Osvaldo González: O que eu faço é pintura 

Artista cubano fala sobre interesse pelo neoconcretismo brasileiro e de obras que mostra na SP-Arte 

Paula Alzugaray

Publicado em: 12/04/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Entrevista

Pavilhão Ciccillo Matarazzo, da série La Clase de Oscar (2022), de Osvaldo González

A abstração como forma de representação da realidade. Esse é o fio condutor da obra de Osvaldo González, que esteve no Brasil em janeiro para “experimentar” a arquitetura de Oscar Niemeyer e voltou a São Paulo para apresentar os resultados de sua pesquisa no estande da Galleria Continua, na SP-Arte 2022. A série se chama La Clase de Oscar (2022) [A Lição de Oscar], composta de fita adesiva e acrílico, mesmo material com que o artista fabrica suas instalações site-specific. Em entrevista à seLecT, González fala sobre seus mestres, professores e referências e sobre a descoberta da obra de Ione Saldanha. 

O que você mostrou na SP-Arte?
Primeiro eu deveria te contar que eu estudei pintura e meu fazer artístico sempre esteve ligado à abstração como metodologia. Minha pintura e meu trabalho instalativo se reportam a esse pensamento abstrato. A abstração, afinal, não é nada mais que uma forma de representar a realidade. Com essa série de obras exibidas na SP-Arte sucede que eu estava dando voltas à ideia de como gerar um tipo de obra que adquirisse a sensação de representação da realidade em 3D, mas a partir do plano. Foi a partir dessa preocupação, formal sobretudo, que comentei essas ideias com Akio [Aoki, diretor da Galleria Continua de São Paulo], e ele me propôs vir ao Brasil conhecer e me relacionar fisicamente com a obra de Oscar Niemeyer. Em janeiro vim a Brasília e a SP, tive a sorte de ver este edifício [Pavilhão da Bienal] vazio. A cabeça pensa a partir de como o corpo vê e sente o espaço fisicamente, e essas experiências se conectaram a ideias que eu vinha tendo. Representar esses espaços construídos por Niemeyer era o pretexto para começar a falar de um espaço abstrato. La Clase de Oscar é, então, um devir de ideias, dentro de uma série de supostas “lições” que venho aprendendo, ao longo de minha carreira, com artistas referenciais.

  • Obras de Osvaldo González no estande da Galleria Continua, na SP-Arte 2022
  • Obras de Osvaldo González no estande da Galleria Continua, na SP-Arte 2022

Quais são os artistas referenciais em seu trabalho?
Em pintura tenho uma série chamada La Clase de Memoria, com trabalhos que são lições que os artistas me dão. Entre elas, La Clase de Morandi, La Clase de Cézanne e La Clase de Hockney. Essa série reflete uma construção mental: como eu entendo a obra desses artistas, os pressupostos formais e conceituais de seus trabalhos, que eu trago para o meu. É como digerir toda a informação sobre esses artistas e pensar como você a traduz, de modo que o resultado final respire a essência da obra deles, em termos de forma, cor… é uma investigação que tem a ver com a linguagem da pintura.

A arquitetura já havia sido uma referência de sua pesquisa?
Meu trabalho fala de espaço. E os espaços que construo nesse tipo de obra são pretextos para narrativas, histórias muitas vezes relacionadas à minha experiência pessoal. Sou alguém que gosta muito de contar histórias, conversar… Tomei essa ,em determinado momento do meu trabalho, de falar de mim mesmo, porque era a única maneira de me conectar com mais pessoas. Entendo que a ideia em arte é importante, mas a ideia tem de ser genuína, tem de partir de uma experiência. Afinal, o que muda é a geografia, mas somos todos iguais: acordamos, levantamos, trabalhamos, sonhamos. Minha experiência não me faz alheio a uma pessoa que vive em Copenhague. 

Com exceção das aulas de Oscar, as aulas que você cita são de artistas europeus ou estadunidenses. Que outros artistas latinos foram seus “professores”?
A relação mais estreita que tenho com artistas cubanos é o movimento do construtivismo. A arte concreta em Cuba alcançou um nível alto, muito alto. De 2007 até 2012, quando decido me dedicar somente à pintura, minha maneira de estudar arte era ir todos os dias ao Museo Nacional de Bellas Artes de Cuba. Ia diretamente para o setor de pintura abstrata para tratar de entender sua lógica, processos e estratégias de enfrentamento. Quanto ao estudo da arte internacional, é uma parte importante da Escola de Arte em Cuba. Apesar de eu trabalhar também com site specific e obras instalativas, minhas referências são sempre pictóricas. Porque o que eu estudei foi pintura, e o que eu realizo entendo a partir de um pensamento pictórico.

O que te interessa então é a arquitetura da pintura?
Exatamente. Tem muito a ver com a linguagem. A maior parte da minha geração em Cuba, quando estudei no instituto de artes, desenvolvia um pensamento a partir da linguagem da pintura. Alejandro Campo, por exemplo. A ideia sempre é importante, é um fio condutor. Mas entendo a obra como um processo, ou, como você diz, como uma arquitetura, uma trama, uma forma de entender o mundo. 

Foi influenciado pelo construtivismo russo? E do Brasil?
Russo, não, gosto mais do cubano. Conhecia a obra de muitos artistas neoconcretos do Brasil, mas não era algo que eu tinha como referência, por um problema de cultura geral. Quando estive aqui em janeiro, fui ao Masp e tive a sorte de ver uma exposição retrospectiva de Ione Saldanha. É incrível como, visualmente, a obra de Ione se conecta com muitos resultados a que eu havia chegado por outras vias. Os concretos são definidos por linhas perfeitamente retas, planos exatos. A obra dela é muito interessante porque, sim, há uma relação com a linha reta e com a geometria, mas não é perfeita. Essa imperfeição que encontrei na obra dela, que revela a presença da mão da artista, porque a mão treme… foi alucinante. Foi uma experiência muito rica, uma sensação mesmo. 

Então Ione Saldanha tem o potencial de te dar uma aula?
Certamente, sim. 

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