a vida da ativista, mas ela conseguiu se salvar. É um trabalho que sobrepõe a criação do mundo ao conflito mineiro e que se alimenta de mitos centro-americanos”, explica Gallardo.

Uma maneira de viver e morrer bem, como seres mortais no Chthuluceno, no Capitaloceno e no Plantoceno, é unir forças para reconstituir refúgios, como propôs Anna Tsing; para tornar possível uma parcial e robusta recuperação e recomposição biológica-cultural-política-tecnológica, que deve incluir o luto por perdas irreversíveis, como afirma Haraway, que se diz também “uma compostista, não uma pós-humanista: somos todos compostos, adubo, não pós-humanos”.

O limite que é o Antropoceno/Capitaloceno/Plantoceno significa muitas coisas, incluindo o fato de que a imensa destruição irreversível está realmente ocorrendo. Não só para os cerca de 11 bilhões de pessoas que vão estar na Terra perto do fim do século 21, mas também para uma miríade de outros seres. “À beira da extinção” não é uma metáfora; e “colapso de sistema” não é um filme de suspense. Pergunte a qualquer refugiado, de qualquer espécie, assim como Naomi Rincón Gallardo indaga os tlacuaches, punks e restos de mineração em suas narrativas do fim do mundo.

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