Os ventos que sopram aqui

34ª Bienal de São Paulo realiza a mostra Vento entre o vazio dos espaços físicos e temporais

Deri Andrade

Publicado em: 21/12/2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Experimentando o vermelho em dilúvio (2016), de Musa Michelle Mattiuzzi (Foto: Cortesia Bienal de São Paulo)

Na abertura de Vento, essa que é uma síntese da 34ª Bienal de São Paulo, fragmentada no espaço-tempo em detrimento da nova dinâmica imposta pela maior crise sanitária da humanidade, a performance de Paulo Nazareth, transmitida ao vivo nos canais digitais da Fundação, já enunciava a vontade de um sopro de respiro. Nazareth performava [A] A Flor da Pele (2019-2020) pela primeira vez no Brasil na exposição que ocorreu entre novembro e dezembro de 2020, período em que estaríamos visitando a grande mostra da Bienal, adiada para 2021, não fosse pela pandemia que forçou o fechamento dos espaços culturais, atrasando o calendário expositivo das artes.

No imponente pavilhão de portas fechadas, Nazareth realizava a ação com três imigrantes de origem africana que vivem em São Paulo. Dois homens lançam facadas em um saco de algodão suspenso, deixando escorrer a farinha de trigo ali armazenada, tomando o espaço desenhado por Oscar Niemeyer. Uma mulher, então, varre o pó que ocupa o chão, quase como um ato de limpeza das feridas abertas pelos epistemicídios movidos pela cultura ocidental branca. Esse mote, aliás, é a ponta de lança de Experimentando o Vermelho em Dilúvio (2016), filme de Musa Michelle Mattiuzzi. Do alto do primeiro pavimento do prédio da Bienal era possível assistir ao vídeo, enquanto observávamos o registro da obra de Nazareth, em segundo plano, no térreo.

La Fleur de la Peau (2020), de Paulo Nazareth (Foto: Cortesia Bienal de São Paulo)

O diálogo entre os trabalhos, por sua vez, apresenta-se para além da expografia propositalmente espaçada que reúne, no total, 21 artistas em Vento. Os dois atos poéticos de Nazareth e Mattiuzzi rememoram as violências que a população negra tem sofrido por séculos, aproximando contextos e territórios. A mesma simbiose pode ser observada em Deana Lawson, no trabalho Sem Título (Provisório), de 2018. Aqui, a artista norte-americana, que teve sua individual como parte da 34ª Bienal cancelada, reflete sobre tempo histórico e tempo presente. O retroceder das imagens registradas em grandes eventos esportivos, religiosos e musicais nos EUA e na África, observadas na segunda parte do vídeo que compõe a obra, é o rastro de uma diáspora em constante diálogo. Longe de anacronismos, o que se coloca em consonância é a possibilidade de encontros nesses deslocamentos.

Esse vértice é o cerne de Vento. A relação espaço-tempo dá-se enquanto herança de uma memória friccional. É nesse curso que acontece a obra de Ximena Garrido-Lecca, que inaugurou o primeiro movimento da Bienal em fevereiro de 2020. Permanecida no prédio que esteve fechado por meses, a obra-cultivo Insurgências Botânicas: Phaseolus Lunatus (2017-2020) recebe agora seu público com soberba. Na instalação alegórica que teve suas plantas murchas e reavivadas novamente, a permanência desse passado sistêmico estabelece conexões com a nossa época. Ainda assim, a instância do agora é que dita as regras do que virá em seguida. 

Na impossibilidade do estar junto, fazer junto e viver em comunidade, o que toma corpo é a rotina do isolamento social e seus rigorosos protocolos de segurança. Isso se reflete na exposição como resultado de uma tensão constante de imprevisibilidade. Nesse sentido, os trabalhos de Koki Tanaka, que recepcionavam o visitante no térreo do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, eram exímios representantes do improviso. Apesar de terem sido produzidos em outros contextos, os vídeos surgem como uma analogia ao experimento proposto pelos curadores Jacopo Visconti Crivelli e Paulo Miyada.

Em Vento, a sensação é de uma Bienal que se redime, deglute-se e olha para si. Ao passo que se abre para a cidade, ao propor parcerias com instituições como Pinacoteca de São Paulo, MAC-USP, MAM-SP e Centro Cultural São Paulo na realização de eventos em rede, a 34ª Bienal indica em sua própria subjetividade os caminhos para mudanças, sejam essas estruturais ou simbólicas. Assim como em Wind [Vento] (1968), filme de Joan Jonas que empresta seu título à exposição, no qual assistimos aos esforços de bailarinos que lutam contra um gélido vento em Long Island, Nova York, no dia mais frio daquele ano, o que observamos é uma vontade de preenchimento desses vazios movidos pelo vento, pelo tempo e pela memória. Se os ventos que sopram aqui coreografam tentativas de diálogos com o nosso contexto atual, desejamos que essa mesma brisa infle transformações que reverberem para além desta edição. 

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