Outra leitura da exposição de Ana Prata

Douglas Rosado

Publicado em: 07/06/2012

Categoria: artes visuais, Crítica

Talvez a famosa “cordialidade brasileira” e teorias datadas e rasas, como a da estética relacional, expliquem a ausência de crítica no Brasil

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Legenda: Desaparecido, pintura de Ana Prata que integra a exposição E também o Elevador, o Vulcão e o Jantar, no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Divulgação)

Retornei alguns meses atrás. Como amante das artes e dono, juntamente com meu partner, de uma modesta coleção, acompanhava, à distância, as movimentações no Brasil de um mercado que diziam estar em ebulição. Não foi bem isso que percebi, mas não é este meu assunto. Na verdade o que motivou-me a escrever foi uma certa incompreensão e até desânimo ao me deparar com a ausência de uma crítica séria, isenta e desvinculada do artista, ou seja, centrada em seus trabalhos, que ajudasse a pensar a produção contemporânea de forma a torna-la mais consistente. Talvez a famosa “cordialidade brasileira” (nome pomposo para o bundamolismo mesclado com hipocrisia) e teorias datadas e rasas, feitas sob medida não para compreender alguns trabalhos mas para aclimata-los ao mercado, como a da estética relacional (parece que seu criador tem muitos seguidores nestas terras tapuias), expliquem um pouco por que isso acontece.

Sendo assim… vi, recentemente, a exposição da artista Ana Prata que está até ao dia 17 de junho no instituto Tomie Ohtake com curadoria de Paulo Miyada e Diego Matos. Ana Prata faz parte de um determinado grupo de jovens pintores (é assim, adjetivo primeiro, substantivo depois, que o mercado os denomina), que utilizam fotografias, imagens de internet, frames de circuito interno de monitoramento e que têm aparecido com frequência na mídia, arrematado prêmios e, neste caso, feito exposições individuais em locais conceituados. Alguns deles, poucos, têm um trabalho muito bom, ainda que não surpreendente, enquanto a maioria, evidentemente, é talvez mediana. 

Mas falemos de Ana Prata: suas telas são de variados formatos e sua “técnica” também parece se comprazer na variedade; assim também são suas referências (Gerhard Richter, Peter Doig, histórias em quadrinhos, pintura realista e de paisagem, um toque de humor), o que poderia nos levar a imaginar trabalhos com frescor e apaixonado comprometimento com a pintura. Até nos depararmos com os trabalhos. O que vemos então é o contrário – e algo bem comum hoje – como uma nonchalance, um desleixo, que tentaria tirar daí seu vigor ou importância, mas faltam-lhe sinceridade. Seja em seus escorridos cuidadosamente compostos ou em pinceladas “soltas” simulando reflexos “expressivos” ou na utilização de uma certa ironia (por meio de palavras, tema ou simulação), o resultado não é dos melhores. Na verdade, em alguns casos é bem constrangedor, como nas telas Fim de Festa, Caverna, Olivia e Popeye, Sete Lagoas, e particularmente muito constrangedoras, como O Lobisomem e outra pequena de um casal gay grego… 

Antes o constrangimento pudesse vir dos temas, mas é bem outro o motivo. A atmosfera ameaçadora de uma floresta escura que não se realiza pela pintura tenta se fazer pelo escrito em letras brancas “O lobisomem”? Ou é apenas mais uma ironia? Como é uma tela sem personalidade, não cabe aqui uma decisão. A pequena tela do casal grego é pintada em cores negras e num terracota amarelecido (voilá! Como uma ânfora grega que vemos em fascículos de história da arte vendidos em banca de jornal) com dois gregos transando… é uma tela que, quanto à fatura, não faria feio numa feira de ciências de ensino médio, e quanto a ironia do tema é tão engraçada quanto uma piada ruim contada pela décima-quinta vez.

O problema não é apenas da artista. Inserida em uma terminologia especifica, denominada pintura de imagem, críticos jovens e especificamente os dois curadores não contribuem para amenizar problemas normais em um artista em formação. Conhecida no meio artístico como efeito Tuymans (referência ao pintor belga Luc Tuymans e suas pinturas de cores esmaecidas) ou efeito Richter (referência ao pintor alemão Gerhard Richter, que pinta a partir de fotografias e questiona a associação com a realidade que, convencionalmente, fazemos), essa pintura de imagem torna-se uma chancela contemporânea para os trabalhos, mas, além disso, segundo os curadores, a pintura de Ana Prata é atual por uma valorização de elementos cotidianos ou banais, de um quase nada, que passaria despercebido no enorme “fluxo imagético” graças ao “olhar aguçado” da artista. 

Para comprovar sua tese recorrem ao universo literário e aí aparecem em seu socorro o Aleph borgeano, o jogo de Cortazar e um conto (ou seria crônica?) de uma competente jornalista-escritora-crítica de arte cujo nome me foge à lembrança no momento… Nada disso é necessário; melhor seria terem se concentrado pelo menos na expografia (a segunda sala ocupada pela exposição é, no mínimo, desastrosa), já que dar densidade ao que não possui é como revestir de chumbo uma pluma. Outras tentativas feitas para tentar elucidar este tipo de pintura requentam teses como a existência de um mundo turvo, distorcido, diferente do real como se, pelo menos desde o proto-modernismo, não fosse isto que os pintores fizeram ou, ainda, da possibilidade que estas pinturas dariam a quem as vê de construir suas narrativas (Baudelaire já falava sobre isso há pelo menos 150 anos!).

Finalmente, as pinturas de Ana Prata em sua tentativa de falar da banalidade, do cotidiano, de uma potência existente nos chamados sinais fracos, de um quase nada, atinge seu objetivo, de certa forma: não importa onde estejam, são irrelevantes.

Douglas Rosado é mestre em estética e colecionador de arte.

Leia mais sobre a mostra de Ana Prata – Conformismos contemporâneos

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